ENTRETENIMENTO

Mentiras, abusos e assassinato estão expostos no documentário 'Mommy Dead and Dearest'

Produção estreou na HBO em 15 de maio, acompanha as circunstâncias sinistras em torno do assassinato de Dee Dee Blanchard.

17/05/2017 19:44 -03 | Atualizado 19/05/2017 10:24 -03

"Eu sabia que Dee Dee tinha sido assassinada, mas isso não era o mais interessante", disse a diretora Erin Lee Carr ao HuffPost, comentando seu documentário mais recente, "Mommy Dead and Dearest". "O mais interessante era o porquê."

À primeira vista, Dee Dee Blanchard e sua filha, Gypsy Blanchard, pareciam um exemplo clássico de mãe e filha que são as melhores amigas uma da outra. Gypsy, que usava cadeira de rodas e recebia tratamento médico para vários problemas de saúde, estava sempre ao lado de sua mãe, com um sorriso enorme estampado no rosto. As duas apareciam em eventos da organização Relay for Life, foram juntas em viagens organizadas pela fundação Make-A-Wish e chegaram a receber uma casa doada, quando deixaram o Estado onde viviam, Louisiana, após a passagem do furacão Katrina.

Mas em junho de 2015, quando Dee Dee foi encontrada assassinada em sua casa no Missouri, uma narrativa diferente começou a tomar forma. Gypsy não estava doente –na realidade, ela conseguia caminhar. As autoridades a encontraram no Wisconsin, foragida com o namorado que conhecera online. Mais tarde o namorado confessaria ter matado Dee Dee a facadas, a pedido de Gypsy.

A notícia do caso explosivo se espalhou rapidamente pela internet depois do artigo longo e assustador de Michelle Dean no BuzzFeed detalhando os abusos cometidos e a morte sinistra da mãe de Gypsy.

O filme de Carr se aprofunda no incidente, trazendo entrevistas com familiares, profissionais médicos, policiais e a própria Gypsy, que está cumprindo pena de dez anos de prisão. Não há incertezas misteriosas como as de "Making a Murderer" ou "Serial", mas os fatos do caso são bizarros o suficiente para deixar o espectador fascinado.

"Para mim, é realmente importante que o filme começa ousado, estranho e assustador", explicou Carr, dizendo que seu filme anterior, "Thought Crimes: The Case of the Cannibal Cop", se desenrolou de maneira semelhante, com as redes sociais e a internet trazendo à tona verdades sombrias.

O filme mostra que Gypsy foi vítima da síndrome de Munchhausen "by proxy" ("por procuração"), em que a pessoa que cuida de uma criança exagera as doenças da criança ou a faz adoecer, para despertar empatia e receber a atenção de outras pessoas.

Courtesy of HBO

Dee Dee controlava rigidamente as interações de Gypsy com o mundo externo. Desde que Gypsy era muito criança sua mãe lhe disse que ela sofria de epilepsia, distrofia muscular, deficiências intelectuais e outros males. As cenas da casa de Gypsy e Dee Dee mostram um armário inteiro cheio de medicamentos. Em outra cena, em que o pai e a madrasta de Gypsy têm um encontro com a advogada de Gypsy, eles estão cercados por pilhas de documentos médicos detalhando consultas médicas e idas ao hospital ao longo de anos. Muitas vezes Gypsy não sabia qual era sua própria idade.

"Às vezes fico boquiaberta", disse ao HuffPost a madrasta de Gypsy, Kristy Blanchard. "Penso que já ouvi tudo que existe para se ouvir, mas de repente chega uma coisa nova para nos dar novo susto."

Dee Dee e o pai de Gypsy, Rod Blanchard, eram jovens quando e casaram. Eles se separaram antes de Gypsy nascer. Rod se casou novamente, e ele e Kristy viam Gypsy com frequência quando ela era pequena e ainda vivia em Louisiana. Mas, depois de mãe e filha se mudarem para o Missouri, a distância permitiu que Dee Dee controlasse Gypsy cada vez mais.

"Geralmente quando eu telefonava para falar com Gypsy, ela [Dee Dee] me dizia 'vou aprontar Gypsy e retorno a ligação daqui a pouquinho'", contou Rod, falando de Dee Dee. "Eu pensava 'ok, ela vai arrumar Gypsy na cadeira de rodas, vai acordá-la ou sei lá o quê. Mas hoje, olhando para trás, acho que Dee Dee estava dizendo a Gypsy o que falar. 'Não fale disso, fale daquilo.' Acho que nunca houve um momento em que conversamos em que ela não tivesse tido que ensaiar o que ia me dizer."

Courtesy of HBO
Gypsy Rose Blanchard in "Mommy Dead and Dearest."

No documentário vemos uma Gypsy diferente de como ela é vista nas reportagens sobre o caso. Não há cadeira de rodas nem sonda alimentar. O cabelo dela cresceu. Ela consegue falar sozinha.

"Gypsy foi mudando; cada vez que eu a via ou falava com ela, ela estava diferente", contou Carr. "Ela estava no processo de virar gente grande. Está no processo de configurar quem ela é."

Carr ainda mantém contato com Gypsy. Falando da relação entre elas, a diretora disse: "Quero ser uma das muitas mulheres que dirá apenas 'ei, você tem uma voz. Você merece ser ouvida.'"

"Mommy Dead and Dearest" consegue superar as complicações que acompanham os crimes verídicos, destacando o aspecto chocante do crime sem passar uma impressão sensacionalista ou de exploração. Quando o filme chega ao fim, é impossível o espectador não sentir pena da situação de Gypsy, apesar de não ter sido ela quem acabou morta.

"Pensando do ponto de vista de uma nova-iorquina, parece incompreensível que a situação não foi detectada antes", disse Carr. "Mas, quando começamos a investigar a história, vimos que Rod vivia em outro Estado e Dee Dee literalmente impedia Gypsy de encontrá-lo. Ela monitorava tudo que eles diziam um ao outro. Rod enviava presentes de Natal à filha, e Dee Dee dizia que era ela quem os tinha comprado. Não havia a menor chance de ele poder ver o que se passava ali."

Quem assiste ao documentário se solidariza com Rod e Kristy, que, numa cena carregada de emoção perto do final do filme, se reúnem com Gypsy no tribunal. O casal representa uma esperança positiva nesta história triste. Sem a presença avassaladora de Dee Dee, Rod e Kristy finalmente podem criar um relacionamento real com a filha de Rod. Kristy disse que eles agora conversam ao telefone toda hora. Ela mostrou ao HuffPost uma foto dos três em uma visita que fizeram a Gypsy na Semana Santa.

"Fiquei tão apreensivo na época", comentou Rod, falando do encontro inicial com sua filha mostrado no filme. "Agora, quando assisto, ficou mais emocionado. Foi assustador. Durante muito tempo eu não sabia se ela me odiava ou o que Dee Dee tinha falado a ela sobre mim. Foi a primeira vez que pude realmente ficar cara a cara com ela."

Carr diz que sente por Rod. "Ele perdeu anos de contato com sua filha, quase perdeu sua filha, e o que vai acontecer com Gypsy enquanto está na prisão? Ela tem um caminho difícil pela frente. Mas eles [Rod e Kristy] estão presentes para dar apoio a ela, e isso é uma coisa muito rara."

Courtesy of HBO
Director Erin Lee Carr.

"Mommy Dead and Dearest" foi ao ar na HBO às 22h do dia 15 de maio.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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