POLÍTICA

A gravação ‘jamais foi exposta a qualquer tipo de intervenção’, diz controladora da JBS

"É natural que, nesse momento, em função da densidade das delações, surjam tentativas de desqualificar as provas", diz J&F sobre áudio que compromete Temer.

20/05/2017 18:21 -03 | Atualizado 20/05/2017 18:21 -03
Ueslei Marcelino / Reuters

Gravação manipulada?

A J&F, controladora da JBS, garante que o áudio entregue por Joesley Batista à Procuradoria-Geral da República não tem nenhuma edição.

"É natural que, nesse momento, em função da densidade das delações, surjam tentativas de desqualificá-las", diz nota do grupo.

A holding afirma que o empresário entregou a íntegra da gravação, além de outros documentos que comprovam a veracidade do material delatado.

Não há chance alguma de ter havido qualquer edição do material original, porque ele jamais foi exposto a qualquer tipo de intervenção.

Segundo o grupo, a delação premiada "está permitindo que o Brasil mude para melhor".

"Quanto mais sólida e forte uma delação, maiores os graus de exposição e desgaste dos delatores. No caso dos sete executivos, eles assumiram e ainda assumem um enorme risco pessoal, com ameaças à sua vida e à segurança da sua família", diz o grupo.

A nota foi divulgada logo após o pronunciamento do presidente Michel Temer, no qual ele considera a gravação clandestina. Temer usou uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, na qual diz que o áudio tem pelo menos 50 cortes, para pedir ao STF (Supremo Tribunal Federal) que suspensa a investigação contra ele.

Crime perfeito

Para Temer, a gravação foi manipulada e adulterada com "objetivos nitidamente subterrâneos". O presidente disse ainda que Joesley "não foi julgado nem punido, cometeu o crime perfeito".

"Especulou contra a moeda nacional, a notícia foi vazada por gente ligada ao grupo empresarial, e antes de entregar a gravação comprou IS$ 1 bilhão porque sabia que causaria o caos no câmbio. Também vendeu ações da empresa antes da queda, sabendo que a empresa seria desvalorizada depois. A JBS lucrou milhões de dólares em 24 horas. Prejudicou o brasil, enganou os brasileiros e agora mora nos Estados Unidos", alegou.

Gravação editada

Embora laudos diferentes feitos por peritos a pedido da Folha de S. Paulo e do Estadão apontem alterações no áudio, eles indicam que não houve edição na parte em que o empresário e o presidente falam sobre o ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Na delação premiada, Joesley diz que o presidente deu aval para a compra do silêncio de Cunha.

A gravação é considerada legal pelo STF. Na decisão em que aceita o pedido de abertura de investigação, ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, menciona a jurisprudência do STF que valida gravações feitas por um investigado para captar conversas com terceiros.

"Desse modo, não há ilegalidade na consideração das quatro gravações em áudio efetuadas pelo possível colaborador Joesley Mendonça Batista, as quais foram ratificadas e elucidadas em depoimento prestado perante o Ministério Público (em vídeo e por escrito), quando o referido interessado se fez, inclusive, acompanhado pelo defensor", afirma o ministro.

De acordo com a Procuradoria-Geral da República, a delação da JBS implica o presidente Michel Temer em pelo menos três crimes: corrupção passiva, obstrução à Justiça e organização criminosa. Juristas ouvidos pela Folha de S.Paulo, apontam ainda os crimes de corrupção ativa e prevaricação.

Nos vídeos da delação, divulgadas pelo Supremo Tribunal Federal na sexta-feira (19), Joesley conta sua relação com o peemedebista e relata uma série de crimes, como doações ilegais a partidos políticos em troca de vantagens indevidas. A JBS fez repasses a 1.829 candidatos de 28 partidos.

Íntegra da nota da J&F:

"A J&F considera fundamental ressaltar a importância do mecanismo da colaboração premiada, que está permitindo que o Brasil mude para melhor. Fica cada vez mais claro que não seria possível expor a corrupção no país sem que pessoas que cometeram ilícitos admitissem os fatos e informassem como e com quem agiram, fornecendo indícios e provas.

