OPINIÃO

7 fatos sobre gênero que você deveria saber

2. Não é moda: Pessoas que não se identificam com gênero existem há milênios.

17/05/2017 09:31 -03 | Atualizado 17/05/2017 09:32 -03
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Nos últimos meses, tem havido um aumento no número de ataques contra a legitimidade das pessoas transgênero e não conformistas de gênero vindos tanto da esquerda quanto da direita. A maioria desses ataques é consequência de uma compreensão errônea sobre gênero, deturpação das evidências ou obtusidade deliberada. As respostas a tais ataques têm geralmente falhado em abordar esses problemas subjacentes.

O gênero e a expressão de gênero são complicados, mas não tanto quanto os críticos gostariam de alegar. Também não são inerentemente contraditórios ou antifeministas. Na verdade, podem ser libertadores para todos. Aqui estão algumas coisas que você deveria saber sobre gênero e identidade de gênero nesta nevasca de desinformação.

1. Não invalide algo só porque não entende

Muitos da maioria dos ataques recentes de publicações de direita podem ser resumidos como: "Esta teoria de gênero não se encaixa em minha visão de mundo; não consigo de maneira alguma colocar isso na minha cabeça, então deve estar errado". No entanto, a incapacidade de entender algo não o torna errado.

Não consigo entender a física dos buracos negros. O cachorro de nossa família também nunca entenderá o motor de combustão interna. Ao contrário dos membros da mídia de direita, no entanto, não estou travando batalhas com Stephen Hawking, e meu cachorro ainda gosta de sair para passear de carro. O fato de que as pessoas transgênero parecem existir ao longo da história da humanidade é suficiente para demonstrar que gênero e as pessoas transgênero são uma realidade.

Isso me leva ao meu segundo ponto.

2. Não é moda: Pessoas que não se identificam com gênero existem há milênios

Há amplas evidências arqueológicas de que pessoas transgênero e não conformistas de gênero existem há milênios. No leste europeu, foram encontrados túmulos de 5.000 anos com esqueletos femininos enterrados com armaduras de guerreiros. Há registros de mulheres nórdicas "going Viking" (participando de invasões). Joana d'Arc foi queimada viva por usar roupas de homens. O Kama Sutra descreve um terceiro sexo, e a Bíblia fala de "eunucos por vontade própria". O kathoey da Tailândia tem um lugar dentro dos escritos budistas. Outras culturas têm longas tradições de indivíduos não conformistas de gênero, como a hijra do hinduísmo e Índia, os fa'a'fa'fine das Ilhas do Pacífico e o duplo-espírito na cultura dos indígenas da América do Norte.

A razão pela qual vemos mais sobre isso agora é uma combinação de maior conscientização cultural em relação a tais pessoas e por causa da mudança das normas culturais que permite maior visibilidade às pessoas transgênero. Para um exemplo reducto ad absurdum, há mais gays na Califórnia do que no Irã ou na Arábia Saudita, por causa da diferença na maneira como são tratados. Da mesma forma, as pessoas são muito mais propensas a se identificar como LGBT em estados socialmente tolerantes dos EUA do que nos conservadores.

A maior vanguarda da mudança cultural neste momento está vindo na forma de pessoas de gênero fluido e não binárias. Esta é a parte mais difícil para os conservadores, mas, na verdade, é apenas uma extensão de algo que muitas pessoas já fazem subconscientemente.

3. A expressão de gênero fluido é algo que muitas pessoas cisgênero heterossexuais já fazem (até certo ponto)

As mulheres na sociedade americana podem (e de fato o fazem) expressar seu gênero em maneiras que podem mudar de um dia para o outro ou mesmo de uma hora para outra. Elas podem vestir um terno para se sentir no comando e fortes no trabalho ou em uma entrevista, ambos os casos estereotipados como traços masculinos. Ou combinar uma jaqueta com um vestido para manter o ar executivo, mas mais feminino. Outras vezes podem se vestir de maneiras que as façam se sentir mais atraentes, o que, frequentemente, significa uma vestimenta feminina muito mais estereotipada.

