MULHERES

Mãe solo, ela usou o Tinder para fazer um experimento: 'Esconder a maternidade é uma necessidade'

"A solidão da mãe é vista como obstáculo para tornar aquela mulher forte. Nós não queremos esses obstáculos. Não amo menos meu filho por entender que ele não é minha propriedade e eu não sou propriedade dele."

14/05/2017 13:07 -03 | Atualizado 17/05/2017 08:42 -03
Reprodução
Ela é mãe solo e utilizou o Tinder para fazer um experimento social

* Atualização: A usuária desativou o seu perfil após a repercussão do post.

Fernanda Teixeira tem 27 anos e é solteira.

Como muitas outras jovens, ela resolveu criar um perfil na rede social de relacionamentos Tinder.

Enquanto a maior parte dos usuários do app está ali em busca do 'match' perfeito, Teixeira resolveu fazer de seu perfil uma experiência.

Isso porque, além de ser mulher e solteira, ela é mãe solo. E isso muda tudo.

Em uma postagem publicada no último sábado (13),em sua página do Facebook, a jovem contou com detalhes como foi a sua experiência utilizando a rede social.

De acordo com ela, "esconder a maternidade" é uma necessidade para as mulheres que buscam algum tipo de relacionamento após serem mães. E ela resolveu comprovar isso com a sua experiência no Tinder.

Foram 84 homens heterossexuais possivelmente interessados em conhecer melhor Fernanda Teixeira durante um período em que que ela classificou como uma "semana forte".

No post, ela compartilhou algumas das conversas que teve com os tais possíveis parceiros:

*Raul - 27 anos:
-Oi gata
-Oi. tudo bem?
-Melhor agora.
- ><
-Que bom que você avisa que tem filho.
-É? Por que?
-Assim facilita e a gente não tem surpresa.
-Como assim?
-ah gata, não se apaixona nem se desiludi
- como assim?
- vc é mãe, já sei q n rola nd sério

*Elton - 29 anos
-... eu concordo com esses caras na verdade
- tu concorda com os absurdos que disse que já ouvi por ser mãe?
- ué, vc ficou solteira pq quis e parece esperta
- e???
- e que todo mundo sabe q ngm leva a sério mulher com filho
- Por que?
-p q se ja teve filho e ta solteira boa coisa n é

Na publicação, Fernanda Teixeira utiliza as conversas para tratar de um tema que ainda é tabu para muitas pessoas: a solidão.

"A solidão da mãe é vista como obstáculo para tornar aquela mulher forte. Nós não queremos esses obstáculos. Ninguém quer. Essa cultura coloca todos os dias milhões de mulheres numa posição que facilita a exposição aos abusos", argumenta.

Ela conta que após o divórcio passou por diversos relacionamentos e que todos tinham algo em comum: o homem a escondia socialmente pelo fato de ela ter um filho.

Além disso, falou sobre a exposição aos relacionamentos abusivos aos quais precisou lidar e "fingir que estava tudo bem, que era forte."

"Esses diálogos nojentos aí em cima provam que nada está bem. O meu estado "civil" no momento não importa pra ninguém porque essa não é a questão desse experimento e do futuro artigo. Meu estado emocional e o estado emocional de todas as mães que escondem sua maternidade no primeiro momento para evitar fetichização e conseguir atenção afetiva, sim", complementa.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Teixeira explica por que decidiu fazer o teste.

"Eu sempre observei isso. Sei que tenho esclarecimento e discernimento suficiente pra reconhecer as coisas que passo no dia a dia, mesmo a maioria sendo velada. Perdi a contas de quantos caras fiquei, mas o em público nunca rolava porque, né... tenho 'o brinde', como eles nojentamente chamam. E quando eu falo sobre, as pessoas acham que é exagero, que é 'mania de perseguição'."

Na publicação, ela também chama atenção para o desafio que é tratar a maternidade de forma empoderada ao reconhecer que por trás da mãe existe uma mulher, um indíviduo com desejos, mas sobretudo muita coragem.

"Ser mãe não é amar incondicionalmente e abrir mão da vida social/sexual/amorosa; nem desfazer planos, nem se privar da carreira, nem se privar de todos os sonhos e planos traçados. Isso é ser submissa à alguém. Ser mãe é ser responsável pela vida de um terceiro, eternamente ligado a ti. Nutrir o crescimento desse ser da melhor maneira que conseguires e se esforçar muito pra que tudo de certo pra ele, em primeiro lugar.[...] não amo menos meu filho por entender que ele não é minha propriedade e eu não sou propriedade dele."

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