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'Economia vai perder muito com a permanência de Temer', diz economista da FGV

Crise na política gera clima de instabilidade na economia e pode impactar na inflação, produção e até aumentar o desemprego.

18/05/2017 17:22 -03 | Atualizado 18/05/2017 18:20 -03
Ueslei Marcelino / Reuters
Na tarde de hoje, o presidente afirmou que não renunciará e negou participação na propina para Cunha em troca de seu silêncio. 

O mercado financeiro brasileiro esteve em chamas durante toda a quinta-feira (18). A denúncia de que o presidente Michel Temer tenha dado aval para compra do silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, e os desdobramentos da "delação-bomba" do dono da JBS trouxeram ainda mais instabilidade para o governo brasileiro, o que levou a um colapso no mercado de ações e de câmbio.

O índice Ibovespa (principal índice de ações da Bolsa de Valores de São Paulo, a BM&FBovespa), desabou cerca de 10% nesta quinta, enquanto o dólar comercial disparava cerca de 9%. Para se ter ideia, ontem o dólar era negociado por cerca de R$ 3,10 e hoje, na máxima da manhã, chegou a R$ 3,42. A bolsa chegou a interromper as negociações, em um movimento chamado "Circuit Breaker", algo que não acontecia desde 2008.

Na tarde de hoje, o presidente afirmou que não renunciará e negou participação na propina para Cunha em troca de seu silêncio. "Não preciso de foro especial pois não tenho nada a esconder", justificou.

O anúncio pode não ter sido de grande ajuda para a economia, de acordo com economistas ouvidos pelo HuffPost Brasil. "A economia vai perder muito com a permanência de Temer", disse o professor da Escola de Negócios da FGV, Nelson Marconi.

Segundo Marconi, o governo não tem mais as condições de negociar no Congresso e isso vai atrapalhar no andamento das reformas, como a da Previdência e Trabalhista, assim como a economia como um todo. "Tudo isso [crise política] vai ajudar a frear os investimentos e a produtividade e, portanto, pode aumentar o desemprego. O problema maior é essa situação se prolongar", disse. E acrescentou:

Ele [Temer] já perdeu a legitimidade, perdeu as condições de articular. Os próprios aliados do governo pedem a renúncia dele, os partidos já disseram que vão entregar os cargos. Como alguém pode governar assim?Nelson Marconi, da FGV

A tempestade na política e na economia brasileira se formou depois que o dono da JBS, Joesley Batista, e o irmão Wesley fizeram uma delação espontânea e mostraram ao STF (Supremo Tribunal Federal) gravações de conversas com Temer.

De acordo com o colunista Lauro Jardim, do jornal O Globo, em um dos diálogos entre Joesley e o presidente, o dono da JBS diz que paga uma mesada a Cunha e Lúcio Funaro, operador no esquema de corrupção, para permanecerem calados. Temer consente e diz: "Tem que manter isso, viu?".

Aécio Neves também foi citado na delação. Segundo a reportagem, o ex-senador e ex-presidente do PSDB pediu R$ 2 milhões à JBS para despesas com sua defesa na Operação Lava Jato.

O impacto da 'delação-bomba' para a economia

Na avaliação de economistas, as denúncias não só impactam o mercado financeiro, mas também representam riscos para a economia brasileira, como o aumento da inflação, o freio nos investimentos e, consequentemente, crescimento na taxa de desemprego - que já é recorde.

A curto prazo, o dólar elevado influencia, principalmente, a inflação, uma vez que muitas empresas brasileiras utilizam produtos importados. "O dólar teve uma disparada porque o governo se tornou instável, então o real se desvaloriza diante de moedas de economias mais fortes. Se o dólar cresce diante o real, a produção tende a encarecer e isso impacta no aumento de preços", disse o educador financeiro André Bona.

Além do dólar, a crise também significa insegurança, tanto para investidores quanto para qualquer brasileiro, que será cauteloso na hora de comprar, de investir e até mesmo de produzir e empregar mais. "Diante de crises, as pessoas reavaliam seus investimentos ou, no melhor dos casos, adiam. As pessoas consomem menos, a receita do empresário cai, ele freia a produção e manda mais pessoas embora", explica o professor de Finanças da FEA-USP e da FIA, Roy Martelanc.

O chamado "risco país" do Brasil (ou seja, o risco de se investir em determinado país) também deve pressionar as taxas de juros, e o Banco Central pode reverter a tendência de queda. "Para ter investimentos na economia real, precisa de juros nacionais baixos, precisa de perspectivas positivas. Se o sentimento for de risco alto, as pessoas param de investir e consumir", acrescenta Martelanc.

A verdadeira vítima da delação

O panorama para a economia neste momento é de piora. E não é só pela instabilidade do governo Temer. Para economistas, as paralisações das reformas comandadas pelo presidente, como a da Previdência e Trabalhista, aumentam as perspectivas negativas sobre o País.

"Com certeza, foi um balde de água fria", disse Júlio Miragaia, presidente da Cofecon (Conselho Federal de Economia). "Tanto na tímida recuperação que estava acontecendo, ou melhor, na estagnação dos índices, quanto nas reformas que o governo vinha apresentando."

São os trabalhadores que mais vão sentir os impactos da nova crise política, pois a instabilidade pode atrapalhar uma possível recuperação do emprego.

"O desemprego deve continuar elevado, uma vez que os empregadores vão pensar duas vezes antes de contratar funcionários", disse o professor Nelson Marconi, da FGV. "No curto prazo, as pessoas vão sentir no bolso o impacto dessa crise."

No primeiro trimestre deste ano, o Brasil tinha mais de 14,2 milhões de desempregados, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgados nesta quinta-feira, 18, pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

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