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4 fatos para entender as Coreias do Norte e do Sul

Os coreanos do Sul e do Norte vivem de modo distinto há quase 70 anos, mas viveram em um Estado unificado e independente por mais de um milênio.

26/05/2017 19:06 -03 | Atualizado 26/05/2017 19:06 -03
Damir Sagolj / Reuters

Nota do editor: A Coreia do Norte testou recentemente um míssil balístico que caiu no mar entre a Coreia do Norte e o Japão. Os líderes norte-coreanos dizem que seu país possui armas nucleares capazes de alcançar os Estados Unidos, embora outros testes recentes de mísseis coloquem essas afirmações em dúvida.

Os EUA estão intensificando seus exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul, e o presidente Donald Trump afirmou que as ameaças podem levar a um "conflito de grandes proporções". A Coreia do Sul elegeu um novo presidente que pode estar aberto à possibilidade de negociações com a Coreia do Norte.

Pedimos ajuda a uma de nossas analistas, a professora Ji-Young Lee, para entender essa região do mundo.

Veja a seguir quatro coisas importantes a saber.


Por que há uma Coreia do Norte e uma Coreia do Sul?

Antes de existirem as Coreias do Norte e do Sul, a península era governada pela dinastia Chosŏn, que existiu por mais de cinco séculos, até 1910. Esse período, durante o qual a Coreia independente tinha relações diplomáticas com a China e o Japão, terminou com a anexação da península pelo Japão imperial. O governo colonial do Japão durou 35 anos.

Em 1945, quando o Japão se rendeu aos Aliados, a península coreana foi dividida em duas zonas de ocupação: a Coreia do Sul, controlada pelos Estados Unidos, e a Coreia do Norte, controlada pela URSS. Em 1948, em meio a tensões crescentes da Guerra Fria entre Moscou e Washington, foram estabelecidos dois governos diferentes em Pyongyang e Seul. Kim Il-Sung, o líder da Coreia do Norte, era um ex-guerrilheiro que combatera sob o comando chinês e russo. Syngman Rhee, anticomunista ferrenho formado pela Universidade Princeton, se tornaria o primeiro líder da Coreia do Sul.

Combatentes norte-coreanos em Seul durante a Guerra da Coreia. Korean Central News Agency/Korea News Service via AP Images

Em junho de 1950, em um esforço para unificar a península coreana sob seu regime comunista, Kim Il-Sung invadiu a Coreia do Sul com ajuda soviética. Com isso, a Coreia do Sul e os Estados Unidos, com o apoio das Nações Unidas, entraram em choque com a recém-fundada República Popular da China e com a Coreia do Norte. As hostilidades foram suspensas com um acordo de armistício firmado em 1953. Tecnicamente falando, porém, as duas Coreias ainda estão em guerra.

Tirando a divisão política, os coreanos do Norte e do Sul são culturalmente muito diferentes? Se sim, de que maneira?

Os coreanos do Sul e do Norte vivem de modo distinto há quase 70 anos. Contudo, a história coreana e a memória coletiva de terem formado um Estado unificado e independente por mais de um milênio lembram a todos os coreanos que eles possuem uma identidade, uma cultura e uma língua comum.

Por exemplo, nas duas Coreias a história de resistência ao colonialismo japonês é fonte importante de nacionalismo. Os estudantes tanto do Norte quanto do Sul aprendem na escola sobre o Movimento de Independência de 1º de março de 1919.

Outra questão a levar em conta é a língua coreana. Cerca de 54% dos norte-coreanos que fugiram do país para viver na Coreia do Sul dizem que não têm grande dificuldade em compreender o coreano falado na Coreia do Sul. Apenas 1% deles disseram que não o entendem.

Mas, desde que a península se dividiu para formar dois países, as divergências políticas entre as Coreias do Norte e do Sul geraram diferenças na visão da vida e do mundo entre os coreanos dos dois lados. A vibrante democracia sul-coreana é fruto do movimento de massas de estudantes, intelectuais e cidadãos da classe média. Na Coreia do Norte, a propaganda política do Estado e a ideologia do Juche, ou autossuficiência, foram usados para consolidar o governo sob o comando único da família Kim, ao mesmo tempo reproduzindo um modo de pensamento forjado para ajudar o regime a sobreviver.

O que aprendemos com os desertores norte-coreanos que se radicaram na Coreia do Sul?

Em setembro de 2016 havia estimados 29.830 desertores norte-coreanos vivendo na Coreia do Sul. Através deles tomamos conhecimento de detalhes do cotidiano da população em uma das sociedades mais fechadas do mundo. Por exemplo, apesar da repressão, hoje há mais norte-coreanos que assistem a séries de TV dramáticas da TV da Coreia do Sul.

Na Coreia do Norte, a repressão, a vigilância dos cidadãos e a punição são elementos onipresentes na vida social. O Estado se utiliza da coerção e do terror para garantir a conservação do regime.

Mesmo assim, nem todos os norte-coreanos gostariam de deixar o país. Segundo a antropóloga Sandra Fahy, alguns entrevistados disseram que abandonaram a Coreia do Norte principalmente devido à fome e dificuldades econômicas, e não por razões políticas. A maioria deles sentia saudades da Coreia do Norte.

Mesmo assim, Thae Yong-ho, ex-diplomata norte-coreano que abandonou o país em 2016 para viver na Coreia do Sul, acredita que a Coreia do Norte de Kim Jong-un pode enfrentar uma insurreição popular ou a deserção das elites, na medida que os norte-coreanos estão ficando cada vez mais desiludidos com o regime.

Qual é a história das relações dos EUA com a Coreia do Sul e em que pé estão agora?

A finalidade da aliança entre EUA e Coreia do Sul pouco mudou desde que foi formada, em 1953. Isso se deve em grande parte à continuidade das ameaças vindas da Coreia do Norte.

No entanto, apesar de divergirem em sua abordagem à Coreia do Norte, o presidente George W. Bush e o presidente sul-coreano Roh Moo-hyun deram um passo importante no sentido de transformar a aliança forjada durante a Guerra Fria em uma "aliança estratégica ampla". Muitos consideram que a aliança EUA-Coreia do Sul viveu sua fase melhor sob o presidente Barack Obama e os presidentes sul-coreanos Lee Myung-bak e Park Geun-hye. Sob a liderança deles, Washington e Seul concordaram em ampliar o alcance da aliança para cobrir ameaças não convencionais, como o terrorismo e a proliferação de armas de destruição em massa, além de outros desafios globais como a pirataria e as doenças endêmicas, ao mesmo tempo continuando a manter uma frente coordenada contra as provocações da Coreia do Norte.

Agora, com Moon Jae-in e Donald Trump como os novos presidentes da Coreia do Sul e dos Estados Unidos, existe um grau maior de incerteza. Entre outras coisas, Trump criticou o Acordo de Livre Comércio EUA-Coreia do Sul e insistiu que Seul pague pelo Thaad, um sistema americano de defesa antimísseis posicionado na Coreia do Sul. Moon, cujos pais fugiram da Coreia do Norte durante a Guerra da Coreia, provavelmente terá como uma de suas maiores prioridades buscar a reconciliação entre as duas Coreias. Isso pode colidir com a abordagem atual dos EUA de impor sanções à Coreia do Norte.

Este post foi originalmente publicado no The Conversation e traduzido do inglês.

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