A colaboração de Joesley Batista e mais seis pessoas é muito diferente de todas que já foram feitas até aqui. Além da utilização de ação controlada com autorização judicial, houve vastos depoimentos, subsidiados por documentos, que esclarecem o modus operandi do cerne do sistema político brasileiro

Quanto mais sólida e forte uma delação, maiores os graus de exposição e desgaste dos delatores. No caso dos sete executivos, eles assumiram e ainda assumem um enorme risco pessoal, com ameaças à sua vida e à segurança da sua família.

A negativa de denúncia e o perdão judicial são previstos pela legislação em vigor. A possibilidade de premiação excepcional para uma colaboração igualmente excepcional é de grande importância para o êxito do mecanismo da colaboração premiada.

É natural que, nesse momento, em função da densidade das delações, surjam tentativas de desqualificá-las.

Quanto ao áudio envolvendo o presidente Michel Temer, Joesley Batista entregou para a Procuradoria Geral da República a íntegra da gravação e todos os demais documentos que comprovam a veracidade de todo o material delatado.

Não há chance alguma de ter havido qualquer edição do material original, porque ele jamais foi exposto a qualquer tipo de intervenção.

Joesley Batista e outros colaboradores ressaltam a sua segurança com a veracidade de todo o conteúdo que levaram ao conhecimento do Ministério Público. Eles não hesitarão, se necessário, em fornecer os meios para reforçar as provas que entregaram."

Íntegra do pronunciamento de Temer:

"Muito bem, eu quero cumprimentá-los a todos e dizer, que mais uma vez eu estou aqui para fazer uma declaração aos senhores e as senhoras, jornalistas e ao povo brasileiro.

Eu registro que eu li hoje notícia do jornal Folha de São Paulo de que perícia constatou que houve edição no áudio de minha conversa com o senhor Joesley Batista. Essa gravação clandestina, é o que diz, foi manipulada e adulterada com objetivos nitidamente subterrâneos. Incluída no inquérito sem a devida e adequada averiguação, levou muitas pessoas a um engano induzido e trouxe grave crise ao Brasil.

Por isso, no dia de hoje, estamos entrando com petição no colendo Supremo Tribunal Federal para suspender o inquérito até que seja verificada em definitivo a autenticidade da gravação clandestina.

O autor do grampo está livre e solto passeando pelas ruas de Nova York. O Brasil, que já tinha saído da mais grave crise econômica da sua história, vive agora, sou obrigado a reconhecer, dias de incerteza. Ele não passou nem um dia na cadeia. Não foi preso, não foi julgado, não foi punido. E, pelo jeito, não será.

Cometeu, digamos assim, o crime perfeito.

Graças a essa gravação fraudulenta e manipulada, especulou contra a moeda nacional. A notícia foi vazada, seguramente, por gente ligada ao grupo empresarial, e antes de entregar a gravação, comprou um bilhão de dólares, porque sabia que isso provocaria o caos no câmbio. Por outro lado, sabendo que a divulgação da gravação também reduziria as ações de sua empresa, as vendeu antes da queda da bolsa. Não são palavras minhas apenas, esses fatos já estão sendo apurados pela Comissão de Valores Mobiliários.

A JBS, meus senhores e minhas senhoras, lucrou milhões e milhões de dólares em menos de 24 horas. Esse senhor, nos dois últimos governos, teve empréstimos bilionários no BNDES para fazer avançar os seus negócios. Prejudicou o Brasil, enganou os brasileiros e agora mora nos Estados Unidos.

Quero, aqui, observar a todos vocês aquilo que alguns da imprensa já notaram: as incoerências entre o áudio e o teor de seu depoimento. Isso compromete a lisura de todo o processo por ele desencadeado.

O que ele fala em seu depoimento não está no áudio. E o que está no áudio demonstra que ele estava insatisfeito com meu governo. Reclamações contra o Ministro da Fazenda, contra o Cade, contra o BNDES. Essa é a prova cabal, de que meu governo não estava aberto a ele. E no caso, convenhamos, no caso central de sua delação, fica patente o fracasso de sua ação. O Cade não decidiu a questão solicitada por ele. O governo não atendeu a seus pedidos. Não se sustenta, portanto, a acusação pífia de corrupção passiva.

