POLÍTICA

Fernando Holiday diz que professor petista o levou a ser contra cotas raciais

"Por mais que fosse favorável, não lutou quando percebeu que eu estava formando um posicionamento contrário”, afirmou em debate da Escola sem Partido.

15/05/2017 17:07 -03 | Atualizado 15/05/2017 17:07 -03
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Vereador de São Paulo Fernando Holiday (DEM) debate Escola sem Partido.

Defensor da Escola sem Partido, o vereador de São Paulo Fernando Holiday (DEM) elogiou a conduta de um professor com quem teve aula no Ensino Médio e era filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Comecei a pesquisar mais sobre pensadores liberais e conservadores graças a um professor filiado ao Partido dos Trabalhadores. Mas ele foi um dos pouquíssimos que não impunha ideias aos alunos. Foi ele quem me incentivou os debates sobre as cotas raciais e, por mais que fosse favorável, não lutou contra quando percebeu que eu estava formando um posicionamento contrário.

A declaração foi dada em audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) nesta segunda-feira (16), promovida pela comissão especial da Câmara dos Deputados que discute o PL 7180/14.

Autor de um projeto com o mesmo objetivo no âmbito municipal, o democrata afirmou que sempre estudou em escola pública e que a maioria dos professores "abusava de seu poder para tentar transmitir ideia ou tentar formar militância partidária ou de movimentos estudantis".

Em seu discurso, o vereador de 20 anos citou a conduta de um professor de História com quem teve aula aos 12 anos como "a lembrança mais forte que tenho de um professor de fato abusando do seu poder em sala de aula". De acordo com Holiday, as críticas do docente à religião levam adolescentes à criminalidade.

Na periferia, muitas vezes, para muitas famílias, você acaba tendo somente duas figuras de inspiração. Uma é o pastor ou padre da igreja e o outro é o traficante. A partir do momento em que o professor, na sala de aula, tirou uma dessas inspirações, no caso o pastor e a Igreja em si, dizendo que aquilo era fantasia e ficção, muitos alunos passaram a enxergar somente um único caminho possível.

"Muitos colegas que tive na escola pública acabaram aderindo ao caminho da criminalidade porque professores não souberam quais eram seus limites (...) Foram pouquíssimos os que não seguiram por esse caminho e conseguiram um emprego ou coisa do tipo", contou o vereador.

Segundo relato de um dos coordenadores do Movimento Brasil Livre (MBL), o professor dedicava parte do tempo em sala de aula para afirmar aos alunos que eles só teriam liberdade intelectual se abandonassem sua fé.

"Aquele professor conseguiu criar uma espécie de militância 'ateus Toddynho', como a gente chama, que não entendiam nada com nada, mas quando viam um cristão resolviam apontar o dedo, brigavam com os pais", afirmou. De acordo com Holiday, a atuação do docente provocou uma série de conflitos e levou os jovens ao tráfico de drogas.

O vereador ressaltou que esse não necessariamente há apenas dois caminhos na periferia, mas que para muitos jovens essa é a realidade.

No começo de abril, o democrata publicou um vídeo do que ele chamou de "fiscalização surpresa" de casos de "doutrinação" em escolas. A iniciativa provocou discussões na Alesp e levou o deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) a pedir ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Corregedoria da Câmara Municipal que apurasse a conduta de Holiday.

Na audiência, o fundador do movimento Escola sem Partido, Miguel Nagib, defendeu a constitucionalidade da propostas e afirmou que consiste apenas em fixar com cartaz nas salas de aula com seis deveres do professor.

O PL 7180/14 altera o artigo 3º da Lei de Diretrizes Básicas da Educação (9.394/1996) e acrescenta como base do ensino o "respeito às convicções do aluno, de seus pais ou responsáveis, tendo os valores de ordem familiar precedência sobre a educação escolar nos aspectos relacionados à educação moral, sexual e religiosa, vedada a transversalidade ou técnicas subliminares no ensino desses temas."

De acordo com a proposta, temas como combate à homofobia e à violência contra a mulher não poderão ser tratados em sala de aula porque podem ser considerados contrários aos valores morais ou religiosos dos pais. O Brasil é o país com maior número de assassinatos a pessoas LGBT e tem a quinta maior taxa de feminicídios do mundo.

A audiência foi coordenada pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSC-RJ) e contou com a participação do relator do PL na comissão, deputado Flavinho (PSB-SP), que pretende apresentar o parecer em agosto. Se o texto for aprovado no colegiado, segue para o plenário da Câmara.

Também participaram do debate a advogada Daniela Bruzarrosco, do movimento São Paulo Conservador, o estudante Douglas Garcia, do movimento Direita São Paulo e Gil Diniz, conhecido como Carteiro Reaça. Todos são a favor da Escola sem Partido.

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