ENTRETENIMENTO

Laverne Cox: 'O fato de não estarmos mortas não quer dizer que não somos violentadas'

Em entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil, atriz fala sobre seu papel em 'mudar a narrativa transgênero' no mundo e sobre 'Orange Is The New Black'.

16/05/2017 20:57 -03 | Atualizado 17/05/2017 13:00 -03
Mario Anzuoni / Reuters
"As pessoas querem isso porque a diversidade é simplesmente linda", disse sobre o sucesso de Orange Is The New Black.

Laverne Cox é uma mulher negra e transexual. Ela resiste e escolhe ser vista em um mundo que, de forma violenta e radical, insiste em dizer que ela não tem esse direito. "O fato de não estarmos mortas não quer dizer que nós não somos alvos de violência. É nos Estados Unidos e é no mundo. Nós ainda temos que lutar para usar o banheiro", disse, em entrevista exclusiva por telefone ao HuffPost Brasil.

Ela é a atriz que dá o tom da personagem Sophia Burset, ou só "Burset", para as íntimas da Penitenciária de Litchfield, em Orange Is The New Black, produção original da Netflix. Mas Burset já foi Marcos, um bombeiro e pai de família. Rejeitada pelo filho ao assumir sua identidade feminina, Burset acabou presa por fraudar cartões de crédito usados para custear sua cirugia de redesignação sexual.

Este é só um detalhe sobre uma história da série que vai estrear sua quinta temporada no próximo dia 9 de junho. Ao que tudo indica, uma rebelião fará que a força e o poder das detentas se intensifiquem e a luta por justiça e direitos cresça ainda mais em Litchfield. Quem assistiu à quarta temporada, certamente, sabe o motivo (sem spoilers!).

"Eu não posso te contar quem vai dominar essa temporada, mas eu posso te contar o que vai. Eu acho que no mundo atual as pessoas estão lutando contra determinados padrões, inclusive, de administração. E em Litchfield não é diferente", revelou.

Mas Cox não é só Sophia Burset.

Ela, que prefere dizer que é uma "atriz antes de ser uma mulher negra e trans", é a primeira mulher negra trans com um papel relevante em uma série de TV norte-americana; é a primeira mulher negra trans indicada a um Emmy; foi, em 2014, capa da revista Time e em 2015, integrou a lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da mesma publicação que hoje homenageia Viola Davis e RuPaul no ranking.

Reprodução/Netflix
A quinta temporada mostrará o período de apenas três dias da vida das personagens - formato incomum na produção.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Laverne Cox falou sobre diversidade, sobre seu papel como ativista pelos direitos das mulheres transexuais, seu amor por Sophia Burset, pelo elenco de Orange Is The New Black e deu dicas do que pode acontecer entre os pilares de Litchfield neste novo momento.

Leia a entrevista completa:

HuffPost Brasil: Orange Is The New Black é uma série que busca celebrar as mulheres e a diversidade entre elas. Você concorda com isso? O que a série, de fato, significa para você?

Laverne Cox: Durante esses anos, eu aprendi a amar. Eu trabalho com pessoas que são minhas amigas, minha família. Nós somos como irmãs. E, então, isso é o que a série significa para mim neste momento: nela estão as pessoas que eu realmente amo e me importo. E eu acho que o ponto sobre diversidade é muito empolgante. Em um determinado momento, no set, há mais ou menos cinco anos, eu me peguei observando as pessoas ao redor e pensando: "Como isso é lindo". E hoje isso não mudou. Eu olho para o nosso elenco e vejo o quão bonito e diverso ele é. As diferentes formas, tamanhos, idades, gêneros e sexualidades. E é isso. Nunca tivemos algo assim na televisão. Ninguém nunca tinha bancado isso. As pessoas querem isso porque a diversidade é simplesmente linda. Eu penso que as pessoas ao redor do mundo ficaram entediadas e, agora, simplesmente, elas amam essas personagens, se identificam com suas histórias. E fazer parte disso é... Nossa, é muito gratificante. Orange is the new black é isto: uma jornada épica.

As cenas, a vivência, a história da Sophia é algo real. Pessoas reais estão lidando com isso no dia a dia. Laverne Cox, em entrevista ao HuffPost Brasil

E Sophia, a sua personagem? Você se vê nela? O que mais te desafia ao interpretá-la?