E não foi só o Cade. O BNDES mudou no meu governo. A presidente Maria Sílvia moralizou o BNDES. Botou ordem na casa. E tem meu respeito e meu respaldo para fazê-lo! Assim como Pedro Parente o fez na Petrobras. Estamos acabando com os velhos tempos das facilidades aos oportunistas. E isso, meus amigos incomoda muito. Há quem queira me tirar do governo para voltar aos tempos em que faziam tudo o que queriam com o dinheiro público e não prestavam contas a ninguém. Quebraram o Brasil e ficaram ricos.

O autor do grampo relata, no diálogo que tivemos, suas dificuldades. Simplesmente a ouvi. Nada fiz para que ele obtivesse benesses do governo. Não há crime, meus amigos, em ouvir reclamações e me livrar do interlocutor indicando outra pessoa para ouvir suas lamúrias. E confesso que eu ouvi à noite como ouço muitos empresários, políticos, trabalhadores, intelectuais e pessoas de diversos setores da sociedade brasileira. No Palácio do Planalto, no Jaburu, no Alvorada e em São Paulo.

Trabalho, acho que os senhores sabem, rotineiramente até meia noite ou mais. E falo até com pessoas da imprensa, com pessoas da imprensa já falei em horas avançadas. Muitos sabem disso porque falavam comigo ao telefone ou até pessoalmente. Nada demais há nisso.

Mas é bom ouvir com atenção o que dizem as pessoas. E muito do que foi dito nos depoimentos dos senhores Joesley e Ricardo provam apenas falta de sintonia, abundante divergência. O primeiro fala em buscar uma forma de interlocução comigo, pois não a tinha. Já o segundo fala que era meu interlocutor frequente em nome do grupo. Há muitas mentiras espalhadas em seu depoimento.

Lembrem da acusação de que eu dera aval para comprar o silêncio de um ex-deputado. Não existe isso na gravação, mesmo tendo sido ela adulterada. E não existe porque nunca comprei o silêncio de ninguém. Não obstruí a Justiça porque não fiz nada contra a ação do Judiciário.

Falo, aqui só de um dos pontos de contradição e incoerência. Ou seja, houve falso testemunho à Justiça. Chegam ao desplante de me atribuir falas, frases, ou senhas ou palavras chulas que jamais cometeria. Atentam contra meu vocabulário e minha inteligência.

Tenho crença nas instituições brasileiras e nos seus integrantes. Devo até registrar, devo até registrar, que é interessante quando os senhores examinam os seu depoimento e o áudio, os senhores verificam que a conexão de uma sentença a outra, não é conexão de quem diz: olhe eu estou comprando o silêncio de um ex-deputado e estou dando tanto a ele. N não! A conexão é com a frase: "eu me dou muito bem com o ex-deputado, mantenho uma boa relação", e eu disse: mantenha isso, viu? Enfatizou muito, o viu.

E por isso mesmo eu devo dizer que, não acreditei na narrativa do empresário de que teria segurado juízes, etc. Ele é um conhecido falastrão, exagerado. Aliás, depois, em depoimento, podem conferir, disse que havia inventado essa história, que não era verdadeira, ou seja, era fanfarronice que ele utilizava naquele momento.

Eu quero pontuar que houve grande planejamento para realizar esse grampo. Depois, houve uma montagem e uma ação deliberada para criar um flagrante que incriminasse alguns, enquanto os criminosos fugiam para o exterior em absoluta segurança.

O Brasil, meus senhores, exige que se continue no caminho da recuperação econômica que traçamos para colocar o país nos trilhos. Já recuperamos o PIB, acabamos com a recessão, reduzimos a inflação, derrubamos a taxa de juros, estamos gerando empregos e liberamos mais de 40 bilhões de reais para os trabalhadores brasileiros. Estamos completando as reformas para modernizar o Estado brasileiro.

Meu governo, senhores tem rumo! Acho que os senhores e as senhoras são testemunhas deste fato, e sabem que o que foi dito, volto a dizer, no áudio, que de resto está sendo impugnado por eventuais, ouso até mencionar que houve mais de 50 edições desse áudio, tentar macular não só a reputação moral do Presidente da República, mas tenta invalidar o nosso país. Mas eu digo com toda segurança: o Brasil não sairá dos trilhos. Eu continuarei à frente do governo.

Muito obrigado."

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