VOZES

Festival de Cannes: Russo 'Nelyubov' é um dos melhores filmes até agora; 'Western' fala sobre pedreiros alemães na Bulgária

Temos que discordar do que diz o broche de imprensa: os filmes do Festival de Cannes não são sempre os mesmos.

21/05/2017 08:54 -03 | Atualizado 21/05/2017 08:54 -03

A jornalista está cobrindo o Festival de Cannes para o HuffPost Brasil.

Dizem que o Grand Théâtre Lumiere é a melhor sala de cinema do mundo. Nelyubov - ou Loveless, na tradução em inglês - do diretor Andrey Zvyagintsev (de Leviatã) faz jus a todo o seu esplendor. Mesmo numa das últimas fileiras, achei que a exibição era só para mim. Volta e meia, no silêncio, uma reação do público - um riso largo como o dos personagens, potencializado pela acústica do GTL.

Concorrente à Palma de Ouro, Loveless fala sobre um casal às vésperas da separação e o filho de doze anos. O plano inicial é do grande cinema, e só começamos a entender a função que desempenha na história quase no fim. Aliocha sai de um edifício antigo com os colegas e passa por uma árvore para buscar uma fita, aparentemente sem significado, seu McGuffin especial.

Depois, no quarto, contempla a floresta do lado de fora, sem se mover. A mãe aparece com visitas: a corretora de imóveis e um casal que pensa em comprar o imóvel. Os pais de Aliocha, Boris e Zhenia - intrepretada pela belíssima atriz russa Maryana Spivak - já se separaram emocionalmente e estão apenas esperando a venda do apartamento para o divórcio de fato. Não sabem, ainda, quem vai ficar com o menino - se a avó materna ou o orfanato - mas isso é mero detalhe. Até que ele desaparece.

Nelyubov foi ovacionado por alguns minutos e agradou a profissionais da indústria e jornalistas e igualmente. Há poesia e realidade em cada uma das cenas, e a relação de dependência com o smartphone é retratada de forma bem original. O sexo, íntimo e visceral, parece ser a única coisa sem anestesia.

Todos falam a mesma língua e ainda assim não conseguem se comunicar. O que apresenta um contraponto interessante a Western, de Valeska Grisebach, segundo filme apresentado ontem na mostra paralela Un Certain Regard.

Pedreiros alemães trabalham numa construção na fronteira entre Grécia e Bulgária. De diferentes temperamentos, tentam ganhar a atenção e a estima das pessoas do vilarejo, cada um a seu modo, sem falar uma palavra na outra língua. Meinhard - uma maravilha de personagem, trazida à tona com precisão pelo ator Meinhard Neumann - observa tudo ao redor, e aos poucos começa a se comunicar.

É um protagonista contraditório muitas vezes encontrado na ficção: sabe tudo e nada ao mesmo tempo, parece observar apenas, mas subitamente revela desejos próprios, sensibilidade à flor da pele e uma violência contida, enfim, o tipo de pessoa por quem é fácil se apaixonar.

Ovacionado de pé por uma platéia emocionada, deu um gostinho de quero mais neste segundo dia. E embora não faça parte da competição oficial, temos que discordar do que diz o broche de imprensa: os filmes do Festival de Cannes não são sempre os mesmos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

LEIA MAIS:

- 70º Festival de Cannes terá filmes de 29 países; veja seleção oficial

- 5 coisas que você não sabia sobre 'A Bela e a Fera'

8 filmes que não existiram se não fosse por Edgar Allan Poe