POLÍTICA

O guia das revelações da JBS na Lava Jato

Entenda as acusações contra o presidente Michel Temer, o senador afastado, Aécio Neves (PSDB) e políticos de 28 partidos.

19/05/2017 19:47 -03 | Atualizado 19/05/2017 20:14 -03
Montagem / AFP / Getty Images
Presidente Michel Temer e senador afastado Aécio Neves (PSDB) estão entre os citados na delação da JBS.

As delações premiadas dos empresários Joesley e Wesley Batista, donos da JBS, no âmbito da Operação Lava Jato, continuam a atingir o presidente Michel Temer, o senador afastado Aécio Neves (PSDB), além de outros políticos.

Os vídeos foram liberados nesta sexta-feira (19) pelo Supremo Tribunal Federal (STF). As delações foram homologadas pelo ministro Luiz Edson Fachin, relator da Lava Jato na Corte.

Nas gravações, Joesley conta sua relação com o peemedebista e relata uma série de crimes, como doações ilegais a partidos políticos em troca de vantagens indevidas.

As coisas ultimamente não funcionam se você não entrar em acordo com um político e acertar uma propina, um preço para as coisas andarem.Joesley Batista

O empresário relata ainda pedidos de interferência em órgãos públicos no governo Temer, como o Ministério da Fazenda, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Não existe nenhum outro interesse de um político indicar um cargo se não for para receber vantagem financeira, receber propina ali por mal feitos.Joesley Batista

Confira os principais pontos:

R$ 400 milhões em propina

Joesley relata o pagamento de R$ 400 milhões em propina a partidos diversos há 15 anos. De acordo com o delator, foram R$ 500 mil via doação oficial e R$ 100 mil em caixa dois.

"Tem pagamento via oficial, caixa 1, via campanha e tem via caixa 2, dinheiro em espécie, basicamente essa forma de pagar. Acontece o seguinte: se combina o ilícito, se combina o ato de corrupção com o político, o dirigente do poder público e daí para frente, se procedem os pagamentos, das mais diversas maneiras. Seja nota fiscal fria, dinheiro de caixa 2, até mesmo doação oficial", afirma o empresário.

De acordo com o delator, o levantamento foi feito pela empresa por meio de uma investigação antevendo que seria chamado a dar explicações ao Ministério Público Federal (MPF).

A JBS é alvo de ao menos cinco operações policiais que apuram fraudes contra a administração pública, lavagem de dinheiro e corrupção.

O diretor da JBS Ricardo Saud listou repasses que somam quase R$ 600 milhões para 1.829 candidatos de 28 partidos. De acordo com ele, a empresa conseguiu eleger 179 deputados federais, 28 senadores e 16 governadores.

Joesley relatou ainda que aceitou fazer pagamentos totais de R$ 4,7 milhões, de 2010 a março de 2017, a pedido de Temer. O acordo incluiria uma mesada de R$ 100 mil e um repasse, em espécie, de R$ 300 mil para o marqueteiro de confiança de Temer, Elsinho Mouco.

Na campanha de 2014, Temer teria recebido R$ 15 milhões do Partido dos Trabalhadores para financiar sua campanha, mas decidiu "guardar" R$ 1 milhão, segundo afirmou Roberto Saud, diretor da JBS, em delação ao Ministério Público Federal.

R$ 5 milhões para Cunha na prisão

O ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso em outubro no âmbito da Operação Lava Jato, recebeu R$ 5 milhões dentro da prisão, de acordo com Joesley.

O valor era referente a um "débito" que a empresa tinha com o parlamentar de um total de R$ 20 milhões negociados para Cunha facilitar a tramitação de uma proposta de renovação de incentivo de isenção tributária no setor de frango.

O delator afirmou ainda que pagava mesada de R$ 400 mil ao doleiro Lúcio Funaro, apontado como operador financeiro do deputado cassado.

Segundo o empresário, o presidente Michel Temer sabia dos pagamentos e deu aval em encontro no Palácio do Jaburu, em março deste ano.

Fui lá falar com o presidente justamente isso, que tinha acabado o saldo do Eduardo, que eu tinha pago tudo, estava tudo em dia, mas que tinha acabado. Por outro lado, que eu segui pagando o Lúcio, R$ 400 mil e eu queria informar isso a ele para saber a opinião dele. Foi onde, de pronto, ele me disse que era importante continuar isso.

Os repasses eram feitos para "para garantir o silêncio deles, para manter eles calmos", de acordo com Joesley. "Sempre recebi sinais claros de que era importante mantê-los, financeiramente, a família, resolvidos", completou. Segundo o delator, o então ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, que intermediava a relação dele com Temer, enviou tais sinais.

Temer e Cunha

No encontro no Jaburu, Temer citou as 21 perguntas da defesa de Cunha a Temer, em um processo a que o ex-deputado responde na Justiça do Paraná em que o presidente foi arrolado como sua testemunha de defesa. Os questionamentos foram vetados pelo juiz Sérgio Moro.

Ele fez um comentário sobre o questionário, que o Eduardo fica fustigando ele. Entendi aquilo como um reforço à necessidade de eu manter, vamos dizer, financeiramente. Porque entendo que há um grupo e que parte está preso e parte está no poder.Joesley Batista

Ainda de acordo com Joesley, Temer comentou ainda um pedido do ex-deputado. "Ele fez um comentário curioso. 'O Eduardo quer que eu ajude ele no Supremo. Eu posso ajudar com dois (ministros). Com onze (ministros) não dá'. Fiquei calado. Não sei como o presidente poderia ajudar", disse o delator.

