POLÍTICA

'Fui ingênuo ao receber o empresário grampeador', diz Temer à Folha

Em entrevista ao jornal, presidente reafirma que não vai renunciar e nega que soubesse de investigações sobre Joesley Batista, da JBS.

22/05/2017 08:41 -03 | Atualizado 22/05/2017 08:41 -03
Ueslei Marcelino / Reuters
Temer nega que soubesse das investigações sobre Batista, a quem chama de "empresário grampeador".

A semana começa em Brasília sob efeitos do terremoto causado pela delação-bomba de Joesley Batista, dono da JBS. O presidente Michel Temer concedeu uma tensa entrevista à Folha de S.Paulo, publicada nesta segunda-feira (22), em que demonstra irritação com diversas perguntas dos jornalistas.

Temer reafirmou que não renunciará pois tal gesto seria "uma declaração de culpa". "Se quiserem, me derrubem", disparou. Ele tampouco acredita que o turbilhão que vem enfrentando vá interferir no julgamento da chapa com Dilma Rousseff no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), marcado para 6 de junho.

Em caso de cassada a chapa, o presidente promete recorrer. "Usarei os meios que a legislação me autoriza a usar", informou.

Sobre as gravações de Joesley Batista, a quem tem acusado de ser "falastrão" e de dizer "mentiras", Temer defende que não cometeu prevaricação por ouvir os crimes relatados pelo empresário e não ter tomado qualquer atitude.

Eu ouço muita gente, e muita gente me diz as maiores bobagens que não levo em conta. Confesso que não levei essa bobagem em conta... Ele foi levando a conversa para um ponto, as minhas respostas eram monossilábicas.Michel Temer, em entrevista à Folha.

O presidente disse que achava que Batista queria conversar com ele sobre as consequências da Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, e que por isso o atendeu tarde da noite em sua casa.

Apesar de uma visita como a do dono dos frigoríficos ter de constar em sua agenda, Temer disse que "às vezes" há pessoas que querem conversar com ele após às 22h. O peemedebista admite que o compromisso "rigorosamente" deveria constar da agenda, mas não reconhece a ausência como falha, mas sim como "hábito".

Talvez eu tenha de tomar mais cuidado. Bastava ter um detector de metal para saber se ele tinha alguma coisa ou não, e não me gravaria.Michel Temer, em entrevista à Folha.

O presidente afirma que não sabia que Batista era investigado pela Polícia Federal na época da gravação, em março deste ano. Segundo ele, o empresário apenas afirmara que "estavam tentando apanhá-lo, investigá-lo".

Temer diz que sua única culpa foi "ingenuidade". "Fui ingênuo ao receber uma pessoa naquele momento", disse, referindo-se a Joesley Batista como "empresário grampeador".

O peemedebista também tentou defender seu ex-assessor Rodrigo Rocha Loures (PMDB-RJ), flagrado correndo com mala cheia de dinheiro na rua.

"Ele é um homem, coitado, ele é de boa índole, de muito boa índole", defendeu. "Agora, que esse gesto não é aprovável", ponderou.

Segundo conversa gravada por Batista, Temer indica ao interlocutor procurar Rocha Loures para resolver problemas da JBS. A Polícia Federal filmou Rocha Loures recebendo propina de R$ 500 mil de Ricardo Saud, diretor da JBS.

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