Sabe... Eu acho que, é interessante, porque, tem algo sobre... [pensa] A Sophia sempre foi, de certa forma... Eu não posso dizer que foi fácil. Sophia tem tantos momentos. Muitas vezes, ao longo dos anos, eu pensei muito sobre os momentos em que ela ainda não estava na prisão, das violências que sofreu antes disso. E me peguei pensando: "Esses enredos são maiores do que eu". As cenas, a vivência, a história da Sophia é algo real. Pessoas reais estão lidando com isso no dia a dia. Pessoas que estão nas ruas, pessoas que estão encarceradas. É nesse momento em que a história se torna maior do que eu e maior do que a própria série. E você vê verdade no que está representado ali. Você começa a contar a história de uma forma que faz que a audiência sinta isso, sinta tudo o que está ao redor tanto da Sophia, quanto das outras personagens -- e eu digo isso porque sinto a pressão e o desafio de fazer algo verdadeiro. O meu trabalho é tirar essa pressão e me render ao que é maior do que eu mesma. Quando isso acontece, o fato de atuar se transforma em algo divino, em algo que você (e também o público) consegue se conectar. Eu escolho sempre me render ao é que maior do que eu.

Reprodução/Netflix
A nova temporada terá 13 episódios de cerca de uma hora cada, assim como nas temporadas anteriores.

No trailer oficial da próxima temporada dá para ver e sentir o poder das mulheres negras lutando ainda mais por justiça em Litchfield. O que você pode contar para nós sobre? Mais uma vez, Taystee, Crazy Eyes, Cyndy e Watson, vão dar o tom da série?

[Risos] Eu não posso te contar quem vai dominar essa temporada, mas eu posso te contar o que vai. Eu acho que no mundo atual as pessoas estão lutando contra determinados padrões, inclusive, de administração. E em Litchfield não é diferente. É interessante ver quem é parte da resistência, quem luta contra o status quo, e quem não. E a série é sobre isso, é sobre humanidade, é sobre essas mulheres. Algumas pessoas vão dizer... Hm, algumas pessoas não se sentem bem em desafiar a autoridade, em pensar fora da caixa. E será muito interessante ver essa dicotomia acontecer na série. Acho que o que esperamos ver é quem vai conseguir dar esse passo e quem não.

Parte do meu trabalho é estar na mídia, provocá-la, e tentar mudar a narrativa sobre o que é ser transgêneroLaverne Cox, em entrevista para o HuffPost Brasil.

Quando você apareceu na capa da Time, em 2014, foi um momento vital e histórico. Este ano, você entrou na lista das 100 pessoas mais influentes também da Time. Como foi pra você ganhar tanta visibilidade, sendo que, ainda, o mundo insiste em negar a existência de uma mulher negra e trans?

Você sabe... Essa capa demorou três anos para acontecer, na verdade. Ela foi publicada no dia do meu aniversário, com o título The Transgender Tipping Point (O ponto de virada transgênero, em tradução livre), e eu fiquei fascinada com isso. E eu acho que ser vista daquela maneira, foi uma forma de ampliar a visibilidade das pessoas trans na mídia (porque, na maioria das vezes, me veem apenas como uma mulher negra, e não como uma mulher negra e trans). Esse ponto de virada realmente está acontecendo. Pessoas trans estão mais e mais visíveis. Mas estar na capa da revista Time não significa que nós estamos sofrendo menos discriminação.

Divulgação/Netflix

Sim. Inclusive, por aqui não é diferente. O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, de acordo com a ONG Transgender Europe's Trans Murder Monitoring (TMM) Project. Nesse mesmo ranking, os Estados Unidos aparece em terceiro lugar, logo depois do México...

Sim, exatamente. Isso é terrível. Dos últimos três anos para cá, estamos denunciando mais, falando mais, nossas histórias estão sendo contadas. Mas o fato de não estarmos mortas não quer dizer que não sejamos alvos da violência. É nos Estados Unidos e é no mundo. Nós ainda temos que lutar para usar o banheiro, para ter dignidade nas escolas. Esse é o sistema em que vivemos. Parte do meu trabalho é estar na mídia, provocá-la, e tentar mudar a narrativa sobre o que é ser transgênero, sobre quem são essas pessoas, em que elas se apoiam, pelo que elas lutam.

Como você coordena a atuação e o ativismo? Isso é possível?

Você sabe... Essa é uma coisa que eu tenho que lidar todos os dias. Para mim... Eu tenho que saber quem eu sou e qual é o meu papel nisso [no ativismo]. Eu preciso saber o que é o trabalho que eu faço e quais são as causas com as quais eu me importo. Eu tenho que ser, de certa forma, ativa em ambos. Mas, sim, eu tento seguir o meu coração, as minhas raízes; e lembrar que eu sou uma atriz antes (mesmo que outras pessoas não lembrem disso, eu lembro) de ser uma mulher trans.

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