O lobista da JBS Ricardo Saud revelou que propina paga em parcelas para Cunha eram provenientes de contrato fraudulento para obter recursos do fundo de investimento do FGTS, liberados por influência do então vice-presidente da Caixa, Fábio Cleto, alvo de investigação em janeiro pela Lava Jato.

Amigo do presidente

O empresário contou que conhece Temer há "cinco ou seis anos", quando era vice-presidente e tratava diretamente com ele. "Eu mantive relacionamento direto com ele, sem intermediários. Ele me ligava, eu ligava direto para ele, ele me mandava mensagem, enfim. Fiz várias visitas", afirmou.

Quando o peemedebista assumiu o Palácio do Planalto, a relação passou então a ser intermediada por Geddel. Quando o ministro deixou o cargo, Rodrigo Rocha Loures, então assessor da Presidência assumiu o diálogo.

Ele foi o responsável por marcar o encontro do empresário com o presidente, em 7 de março de 2017, às 22h, no Palácio do Jaburu. Joesley encontrou Rodrigo nos dias 13 e 16 de março, segundo a delação. De acordo com o delator, durante esse tempo, foram tratadas diversas demandas do setor com o poder público.

Interferência econômica

Joesley relatou que Temer se dispôs a ajudar a empresa em órgãos públicos reguladores do mercado. Ele contou uma interferência no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). De acordo com o delator, Temer tentou ajudá-lo, mas não deu certo.

"Comentei sobre o programa do BNDES, que tinha vetado operações nossas. Eu tive informações de que ele intercedeu pessoalmente a favor, tentando nos ajudar. E depois ele me confirmou pessoalmente: 'Olha, falei pessoalmente com a presidenta do BNDES (Maria Silvia Marques)'", diz o delator.

Sobre a relação com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, Joesley reclamou da postura do economista com o presidente, que prometeu ajudar o empresário, de acordo com a delação.

"Olha presidente, nós precisamos combinar algum jeito que eu peça as coisas para o Henrique e de alguma forma o senhor fique sabendo, vá lá e mande ele fazer. E assim ficou combinado", diz o delator.

Meirelles foi presidente do Banco Central no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). Em maio de 2016, entrou para o governo Temer. No intervalo, comandou o Conselho Consultivo da J&F, a holding que controla a JBS. Meirelles também atuou no relançamento do Banco Original, outra empresa do grupo, menos de dois meses antes de Temer assumir.

Cade e CVM

De acordo com Joesley, no encontro com Temer, ele ressaltou que o comando do Cade e da CVM estavam em aberto. "Fui lá falar da importância de ter um presidente do Cade alinhado com os interesses do governo. Ele me disse que tem uma pessoa que dá para ter conversa franca. Eu entendi conversa franca como quem vai obedecer aos interesses do presidente", afirmou.

Ambos os órgãos são controladores da atuação de empresas.

Sobre o Cade, o empresário reclamou do monopólio da Petrobras na compra do gás boliviano, o que estaria prejudicando uma termelétrica de sua empresa em Cuiabá. Ele afrimou que Rocha Loures o ajudou na questão.

"As coisas ultimamente não funcionam se você não entrar em acordo com um político e acertar uma propina, um preço para as coisas andarem", afirmou Joesley sobre o caso.

R$ 60 milhões para Aécio

A campanha de Aécio Neves (PSDB) à Presidência da República em 2014 recebeu pelo menos R$ 60 milhões em propina da JBS, de acordo com a delação.

Em troca, o tucano atuou para "beneficiar diretamente interesses do grupo". Joesley cita como exemplo indicações para diretorias na companhia Vale. "Não existe nenhum outro interesse de um político indicar um cargo se não for para receber vantagem financeira, receber propina ali por mal feitos."

Uma gravação feita pelo empresário revela também o acerto de R$ 2 milhões para pagar advogados que defendem o tucano.

Joesley relata sucessivos pedidos do senador. "Aí começou as investigações em cima de mim e eu chamei esse amigo dele, o Flávio Carneiro, e pedi pelo amor de Deus para parar de me pedir dinheiro", conta o empresário sobre um pedido de R$ 5 milhões em 2016.

De acordo com os delatores, Aécio teria se empenhado em aprovar medidas consideradas entraves à Lava Jato, como a anistia ao caixa dois e o projeto de lei de abuso de autoridade.

Cassação no TSE

Em conversa gravada por Joesley, Aécio conta que Temer pediu que ele retirasse a ação contra a chapa Dilma-Temer do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

No diálogo, o senador afastado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) afirma "a Dilma caiu, a ação continuou, e ele quer que eu retire a ação, cara, só que se eu retirar, e não estou nem ai, eu não vou perder nada, o (procurador da República, Rodrigo) Janot assume, o Ministério Público assume essa merda".

Outro lado

O Conselho de Administração da Vale afirmou, em nota, que a escolha dos membros da diretoria executiva da empresa são escolhidos "a salvo de qualquer interferência externa e foi conduzido em conformidade com as melhores práticas de mercado".

Aécio ainda não comentou as novas acusações, mas na quinta-feira afirmou, em nota, que se dedicará "diuturnamente" a provar a inocência dele e dos familiares.

O presidente Michel Temer também não se pronunciou sobre os novos fatos, mas negou ter comprado o silêncio de Cunha. "Não renunciarei. Sei o que fiz e sei da correção dos meus atos", disse, em pronunciamento.

Assista aos vídeos de Joesley na íntegra:

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