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Ação de Doria na Cracolândia é 'midiática', diz ex-coordenador do Braços Abertos

'A Cracolândia não existe mais' é um absurdo, como declarou o então prefeito. Ele tá dizendo o quê? Que a miséria social acabou? Óbvio que não.'

24/05/2017 20:06 -03 | Atualizado 24/05/2017 22:24 -03
SECOM
No último domingo (21), uma operação policial surpreendeu os frequentadores da Cracolândia em São Paulo.

Sentados, eles formam rodas de conversa. Em pé, as expressões corporais falam por eles. Muitas vezes passam despercebidos aos olhos de quem caminha lado a lado. Mas quando estão juntos, eles são notados, marcados, afastados. Deixam de ser humanos. São zumbis.

A maioria é negra. O ambiente é sujo. E a fumaça é resultado da queima das pedras nos cachimbos. Nas redondezas de uma das construções mais imponentes do centro de São Paulo, a Estação Julio Prestes, forma-se o "fluxo", nome que se dá para a concentração de usuários de drogas, principalmente o crack.

No último domingo (21), uma operação policial surpreendeu os frequentadores da Cracolândia em São Paulo. Classificada como "tragédia" e "selvageria", a intervenção tinha como objetivo enfrentar o tráfico de drogas.

Desde então, foram presas mais de 30 pessoas, resultado do trabalho de cerca de 900 policiais que ocuparam a área.

Na tarde da terça-feira (23), uma série de demolições de imóveis estava programada para revitalizar a região. O desabamento de um muro chegou a deixar feridos e os presentes estavam indignados, pois a prefeitura estava fazendo o uso de escavadeiras em prédios ainda ocupados.

O prefeito João Doria afirmou que a Cracolândia tinha "acabado". Mas, na opinião de Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatra e ex-coordenador do programa Braços Abertos, que fora implementado na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad, a operação apenas disseminou os usuários e dependentes químicos.

"É um retorno à estaca zero. É o retorno da política de dor e sofrimento. Você desfaz todo o vínculo que foi construído na gestão anterior. E esse vínculo é importante para resgatar e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Agora é confronto", argumenta.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Xavier da Silveira comentou as últimas intervenções na Cracolândia:

Como você avalia a operação da atual gestão na Cracolândia que vem sendo feita desde o último domingo?

A ação que foi feita pela prefeitura é repressiva, policialesca e muito truculenta. A justificativa é de que isso se dirija aos traficantes, mas na verdade ela recai na população em situação de rua. É uma operação que já foi feita em São Paulo em outras gestões sem nenhum sucesso. Porque a gente sabe que não é assim que se pega traficante. Você não desmantela nenhuma rede de tráfico com esse tipo de ação. Você precisa de um sistema de inteligência que vai acessar os grandes traficantes que certamente não estão ali.

E qual a razão de existir dessa intervenção, então?

Me parece uma atitude de propaganda política e midiática da prefeitura para chamar atenção e dizer que algo está sendo feito na Cracolândia. Inclusive, declarações do tipo 'A Cracolândia não existe mais' são um absurdo, como declarou o então prefeito. Ele tá dizendo o quê? Que a miséria social acabou? Óbvio que não, né.

Como isso pode afetar os frequentadores do fluxo?

Nas vezes anteriores em que isso aconteceu, a população de rua além de sofrer demais com isso, elas perdem o espaço delas, a referência, e, sobretudo, perdem a credibilidade no sistema e no governo. Ou seja, se na prefeitura anterior do Haddad existia o Braços Abertos, que nada mais era do que a proposta multidisciplinar de acolhimento e atendimento, agora não. Agora é confronto. Você desfaz todo o vínculo que foi construído na gestão anterior. E esse vínculo é importante para resgatar e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

O que acontece depois da intervenção policial na região?

