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Soninha Francine critica ação da prefeitura na Cracolândia: 'Não queria nada açodado'

Em entrevista exclusiva, a ex-secretária de Desenvolvimento Social de Doria explica a complexidade na assistência a dependentes de crack em SP.

26/05/2017 00:32 -03 | Atualizado 26/05/2017 10:47 -03
Reprodução/SECOM
Ex-secretária de Assistência Social, Soninha Francine fala sobre projeto Redenção e ações na Cracolândia.

Em abril deste ano, o prefeito de São Paulo, João Doria, anunciou a saída de Soninha Francine da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social de sua gestão. Em seu lugar assumiu o adjunto Filipe Sabará.

Na época do afastamento, Doria argumentou que Soninha não tinha o "perfil" necessário para a sua gestão. No mesmo dia, em seu perfil do Facebook, a vereadora explicou que não tinha "correspondido ao ritmo do prefeito".

"Fico chacoalhando os alicerces para ter certeza de que sustentarão a estrutura; para que caia o que não está firme e consigamos reforçá-los na medida exata. Até porque tem coisas que exigem um pouco menos de pressa..."

Hoje, pouco mais de um mês após entregar o cargo, Soninha acompanha de perto os efeitos da operação policial na Cracolândia que ocorreu no último domingo (21).

"A pior coisa que as pessoas podem pensar sobre a Cracolândia é que é um organismo simples. Aí, então é só dar moradia, é só oferecer um trabalho ou é só internar. Nenhuma fórmula que se sustente em um 'é só' vai funcionar. É só internar, desintoxicar que resolve. Não. É complexo", explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

Ainda no comando da pasta, Francine trabalhava em parceria com a Secretaria de Saúde e de Direitos Humanos no desenvolvimento das fases do projeto Redenção, que, de acordo com ela, deveria se chamar "Singularidades".

"Esse projeto tinha como palavras-chave a singularidade, o vínculo, a linha de cuidado, housing first e o projeto terapêutico personalizado. A Patrícia [Bezerra, ex-secretária de Direitos Humanos] já estava tendo problemas na construção desse plano. Como eu, ela também sempre teve muita pressa, porque a gente sabe que é um problema urgente. Mas a gente nunca quis fazer nada de um jeito açodado. Acho que esse era um ponto de divergência [na gestão]. De perspectiva mesmo. Porque esse pensamento de que vai ser resolvido tudo com a maior rapidez está atrelada à ideia de que é simples resolver a Cracolândia", complementa.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a vereadora eleita pelo PPS na capital paulista falou sobre sua experiência na pasta e sobre os próximos passos no tratamento de usuários e dependentes do crack.

Leia os principais trechos:

HuffPost Brasil: Quando você estava na pasta de Assistência Social chegou a ter algum contato com o planejamento de ações de combate ao crack?

Soninha: A gente estava desenvolvendo uma linha de ação em conjunto e bem harmonizada com a Saúde e com a pasta de Direitos Humanos. Essa linha de ação previa uma participação muito maior da assistência social do que acontece hoje em dia. Hoje em dia a assistência social tem uma participação muito importante, mas é limitada. Um dos primeiros passos da assistência social era deixar as equipes 24h no território. Ainda, ter um espaço de encontro, de acolhida e de coordenação lá. Esse espaço seria a antiga tenda. A tenda na Helvétia há muito tempo deixou de ser uma tenda. Ela nunca foi propriamente um serviço do Braços Abertos. Hoje em dia ela não tem nenhuma gestão. A sede da equipe de assistência é na rua Guaianases. Então, a gente faria ali na Helvétia realmente uma base, uma sede das equipes de abordagem e um espaço que funcionaria 24h de autocuidados, ou seja, um local para tomar banho, para lavar a própria roupa, para descansar de dia ou de noite, e para fazer um atendimento socioassistencial a partir do qual você conseguiria junto aos profissionais de saúde traçar um planejamento para cada pessoa.

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Então esse era o projeto Redenção, da prefeitura? Que outros elementos ele previa?

Isso a gente estava até chamando de pré-Redenção, porque era uma ação imediata, para começar o quanto antes. Outro ponto que estava bem pacificado na gestão era o de que ninguém saia de onde estava se não tivesse outro lugar para ir. Aqueles hotéis que vieram do programa Braços Abertos no entorno da Cracolândia são muito ruins. A qualidade deles é péssima do ponto de vista da segurança, da salubridade, da dignidade. Agora, a gente não pode tirar as pessoas daqueles hotéis horríveis enquanto não tiver um lugar que elas possam ir. Essa era outra ação em andamento para a qual a gente tinha máxima urgência, mas que evidentemente é mais complexa. Você ter lugares à disposição para cada uma daquelas pessoas, daqueles grupos familiares, respeitando os arranjos feitos que já estavam funcionando bem.

E o que significa esse respeito aos arranjos?

