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Temer e Trump: Infortúnios compartilhados

A impopularidade das reformas propostas – Temer, da Previdência e dos direitos trabalhistas, e Trump, do sistema de saúde – potencializa a oposição.

21/05/2017 09:35 -03 | Atualizado 21/05/2017 09:40 -03
NurPhoto via Getty Images
Bonecos de Olinda de Trump e Temer foram destaque no Carnaval de Pernambuco neste ano.

No espaço de uma semana, os presidentes do Brasil e dos Estados Unidos, Michel Temer e Donald Trump, se viram, em diferentes graus é bem verdade, imersos em situações delicadas, perderam apoio em suas respectivas bases políticas e foram obrigados a contemplar a real possibilidade de não completar seus mandatos.

Foi um par de frases que balançou as maiores democracias do Hemisfério Ocidental:

"I hope you can let this go." Foi assim que Donald Trump pediu ao então diretor do FBI, James Comey, que abandonasse a investigação sobre os laços de sua campanha, especialmente do ex-conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn, com o governo russo.

"Tem que manter isso, viu." Foi como Michel Temer endossou (no mínimo) ou pediu (no máximo) o contínuo suborno do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha pelo dono do grupo JBS Joesley Batista. O objetivo era evitar que este expusesse à Operação Lava Jato detalhes sobre os muitos escândalos de corrupção de que teria participado ou teria conhecimento.

Ambas as declarações representam indícios de que os respectivos chefes do Executivo não querem ver a continuação ou muito menos o sucesso de investigações que já se aproximam do núcleo de seus governos. Dão origem, assim, à suspeita de que estão se engajando em ações para interrompê-las, frustrar seus objetivos e obstruir a efetiva ação da Justiça.

Não é, entretanto, a acusação de obstrução de justiça que os derrubará, se isso vier a acontecer. Essa acusação representa apenas a ponta do iceberg, em ambos os casos. Na prática, são ações anteriores e muito mais amplas que os condenarão.

A impressão de que houve colusão entre a campanha à presidência de Trump e autoridades russas vem ganhando contornos mais sólidos desde a sua posse. Relatos de reuniões entre oficiais da campanha e representantes do governo russo e transações financeiras apenas confirmam o que muitos já suspeitavam: Putin agiu para que Trump se elegesse.

A divulgação de informações privadas de membros da campanha de Hillary Clinton foi a manifestação mais visível dessa interferência. E o recente compartilhamento de informações sigilosas por Trump sinaliza que a estratégia russa já rende frutos concretos.

De outro lado, o envolvimento de Michel Temer com os escândalos revelados pela Operação Lava Jato é mais intrincado que essas poucas linhas permitem revelar. Além do comprometimento de inúmeros ministros, senadores e deputados que compõem seu núcleo político, as acusações de que teria recebido propina para financiar sua campanha eleitoral se acumulam.

Ambos os presidentes se sustentam em bases igualmente frágeis. Temer não foi sequer eleito como presidente, mas vice da chapa de Dilma Rousseff. Acusações de desvios, caixa dois e fraudes nas finanças de sua campanha – e apenas tremendo esforço retórico reconhece a separação de sua campanha daquela de Dilma – servem como âncoras à sua legitimidade.

Já Trump carrega, como mencionado, uma pesada pecha: é o candidato de Vladimir Putin. Os sucessivos escândalos e trapalhadas de uma Casa Branca que ainda não se encontrou drenam a energia que levou o empresário ao poder. É a única explicação para a incapacidade de aprovar qualquer legislação significativa, apesar de seu partido controlar ambas as casas do Congresso norte-americano.

Também em comum o curto período no poder. Temer completou recentemente um ano de governo, enquanto Trump alcançou, há pouco, a marca de cem dias no poder. Nenhum dos dois, por diferentes motivos, gozou de lua de mel com o público. Seus índices de popularidade estão no vermelho.

Além do componente pessoal, a impopularidade das reformas propostas – Temer, da Previdência e dos direitos trabalhistas, e Trump, do sistema de saúde – potencializa a oposição, que vê neste momento uma oportunidade para descarrilhar essas reformas.

O que determinará o futuro dos dois governantes é o comportamento de suas bases políticas. Afinal, as oposições já se radicalizaram há muito no sentido de exigir sua saída do poder ou, ao menos, de bloquear toda a agenda proposta. E, nesse ponto, Michel Temer leva vantagem.

Político de carreira, Temer demonstra, até o momento, absoluto controle sobre o PMDB. A defecções na base aliada também foram menores do que se esperava. Por outro lado, Donald Trump, orgulhosamente outsider, já começa a sofrer com deserções no Partido Republicano em diversas questões-chave. A presença de um vice – Mike Pence – mais afável e maleável faz o prospecto de um, ainda improvável, impeachment menos cataclísmico para as elites republicanas.

Apesar disso, as engrenagens para a retirada de Temer do poder – via cassação no TSE, processo judicial no STF ou impeachment no Congresso Nacional – encontram-se muito mais avançadas. Nos EUA, a indicação de um promotor especial para investigar Trump representa, potencialmente, apenas o passo inicial de um longo processo.

Um último ponto em comum pode ser foco de esperança para a população brasileira: a solidez das instituições brasileiras em nada ficou devendo às norte-americanas. Se a Constituição brasileira tem 200 anos a menos que a dos EUA, já se demonstrou resistente a intempéries diversas e dá sinais de que carregará o País através de mais essa crise.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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