As pessoas saem do fluxo, vão para bairros vizinhos, bairros distantes. Mas elas continuam com seus problemas e com a sua miséria social. E enfrentam isso com seu uso de drogas. Ele não resolveu, ele apenas dispersou a Cracolândia. Esse é o equívoco. Uma pessoa que não tem onde dormir, não tem o que comer, passa frio, tem problemas de saúde, vive na rua, é agredido constantemente, o que resta pra ela? Usar algo pra atenuar o sofrimento. E vai optar pelo que é mais barato: o crack e o álcool. Se alguém nos bairros de classe média e alta vai usar a droga, eles usam no conforto e segurança de suas casas. O morador de rua usa no espaço público. Ele que é o criminoso... Por que uma pessoa com maior poder financeiro pode ser um usuário e a população de rua é criminosa? Vai fingir que ninguém usa droga? É uma grande hipocrisia.

O prefeito pediu autorização para internar compulsoriamente os dependentes químicos. Essa é uma saída viável?

Aconteceu uma atitude policialesca que se baseia nessa falsa premissa de prender traficante. Mas também ela é baseada na premissa de que as pessoas que usam drogas vão ser internadas involuntariamente em clínicas ou em unidades terapêuticas. Isso é outro absurdo. A internação, seja em clinica psiquiátrica, crônica ou terapêutica, é algo que se for contra a vontade da pessoa tem uma eficácia muito baixa. Mais de 90% desses dependentes vão voltar às drogas no momento em que deixarem a internação. Depois, a gente nem sabe se todos aquelas pessoas precisariam de tratamento. Eles poderiam ser apenas usuários.

Após a intervenção policial, a gestão disse que irá colocar em prática as medidas de acolhimento e tratamento previstas no programa Redenção...

Só o fato de ter existido essa truculência policial no território já vai afastar os usuários. Eles simplesmente não vão estar abertos a nenhum tipo de diálogo. É um contrassenso. Como assim você agride e acolhe? Eles perderam uma grande chance de fazer um trabalho para dar certo e, no lugar, retomaram um tipo de ação que já havia sido comprovado que não funciona. Então, os últimos em que se pensaram foram naqueles que frequentam a Cracolândia.

Mas tem gente que diz que continuar no fluxo é a mesma coisa que estar usando a droga, você concorda?

As pessoas vão usar drogas havendo fluxo ou não. A ideia do fluxo é realmente concentrá-las em um ponto para que a gente tenha algum tipo de manejo e acesso a essa população. Então, mandar a polícia dispersar o fluxo, você interrompe o acesso àquelas pessoas e aí não tem o que fazer para ajudá-las. Muita gente questionou que quando o Braços Abertos foi sendo implementado, aumentou o número de pessoas no fluxo. Claro que aumentou. O programa era de acolhimento. As pessoas não iam querer ir pra lá se soubessem que vão apanhar e ser presas. Então, se tem uma concentração, a gente consegue agir, pensar em alguma intervenção de tratamento, que é o que realmente precisa.

E qual foi a eficácia do programa Braços Abertos?

No governo anterior, muitas pessoas só de terem um lugar para morar, um trabalho para ir, comida para se alimentar, elas pararam de usar drogas. A droga é consequência de uma miséria social. Ela não é causa desse problema. É isso que as pessoas precisam entender. Não é pegar a pessoa forçadamente e jogá-la em uma clínica para parar de usar droga e depois ela volta a ser miserável? Com essa estratégia você não resolve o problema de uso de drogas. Estamos vendo um retorno à estaca zero, sem dúvidas. É um retorno à política de dor e sofrimento, como era chamado na época do Kassab, e é muito parecida com o programa do governo, do [Geraldo] Alckmin, que é uma estratégia baseado na intervenção forçada.

Existem outras experiências que comprovam a eficácia das políticas de redução de danos, como do Braços Abertos?

Isso já foi testado no mundo inteiro. Esse tipo de intervenção forçada é de baixa eficácia. A eficácia está na associação de toda a questão psicosocial. Não adianta você artificialmente e forçosamente pedir que o indivíduo pare de usar drogas. Você tem que oferecer condições de ele melhorar de vida. Ninguém inventou nada no Braços Abertos. Foi baseado em modelos bem-sucedidos nos Estados Unidos, Canadá e na França. Foram feitos estudos científicos comparando modelos mais intervencionistas e aqueles que trabalham na redução de danos. Quando a internação é forçada, quando o programa é coercitivo, apenas 20% do grupo ficava abstinentes depois de 3 anos. Já com medidas de redução de danos a taxa é de 70%.

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