São pessoas que já estavam convivendo bem e crescendo juntas, vamos dizer. Pessoas que davam força umas às outras, que já estavam harmonizadas. A gente tinha o propósito de encontrar imóveis que pudessem servir como repúblicas mistas. A gente teria que fazer uns ajustes porque de acordo com a norma nacional as repúblicas não podem ser mistas. A gente tava negociando tudo isso, até para mexer na norma para que as repúblicas recebessem pessoas do mesmo sexo e mantivessem os diversos arranjos familiares. Então, você poderia acolher um casal com filho pequeno em um quarto, três ou quatro pessoas amigas em outro. Enfim, era um projeto bem elaborado no sentido de contemplar a imensa diversidade de perfis que encontramos na Cracolândia. As pessoas têm muito em comum, mas cada uma delas tem a sua singularidade e precisamos respeitar essas singularidades. Por isso que eu falei que tinha uma fase pré-Redenção, que era a presença constante no território enquanto se providenciava as outras estruturas de acolhimento.

Você acha que é viável esse projeto acontecer após a ação da prefeitura com a polícia?

Nós não voltamos para a estaca zero, mas recuamos três, quatro, cinco ou mais passos atrás em relação até onde a gente já havia caminhado. A gente estava realmente evoluindo para essa presença de serviço 24h. Agora muda completamente o cenário. Você tem as pessoas desarticuladas, desagregadas, dispersas. Então para aquelas pessoas que você já teria uma linha de cuidado, um processo terapêutico melhor direcionado, você rompe isso. E é muito difícil você recuperar assim do nada. Mas tem que conseguir fazer aquilo que foi planejado. Não adianta falar 'putz, agora já foi, agora é só internando todo mundo'. O jeito que tem continua sendo iniciar o quanto antes um processo que é longo.

E quais são os próximos passos para atender essas pessoas, apesar da desarticulação?

Não tem o que achar. Não tem questionamento. Essas medidas precisam ser implementadas. É o que tem que ser feito e pronto. Você tem que ter uma oferta de atendimento social bem coordenada com o atendimento de saúde. A fórmula é essa. Mas não quer dizer que seja uma fórmula simples. Pelo contrário. A pior coisa que as pessoas podem pensar sobre a Cracolândia é que é um organismo simples. Ai, então é só dar moradia, é só oferecer um trabalho ou é só internar. Nenhuma fórmula que se sustente em um 'é só' vai funcionar. É só internar, desintoxicar que resolve. Não. É complexo. Não tem como ser diferente daquilo que a gente estava construindo com o espaço de atendimento, a criação de vínculos e o planejamento real de um projeto. Enquanto isso, na cidade, é preciso estruturar outros pontos de atendimento ao usuário de crack. O próprio Braços Abertos começou a fazer isso. Antes, todos os hotéis ficavam no fluxo. Aos poucos, foram sendo criados hotéis fora do fluxo: na Freguesia do Ó, no Ipiranga e no Parque Dom Pedro. Esse era o movimento de você oferecer espaços de acolhida em outros lugares da cidade com a possibilidade de um tratamento de saúde em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPs).

O prefeito e o Estado acreditam que a dispersão será uma grande ajuda no combate ao tráfico e na abordagem dos dependentes...

Com a dispersão, a abordagem vai ser mais difícil. Mas não é que essa abordagem era fácil. Na Cracolândia tudo é tensão. É um lugar de conflito, de violência. De uns tempos pra cá, até as equipes de atendimento social e saúde, que normalmente eram preservadas pelo crime, havia aquele respeito, né, a gente não era visto como inimigos, mas aí até essas equipes vinham sendo ameaçadas nos últimos tempos. Eu presenciei. O tráfico obrigou os trabalhadores a deixarem o prédio do Recomeço [programa do governo do estado]. No primeiro momento era a proteção. Eles diziam: sai todo mundo porque o bicho está pegando. Depois, enquanto tudo ainda estava tenso, o tráfico buscou o pessoal da saúde e os obrigou a voltar para o prédio. O trabalho na Cracolândia não é fácil. Tem tensão e tem violência. Mas, ali, as pessoas já se conheciam. E esse contato faz toda a diferença. Vínculo é uma palavra-chave em assistência social. Rompido o vínculo, fica difícil a abordagem. Não é só uma questão de espaço físico. Não é a questão de que agora as pessoas estão em locais diferentes. Mesmo que as pessoas não tenham ido para muito longe, restabelecer essa conexão em cima de um projeto fica mais complicado.

A secretária de Direitos Humanos Patrícia Bezerra entregou o cargo à prefeitura. Você acha que isso vai ter algum impacto nas próximas etapas da ação na Cracolândia?