Por outro lado, há momentos quando a expressão de gênero é completamente irrelevante ou neutra em termos de gênero. Quase todas as mães que conheço tiveram dias em que todo mundo na casa estava gripado e sua expressão de gênero foi: "Dane-se, vou usar tênis, calça e blusa de moletom para ir à farmácia comprar mais Pedialyte".

As mulheres em nossa cultura têm muito mais espaço para expressar seu gênero do que os homens, mas isso reforça a questão subjacente. Por opção, pessoas cisgênero heterossexuais mudarão sua expressão para se encaixar em como querem se sentir sobre si mesmas naquele momento, seja sexy, forte ou confortável. Embora esses sentimentos possam estar vinculados a estereótipos de masculinidade e feminilidade, estão profundamente enraizados em como nos vemos.

As pessoas de gênero fluido simplesmente adotam essa variação do dia a dia e do momento a momento na expressão que vemos nas pessoas cisgênero e vão além. Assim, não é algo novo, mas uma evolução devido ao maior espaço cultural para tal expressão.

Portanto, como nos vemos com base em nossa natureza ou criação? Especialistas conservadores gostam de perguntar isso com base no preto ou branco, sim ou não, uma ou outra questão. A verdade é mais complicada, mas não tanto.

4. Gênero tem componentes tanto de natureza quanto de criação

Demonstrar que o gênero tem componentes que são construções sociais é relativamente fácil. As cores rosa e azul não são intrinsicamente associadas ao gênero; são meramente frequências de luz. Vestidos e saias também não são; são simplesmente pedaços de tecido que qualquer ser humano pode jogar sobre si mesmo. (O fato de que algumas pessoas queiram defender a moralidade de ferir ou matar outra pessoa por usar o pedaço "errado" de tecido diz muito mais sobre nós do que o tecido.)

Ao mesmo tempo, as pessoas parecem ter uma identidade de gênero inata, seja feminina, masculina ou algo no meio disso. Em uma anedota, podemos ver isso no fracassado experimento de John Money com David Remer, que foi criado como uma menina, mas nunca se identificou como tal. Os guevedoces (literalmente "pênis aos 12") do Caribe, da mesma forma, parecem meninas até a puberdade e são criados como tais devido a uma deficiência da enzima 5-alfa redutase. No entanto, na puberdade, seus genitais se desenvolvem e passam a ser tratados como homens depois disso. Embora normalmente inférteis, os guevedoces quase que universalmente se identificam como homens, apesar da maneira como foram criados.

Uma meta-análise recente da Universidade de Boston sobre evidências revisadas por colegas concluiu que a identidade de gênero tem origens biológicas, embora os mecanismos biológicos exatos permaneçam desconhecidos. Essa conclusão não é incomum; é efetivamente a mesma conclusão que chegamos sobre orientação sexual e autismo; a saber que estas têm origens biológicas que não são completamente entendidas.

Estes exemplos efetivamente contradizem a noção que gênero e identidade de gênero também são construções puramente sociais. No entanto, nenhuma é puramente biológica; existem componentes que são culturais. Ambos são significativos, e observar crianças transgênero ajuda a enquadrar este círculo. As crianças transgênero, muitas vezes, afirmam desde muito cedo qual é seu gênero e escolhem artefatos culturais (por exemplo, usando uma toalha para fazer um vestido) para expressar como se veem.

Portanto, o gênero tem componentes sociais e biológicos interagindo.

5. Normas de gênero culturais naturalmente mudam ao longo do tempo

Lembra-se da coisa do cor-de-rosa e azul para meninos e meninas? Não foi sempre assim. Antes, o rosa era a cor para bebês meninos. Isso pode ser visto no desenho animado da Disney A Dama e o Vagabundo, onde o bebê que a Dama protege é claramente um menino, ainda assim, está vestido de rosa, como era tradição na época.

Voltando um pouco mais no tempo, até o final do século 18 os homens se adornavam de uma maneira muito mais colorida e extravagante do que as mulheres.

No entanto, após a Grande Renúncia Masculina, a vestimenta dos homens tornou-se monótona e uniforme, mudando muito pouco em 100 anos.

