ENTRETENIMENTO

‘Uma mulher possível’: Laerte abre labirintos interiores em novo documentário

Trajetória e questionamentos da cartunista transgênero são abordados em novo filme da Netflix.

19/05/2017 20:05 -03 | Atualizado 19/05/2017 20:17 -03
Divulgação/Netflix
"O que me interessa bastante na Laerte não é um percurso de identidade, mas de 'desidentidades'."

"Por que eu estou sendo alvo dessa câmera? Eu tenho uma certa resistência a me ver como objeto de investigação ou atenção."

A fala acima abre Laerte-se, documentário centrado na cartunista que estreia na Netflix nesta sexta-feira (19). Logo no início, a artista de 65 anos mostra que, embora não esteja de todo à vontade na posição de entrevistada, ela escolhe abrir-se e nos convida a andar pelos caminhos que seus pensamentos percorrem – mesmo que isso implique em expor suas dúvidas e contradições mais profundas.

Dirigido pela cineasta Lygia Barbosa da Silva e pela jornalista Eliane Brum, o filme – produzido pela Tru3Lab e exibido no festival É Tudo Verdade deste ano – se aproxima com delicadeza dos mais variados aspectos da vida de sua personagem. E, como é de praxe dela própria, de maneira lúcida, introspectiva e bem humorada.

"A gente levou quase um ano para a Laerte nos receber na casa dela", disse Brum, em mesa-redonda com jornalistas na última quarta-feira (17). "Isso nos deu uma pista para entender os caminhos por onde a gente tinha que trilhar."

A princípio, a cartunista ficou apreensiva com a ideia de o documentário ser gravado em sua casa, no Butantã, Zona Oeste de São Paulo. Como disse a codiretora, trata-se de uma "casa-corpo" – assim como a própria cartunista, o imóvel está em reforma/construção.

"Acho que tem algumas questões delicadas aí", explica Laerte. "A gente tem umas zonas de sombras pessoais que sempre são tão difíceis quanto incompreensíveis." No fim, ela cedeu. "Minha porção exibida falou mais alto. E o cabaço foi-se", ri.

No filme, a quadrinista, sem dúvida um ícone das tirinhas de jornal e da causa trans, debate consigo mesma a respeito de implantar próteses de seios ou não. É um dos pontos de partida para Laerte investigar até onde modificar seu corpo expressa a mulher que ela é – entre a chargista e a possível cirurgia, estão os verbos "querer", "poder", "dever" e "precisar", ela explica. Este processo revela muito a respeito de sua trajetória até os dias de hoje também.

Três casamentos, três filhos e quase 60 anos de vida estão antes do momento em que ela se assumiu publicamente como transgênero em 2010, em entrevista à Folha de S.Paulo. Desde então, diante de lentes e microfones, ela tem se descoberto e redescoberto, dividindo novidades com o público.

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'A gente muda a mulher que a gente é', disse Eliane Brum, sobre experiência de filmar Laerte em sua intimidade.

"Ela tinha feito fotos nuas, estava exposta", disse Brum. "O documentário tinha que buscar outra nudez, ir para camadas mais fundas."

O processo de reforma/construção seguiu diante da câmera de Silva. "Foram três anos em que a gente se sentava juntas e dizia 'quê que está acontecendo? Para onde estamos indo?' A gente fez um filme que estava acontecendo na nossa frente", conta.

Laerte começou a se vestir como mulher ao se aproximar do cross-dressing em 2004; a morte do filho Diogo em 2009, aos 22 anos, interrompeu o processo. Foi o momento no qual ela percebeu que sua transgeneridade tinha mais força do que ela imaginava.

Ela nos deu indícios disso nas tirinhas de Hugo/Muriel, personagem trans que vive situações cômicas e reveladores sobre o que é ser transgênero no Brasil e todos os binarismos que uma sociedade patriarcal defende acerca da sexualidade humana.

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Silva e Laerte em bastidores do documentário

'A gente muda a mulher que a gente é', disse Eliane Brum, sobre experiência de filmar Laerte em sua intimidade

Conforme Laerte-se se desenrola, fica nítido o cruzamento inevitável que há entre a Laerte pai, a "avô", a cartunista, a ativista trans e quem ela é tantas outras zonas cinzentas. Todas essas partes se complementam. No entanto, ainda há uma grande dúvida: o que é ser mulher, afinal de contas? O corpo representa isso até onde?

A cartunista disse a Brum, no documentário, que se incomoda com o "corporativismo" que percebeu no ativismo de transgêneros. É como se ter seios e tomar hormônios fizessem uma pessoa trans ser mais ou menos legítima que outras, explica. Além de reforçar o binarismo de gênero, isso resulta na formação de grupos fechados dentro do movimento.

"Por exemplo, ela só admite para si própria que está dentro de uma transgeneridade, se ela estiver reproduzindo integralmente ou o mais integralmente possível no seu organismo, nos seus hormônios, no seu modo de falar, no seu gestual, nas suas roupas e tudo, um modelo. Ela está reforçando modelos, e não propondo uma transgressão. O que eu entendo como o melhor legado da transgeneridade para a humanidade é a quebra desses modelos, porque eles são uma imposição da cultura patriarcal."

A cartunista defende que posturas semelhantes ocorrem no "feminismo radical" – "um termo bastante dúbio e impreciso", opina – e são excludentes.

"É uma ideia de fazer política excluindo toda colaboração possível. Ela não está presente só em relação a exclusão de trans, mas também na exclusão de qualquer palpite, ou qualquer participação, ou solidariedade masculina. São pontos de vista que eu acho pouco produtivos – e, no fundo, de uma natureza conservadora."

Enquanto trilha labirintos interiores para chegar a uma resposta, ela desvia de corredores sem saída: "Eu me sinto uma mulher. Uma mulher possível".

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'Casa-corpo' que também é espelho: Laerte pinta nu de amiga trans, em cena do filme.

A experiência de conviver tão próximas da personagem e essa série de perguntas deixou uma marca nas diretoras. "O tempo da minha vida mudou. A Laerte tem um tempo, e esse tempo é necessário – para criação, criatividade, entender o mundo. Isso mexeu muito comigo", conta Silva.

"E essa questão de ser mulher também. Talvez eu nunca tivesse prestado atenção no que é ter peito, por exemplo. Você já pensou o que é ter peito? O que é seu peito para você, se é sua feminilidade ou não? O quanto uma amiga sua precisa de mais ou menos peito?"

Brum relatou que, antes de Laerte se apresentar completamente como mulher, nunca pensou se ela própria era uma ou não.

"O que me interessa bastante na Laerte não é um percurso de identidade, mas de 'desidentidades'. O importante para mim, nessa escuta, é manter o que ela constantemente mantém na vida dela em todas as esferas, no trabalho e na vida pessoal, que é a interrogação. Manter-se interrogando, ou seja, encarar o labirinto, mas carregando o labirinto junto."

Laerte-se transmite a sensação do que é percorrer esses caminhos, com a perspicácia sempre surpreendente da personagem, seja em suas tirinhas – aqui, animadas – ou em uma conversa à mesa do café da tarde.

Laerte comenta experiência de ser trans: 'Parte de mim acha que ninguém tem nada a ver com isso. Outra parte de mim acha que todo mundo tem a ver com isso e eu tenho a ver com todo mundo também, porque meu processo me leva da experiência pessoal para a de muitas outras pessoas'

O documentário tem duração de 100 minutos e distribuição global pela Netflix.

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