A secretária sempre esteve muito alinhada com a Assistência Social e a Saúde. A gente estava construindo juntos esse projeto que tinha como palavras-chave a singularidade, o vínculo, a linha de cuidado, housing first e o projeto terapêutico personalizado. Então existia uma harmonia muito grande entre essa ideia do que seria o bom atendimento. Eu sei que a Secretaria de Direitos Humanos já estava tendo problemas na construção desse plano. Como eu, a Patrícia também sempre teve muita pressa, porque a gente sabe que é um problema urgente. Mas a gente nunca quis fazer nada de um jeito açodado. Ela estava muito preocupada com a escalada de violência na Cracolândia, mas sempre foi muito cuidadosa em conciliar o sentido da urgência com a prudência. Era preciso fazer alguma coisa, mas não qualquer coisa. A gente lidava com isso. Por isso que eu sempre insisti muito na fase pré-Redenção. Antes de você fazer qualquer coisa era preciso montar uma base de apoio e coordenada 24h na Cracolândia.

No seu ideal, o serviço 24h funcionaria melhor. Mas como é atualmente?

O que se tem no serviço social hoje é o serviço de albergue, que é muito ruim. É preciso um serviço que vá acolher a qualquer hora, com entrada e saída, de portas abertas. A gente estava bem encaminhado para aplicar esse serviço na Helvétia e na região da 9 de Julho, que também é um ponto bem central e que chega 21h da noite, se tiver alguém na tenda, é expulso. Eu e a Patrícia em vários momentos dividimos a nossa aflição com algumas coisas que demoravam a acontecer e com outras coisas que eram feitas de forma precipitada.

Você sentia a pressão de ter que tomar decisões que contivessem o problema de imediato?

A gente já acreditava que a prefeitura de um modo geral tinha chegado a um consenso de que não seria rápido. Que era pra começar o quanto antes um processo que seria longo. A gente lidava com a expectativa de algumas pessoas que pensavam "ah, mas quando começar eu quero tudo resolvido rápido". Acho que esse era um ponto de divergência. De perspectiva mesmo. Porque esse pensamento de que vai ser resolvido tudo com a maior rapidez está atrelada à ideia de que é simples resolver a Cracolândia. Que é só colocar as equipes na rua e as pessoas vão sair dessa situação. Como se fosse uma trajetória infalível. Você faz a abordagem, oferece o tratamento e as pessoas vão se reestruturar. Mas o que a gente sempre soube na Saúde, na Assistência Social e no Direitos Humanos é que é muito mais complexo. E vou te falar que até mesmo o secretário de Segurança sabe o quão complexo é. Mas a tarefa dele é outra, né? É lidar com o domínio territorial do tráfico. A gente até brincava nas reuniões com a Defensoria e o Ministério Público que se a gente fosse batizar o projeto ele teria outro nome, e provavelmente seria Singularidade, não Redenção, né?

Existe alguma outra estratégia de outros países que poderia ser aplicada aqui em São Paulo no combate ao uso do crack?

Uma das experiências de outros lugares que ainda não aconteceu no Brasil, e que é super ousado, vai enfrentar grandes resistências, mas que eu defendo plenamente, são as salas de uso seguro. Já existe para o uso de crack e heroína em alguns países. É uma mudança radical. Hoje, mesmo que você ofereça um ótimo atendimento de saúde a essa pessoa, ela vai usar a droga na rua. Eu não posso permitir que alguém use crack dentro de um centro de acolhida. Tem que ter pactos de convivência e essa é uma das primeiras regras com qualquer um que seja atendido. Mas se a pessoa está tendo acompanhamento de saúde e social, está indo ao trabalho, mas continua dependendo da droga, ela vai usar na rua, debaixo de um viaduto, numa calçada, em qualquer beco. Para completar o tratamento dessa pessoa, oferecer essa atenção com dignidade, ela precisa ter um espaço que não seja a sarjeta. As salas de uso seguro completam o atendimento a essa pessoa fechando a ideia de que ela está em tratamento. E se ela está em tratamento, o que a gente prefere para ela? E se fosse seu filho? Seu filho é dependente de crack. Você ia preferir que ele ficasse por aí ou em um lugar limpo, supervisionado, com apoio se ele precisar de ajuda? O resultado disso é exatamente o que as pessoas que são contra as salas de uso querem: a redução da dependência. As pessoas começam a diminuir e param de usar. Você não condiciona isso: ó, para usar a sala você tem que prometer que vai diminuir. Pelo contrário. As pessoas por si só quebram um ciclo de autodestruição e degradação. Elas começam a se reconstruir. A sala de uso seguro precisa ser discutida com coragem. Como um dia já foi corajoso distribuir camisinha, usar anticoncepcional, fornecer remédio de combate ao HIV. Só que isso tudo foi ousado há 30 anos. Faz tempo que a gente não é ousado né? Usuário de crack, seja aqui ou na Suíça, continua sendo usuário de crack. E se lá eles precisam dessa estrutura pro cara não se acabar na rua, o que dirá aqui no Brasil, né?

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