Assim, a angústia em relação às pessoas que evitam normas modernas de gênero tem menos a ver com as normas em si. Se fosse sobre uma crença de que as normas de gênero são imutáveis, então por que os conservadores não se incomodam com A Dama e o Vagabundo? Não se incomodam, e por isso permanece o fato de que as normas de gênero estão mudando e os conservadores estão com raiva porque têm pouco controle sobre isso. A mudança em si é uma parte normal da evolução cultural.

6. A forma como você foi criado não determina a realidade de sua identidade de gênero

Uma linha de argumentação que tenta segregar ainda mais as pessoas transgênero é que elas não são mulheres ou homens "reais", porque não passam pelas mesmas exatas experiências que a maioria das pessoas cisgênero. Isso é perigoso no sentido de que invalida as experiências vividas de um grupo minoritário ameaçado, ao mesmo tempo em que os diferencia e abre a porta para a marginalização legal "separada mas igualitária". Também é errônea em vários níveis.

As pessoas transgênero são submetidas a dois pesos e duas medidas por serem assertivas ao validar suas identidades de gênero. David Reimer foi criado como menina, mas ninguém questionou se ele era um menino "real" quando afirmou sua identidade de gênero. O mesmo vale para os guevedoces. Nisso, vemos que, quando alguém afirma um gênero que não é aquele no qual foi criado, apenas é tratado como válido se a identidade definitiva do indivíduo é cisgênero.

Da mesma forma, muitas crianças transgênero agora estão em transição social com tão pouca idade que provavelmente não terão nenhuma lembrança de ter vivido em um gênero diferente. Mesmo no meu caso, com uma transição "tardia" (30 e poucos anos), quando morrer, provavelmente terei passado mais da metade da minha vida sendo tratada como mulher. Além disso, existe a questão de que o privilégio masculino não é monolítico.

Para finalizar, o argumento de que você apenas é uma mulher "real" se tiver menstruado, é fértil ou tem filhos é reducionista e vagamente assustador, no estilo de O Conto da Aia. Existem mulheres cisgênero que nunca menstruaram, são inférteis ou escolheram não ter filhos e não têm de defender a validade de sua identidade de gênero e expressão.

7. Pessoas transgênero não reforçam intrinsicamente estereótipos de gênero

As pessoas transgênero, por definição, vão diretamente contra normas da sociedade em relação a como uma pessoa deve se vestir ou agir com base no gênero atribuído a elas. Praticamente todos os tribunais nos EUA têm concordado com essa interpretação do que é ser transgênero. No entanto, o argumento de conservadores antitransgênero tentando atrair o apoio de mulheres e feministas é que, quando as pessoas transgênero fazem a transição, elas o fazem adotando normais culturais e estereótipos de seu gênero-alvo, portanto, reforçando-os.

Tanto indivíduos cisgênero e transgênero mudam sua expressão de gênero para encaixar como se sentem em relação ao seu sexo e a si mesmos, em qualquer momento. No entanto, as pessoas transgênero tradicionalmente ainda têm menos espaço para expressar seu gênero do que outras.

No passado, as pessoas transgênero (particularmente mulheres transgênero) não tinham permissão para fazer a transição médica a menos que parecessem, soassem e agissem de uma maneira feminina estereotipada. Nos últimos anos, pessoas que são visivelmente não conformistas de gênero têm corrido um risco de violência mais alto do que aquelas que se misturam. Conservadores religiosos têm incitado a violência contra pessoas transgênero; e a maneira mais simples de evitar isso é adotar uma aparência e maneirismos que se encaixem.

Desta forma, se as pessoas transgênero fizeram alguma coisa para reforçar estereótipos, isso é resultado de uma cultura patriarcal sobre a qual não temos nenhum controle e que pune severamente qualquer um violando esses estereótipos.

A cereja do bolo desse argumento falho é que, à medida que a cultura médica reduziu esse controle e nossa cultura abre mais espaço para expressões de gêneros diversas, pessoas transgênero e não conformistas se tornam mais comuns. Este, talvez, seja um dos maiores avanços transgressivos de gênero em nossa cultura atualmente, e é resultado direto do trabalho de ativistas transgênero para começar a conquistar esse espaço.

Longe de reforçar o binário de gênero e estereótipos de gênero, o movimento transgênero está ativamente trabalhando contra isso.

Este post foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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