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No Pará, projeto 'hackeia' rios para levar informação e tecnologia aos ribeirinhos

"Os barcos precisam voltar cada vez mais, porque várias coisas poderiam ser melhoradas se os ribeirinhos tivessem acesso a informação."

15/05/2017 19:38 -03 | Atualizado 15/05/2017 19:46 -03
Barco Hacker
Maratona Maker realizada em parceria com a Intel para as crianças ribeirinhas.

Em Belém, no Pará, três rios conectam a região: o Amazonas, o Maguari e Guamá. Suas águas banham pelo menos 40 ilhas e são fontes de sobrevivência e transporte para as famílias da região.

Atravessar os igarapés é uma travessia impactante. Deixa-se a capital de mais de 1,3 milhões de habitantes para estar em contato com a grandiosidade da bacia Amazônica.

O pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA), Odimar Melo, defende que nenhuma cidade do Brasil apresenta um arquipelágo como o de Belém e chama atenção para a diversidade da fauna e da flora local.

"Apesar dessas particularidades, sabe-se ainda pouco sobre as ilhas de Belém, visto que algumas delas não têm denominação dada pelos órgãos oficiais e nem contagem confiável de população, ou seja, poucos estudos foram realizados nestas ilhas. No entanto, outras são mais conhecidas pela população belenense", explica o pesquisador em entrevista ao G1.

É neste contexto que existe um projeto que está ressignificando as rotas dos rios e a vida de quem mora perto deles.

Com o Barco Hacker, as correntezas se transformam em elos de comunicação e transformação, ao levar internet e tecnologia para locais que carecem até de uma rede de energia elétrica estruturada e que tem o turismo como uma de suas formas de sustento.

Barco Hacker
Ilhas na região de Belém, no Pará.

Há pouco mais de dois anos, voluntários ocupam seus finais de semana em viagens temáticas para visitar as famílias ribeirinhas. A intenção é conhecer um pouco mais da realidade para além das margens do rio e encontrar formas de impactá-las, seja com a capacitação tecnológica ou com uma roda de conversa.

Barco Hacker
Palestra no Barco Hacker.

"Nós fazemos rotas não convencionais e não comerciais para as ilhas que existem na região próxima a Belém. A gente consegue conectar pessoas da cidade, que tem acesso a tecnologia, com a comunidade ribeirinha. Nós hackeamos as rotas dos rios, levamos pessoas de fora da comunidade a conhecer a rotina da população. Tiramos a pessoa de seu convívio tradicional para experimentar uma vivência diferente das que elas estão acostumadas", explica Kamila Brito, idealizadora do projeto, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Barco Hacker
Tecnologia a bordo.

O termo hacker, comumente atrelado a modificações em sistemas informáticos, pode ser utilizado no contexto do empreendedorismo, principalmente o social, com outro sentido: encontrar caminhos para reprogramar uma realidade e assim obter resultados transformadores.

"A partir dos temas que discutimos, queremos gerar diálogos. Quando estamos na ilha, a gente percebe que os barcos precisam voltar cada vez mais. Porque várias coisas poderiam ser melhoradas se os ribeirinhos tivessem acesso a informação. E são coisas simples, basta uma conexão com a internet ou uma conversa, por exemplo. São simples mas ainda são distantes", explica Brito.

Barco Hacker
Workshop de Dados Abertos na Ilha do Combu.

O Barco Hacker já organizou um workshop de dados abertos a bordo da navegação. Em outra viagem, foi discutida a poluição das águas dos rios.

Em outro final de semana, cerca de 120 jovens das ilhas foram convidados a pensar soluções para os problemas de suas próprias realidades em uma imersão do Startup Weekend fluvial, patrocinada pela Intel.

Em junho, deve acontecer a próxima viagem cujo tema é o empoderamento feminino nas ilhas.

"No Startup Weekend, os jovens voltaram com uma nova perspectiva do poder que eles têm. As ideias discutidas no Barco foram colocadas em prática. Eles conheceram o conceito do empreendedorismo social que nunca foi disseminado na minha região. Estamos longe dos grandes centros, como São Paulo. Mas as pessoas conseguem vivenciar essa transformação, independente da estrutura ou do grau de educação", compartilha a coordenadora do projeto.

Como conhecer a comunidade?

Para participar da viagem basta se inscrever na lista aberta divulgada nas redes sociais do projeto. Cada voluntário contribui com uma taxa que varia de acordo com a estrutura que será necessária para o final de semana, como rede de computadores e alimentação.

Antes da chegada da embarcação, Kamila e mais dois coordenadores fazem uma imersão na ilha para compreender a realidade local. A partir dessa vivência são selecionados os temas a serem trabalhados com os voluntário e a comunidade ribeirinha.

"É sempre uma troca da cidade com a ilha. Eu vou te convidar para sair da sua realidade e viver a realidade de outras pessoas. Você vai precisar estar sujeito a mudanças constantes. São mudanças climáticas, de ambientes, do contato com a natureza. São aulas práticas de cidadania", explica Brito.

Barco Hacker
Maratona Maker nas ilhas.

Ela, que começou o projeto como uma atividade de final de semana, conta que se surpreendeu com a repercussão e impacto das visitas.

"O barco deixou de ser barco, ele se tornou um projeto colaborativo. Todos tem o poder de construção. De viver aquela experiência. A ideia é conectar pessoas humanas e sensitivas. Temos que zelar pelo coletivo, pelo compartilhado. O barco transforma", afirma.

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