POLÍTICA

Temer chama delator de falastrão e insiste: ‘Meu governo não sairá dos trilhos’

"Estamos acabando com os velhos tempos das facilidades aos oportunistas e isso incomoda muito. Quebraram o Brasil e ficaram ricos."

20/05/2017 15:23 -03 | Atualizado 20/05/2017 15:28 -03
Igo Estrela via Getty Images
Michel Temer: "Quebraram o Brasil e ficaram ricos".

Diante da notícia de que a gravação do delator Joesley Batista, entregue ao STF (Supremo Tribunal Federal) foi editada, o presidente Michel Temer reuniu forças para fazer um novo pronunciamento em rede nacional. Na tarde deste sábado (20), em um discurso de 13 minutos, ele afirmou que pediu ao Supremo que suspenda o inquérito contra ele "até que seja verificada a autenticidade da gravação clandestina".

Segundo ele, a gravação foi manipulada e adulterada com "objetivos nitidamente subterrâneos". Para ele, houve um engano induzido que trouxe grave crise ao Brasil.

O Brasil que já tinha saído da mais grave crise econômica de sua história vive agora - devo reconhecer - dias de incerteza.

O presidente aproveitou para questionar a conduta de Joesley. Para o peemedebista, o empresário, dono da JBS, "não foi julgado nem punido, cometeu o crime perfeito".

"Especulou contra a moeda nacional, a notícia foi vazada por gente ligada ao grupo empresarial, e antes de entregar a gravação comprou IS$ 1 bilhão porque sabia que causaria o caos no câmbio. Também vendeu ações da empresa antes da queda, sabendo que a empresa seria desvalorizada depois. A JBS lucrou milhões de dólares em 24 horas. Prejudicou o brasil, enganou os brasileiros e agora mora nos Estados Unidos", emendou.

Temer apontou ainda incoerência entre áudio e teor do depoimento. Disse que seu governo moralizou o BNDES.

Estamos acabando com os velhos tempos das facilidades aos oportunistas e isso incomoda muito. Quebraram o Brasil e ficaram ricos.

Temer diz que conversou com o empresário como tem o costume de fazer com diversas autoridades, intelectuais e pessoas comuns.

E finaliza:

Meu governo tem rumo. Meu governo não sairá dos trilhos.

Gravação editada

Embora laudos diferentes feitos por peritos a pedido da Folha de S. Paulo e do Estadão apontem alterações no áudio, eles indicam que não houve edição na parte em que o empresário e o presidente falam sobre o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Na delação premiada, Joesley diz que o presidente deu aval para a compra do silêncio de Cunha.

A gravação é considerada legal pelo STF. Na decisão em que aceita o pedido de abertura de investigação, ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, menciona a jurisprudência do STF que valida gravações feitas por um investigado para captar conversas com terceiros.

"Desse modo, não há ilegalidade na consideração das quatro gravações em áudio efetuadas pelo possível colaborador Joesley Mendonça Batista, as quais foram ratificadas e elucidadas em depoimento prestado perante o Ministério Público (em vídeo e por escrito), quando o referido interessado se fez, inclusive, acompanhado pelo defensor", afirma o ministro.

De acordo com a Procuradoria-Geral da República, a delação da JBS implica o presidente Michel Temer em pelo menos três crimes: corrupção passiva, obstrução à Justiça e organização criminosa. Juristas ouvidos pela Folha de S.Paulo, apontam ainda os crimes de corrupção ativa e prevaricação.

Nos vídeos da delação, divulgadas pelo Supremo Tribunal Federal na sexta-feira (19), Joesley conta sua relação com o peemedebista e relata uma série de crimes, como doações ilegais a partidos políticos em troca de vantagens indevidas. A JBS fez repasses a 1.829 candidatos de 28 partidos.