LGBT

Esse documentário mostra por que fazer a defesa da família

"A gente tem nossa família e é feliz apesar deles (bancada conservadora)”, conta mãe que cria três filhos com companheira.

18/05/2017 01:20 -03 | Atualizado 18/05/2017 01:20 -03
Divulgação
Documentário Em defesa da família.

O discurso "em defesa da família" está na boca dos deputados e senadores das bancadas religiosas quando se trata de propostas como o Estatuto da Família ou a que ficou conhecida como "cura gay".

Ele serve para defender o modelo da família tradicional formada por pai e mãe. E exclui tudo que for diferente disso. Inviabiliza discussões sobre o casamento gay, adoção, uso do nome social e mudança nome civil, violência contra pessoas LGBT, entre outros temas.

O Brasil é o país com mais assassinatos LBGT. A cada 25 horas, um homosexual é morto, de acordo com pesquisa do Grupo Gay da Bahia. Monitoramento da Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil (Rede Trans Brasil), por sua vez, contabilizou 144 homicídios de pessoas trans em 2016.

Os discursos desses parlamentares são parte do documentário brasiliense Em defesa da gamília. Eles podem ser ouvidos no curta, que mescla as falas feitas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal com imagens de uma família formada por duas mulheres e três filhos.

A obra foi lançada nesta quarta-feira (17), Dia Internacional Contra a LGBTfobia.

Respeito

Casadas há 14 anos, as funcionárias públicas Vanessa Bhering e Marilia Serra criam juntas Samuel, Felipe e Mateus em Brasília (DF). O filme mostra cenas cotidianas, como levar e buscar os filhos na escola, preparativos para festa junina e um almoço de fim de semana.

Elas contam que querem educar as crianças para serem pessoas "do bem" e que respeitam os outros. "Toda confusão que a gente ouve o principal é que falta respeito. Você começar a julgar o outro, criticar, legislar contra os outros. Quem tem direito de julgar o outro?", questionam.

Nas falas dos parlamentares, eles criticam, entre outros pontos, decisões legais que desclassificam a homosexualidade como doença e a possibilidade da união homoafetiva. Criada em 2007, a Frente Parlamentar em Defesa da Família conta com mais de 200 membros, entre deputados federais e senadores.

Na Constituição vai constar lá: é vedado o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Com isso nos estamos tirando direitos dessas pessoas? Eu sou auto-defensor dos direitos individuais (...) O ativismo liberal quer transformar a família em uma entidade apenas de afeto e solidariedade. Isto é muito pouco para a família.Fala de parlamentar não identificado no documentário Em defesa da família

No final do curta, Vanessa conta que "no fundo" sente certa raiva pelas consequências que o discurso de ódio possa causar a seus filhos. Ela ressalta, contudo, que o sentimento predominante é de pena.

Me dá uma pena (desse parlamentares). Por que é assim tão amargo, infeliz? Precisa mesmo disso para viver? Para conseguir votos? Mas se ele realmente pensa assim, eu tenho pena. Acho muita falta de amor, de compreensão da vida, do mundo, de tudo. Essa pessoa precisa ser feliz. A gente é feliz aqui. A gente tem nossa família e é feliz apesar deles.

Festival de Cannes

A história é contada pela cineasta brasiliense Daniella Cronenberger, diretora do curta, junto com o produtor executivo Getsemane Silva.

Finalizado em janeiro de 2016, o filme ganhou prêmio de melhor filme ativista no Outview Film Festival, em Atenas, na Grécia e o título concedido pelo júri popular de melhor curta nacional do Rio Festival de Gênero & Sexualidade (Rio de Janeiro).

Conquistou ainda melhor montagem e melhor curta pelo júri popular do Festival de Cinema de Triunfo, no sertão Pernambucano e o prêmio Athos Bulcão do Festival Internacional Curta Brasília, concedido pela Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo (ABCV).

O filme também foi selecionado para participar do Short Film Corner (Festival de Cannes, na França), do Changing Perspectives (Turquia), do OutFestPerú, festival de cinema LGBT que ocorre em Lima, do Queer Hippo, festival internacional em Houston, nos EUA, e do Festival Mix Brasil, em São Paulo.

A obra contou com a produtora Olho de Gato Filmes e financiamento coletivo na internet em que 300 pessoas doaram, ao todo, cerca de R$ 38,00. Uma loja da capital também organizou uma feira com produtos de 40 artistas em que a renda arrecadada foi para o projeto.

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