ENTRETENIMENTO

Graciiiiinha! A biografia de Hebe Camargo é uma ode à rainha da TV brasileira

"Que este livro seja um brinde, como os muitos com que ela celebrou a alegria de viver."

12/05/2017 18:22 -03 | Atualizado 12/05/2017 18:41 -03

Extravagante. Sincera. Presenteadora. Inteira. Boa de copo e de garfo. Muita vida numa pessoa só. Ao pedir que amigos de Hebe Camargo o definissem em poucas palavras, foram esses os adjetivos e descrições que o jornalista Artur Xexéu ouviu.

É ele o responsável por Hebe – A Biografia, que acaba de chegar às livrarias brasileiras pela Editora Best Seller. Ao longo de quase 300 páginas é possível acompanhar em detalhes infinidade de histórias de cunho tanto profissional quanto pessoal da artista.

Nascida em Taubaté, em São Paulo, Hebe Camargo iniciou a carreira como cantora de rádio nos anos 40, mas foi na TV que fez história e conquistou milhões de fãs. Ela esteve na telinha desde a primeira transmissão no país, realizada Rede Tupi, de Assis Chateaubriand. E por lá ficou durante mais de 60 anos.

A trajetória de sucesso da estrela que se tornou referência para gerações de artistas foi encerrada em 2012 por um câncer.

Ela tinha 83 anos. "Contar a história da Hebe é, de uma certa maneira, contar a história da televisão brasileira. Porque enquanto houve TV e Hebe - juntos nesse planeta - ela estava trabalhando na televisão. Foi também uma oportunidade de contar o desenvolvimento da história da TV", contou o Xexéu à rádio EBC.

Divulgação
Biografia autorizada de Hebe Camargo acaba de chegar ás livrarias.

Para o jornalista, a apresentadora foi uma mulher a frente do seu tempo, já que não era comum mulheres tomarem as rédeas de suas vidas como a apresentadora tomou durante sua trajetória.

"Ela foi uma artista, na sua época, revolucionária. Não havia muitos apresentadores de TV do sexo feminino. Era quase uma exclusividade do sexo masculino. E a Hebe estourou de cara no começo da televisão como apresentadora, impondo um estilo que era dela - que não era copiado de ninguém. E na vida particular também. Ela nunca quis depender de homem nenhum - o que era comum na época em que viveu. E ela fez questão de ter sua independência e falar disso", disse à rádio EBC.

O processo de pesquisa para a biografia demorou cerca de dois anos. Nesse tempo, o jornalista ouviu familiares, entrevistou amigos e profissionais que trabalharam com Hebe e teve acesso a importantes documentos sobre a trajetória da estrela.

Na entrevista à rádio, ele revelou que o processo de pesquisa contou ainda com um ajuda bem especial de uma fã da Hebe.

"Trata-se da dona Eleonor, que mora em Santos e tem a idade dela. Desde que a Hebe começou nos final dos anos 1940, essa senhora se tornou fã da dela e passou a fazer álbuns de recortes. Ela fez um primeiro álbum, que cobre os primeiros quatro ou cinco anos de carreira da Hebe e deu para a apresentadora de presente. A Hebe ficou tão entusiasmada que falou para ela: 'Eu vou te alimentar de material e quero que você continue fazendo isso'. Essa senhora fez álbuns de recortes da Hebe a vida inteiro. Hoje existem 20 álbuns que têm toda a trajetória dela traçada. Mesmo sobre períodos que eu teria dificuldade maior de conseguir registro - tendo que ir à Biblioteca Nacional e procurar qual jornal falou isso ou aquilo - a dona Leonor já tinha feito essa pesquisa há 40, 50, 60 anos atrás. Isso ajudou muito."

Entre as narrativas pessoais que o leitor pode ler na biografia está o aborto que a apresentadora fez aos 18 anos, após engravidar do primeiro namorado, Luis Ramos. Mais velho que Hebe, o empresário tinha esposa e uma segunda amante.

Divulgação/Facebook
Pioneira na TV, Hebe conquistou milhões de fãs ao longo de 60 anos de carreira.

Em um dos trechos do livro, que traz depoimento de Hebe, ela detalha:

"Eu fiz. Fiz justamente porque achei que era uma coisa muito delicada esse filho ter uma irmã de um mesmo pai com outra mulher... outra irmã com outra mulher. Essa criança ia ficar com uma cabeça tão louca que ia ficar sem saber... Eu acho que é uma coisa muito pessoal. Eu não aconselho as pessoas a fazerem. Eu não aconselho. Acho que é uma coisa que cada um tem que saber o que deve fazer. É uma coisa de conscientização própria."

A seguir, você acompanha o prefácio de Hebe – A Biografia, disponível no site da Editora Best Seller:

Minha avó materna, dona Candoca, foi quem me apresentou a Hebe Camargo. Era ela, a minha avó, quem controlava o seletor de canais da moderníssima TV importada de 18 polegadas que tinha lugar de destaque na sala de visitas do apartamento em Copacabana. E era para lá que eu ia, quase todo dia, depois da aula. Eram três os canais. No canal 6, a TV Tupi, parte da família gostava de assistir ao Repórter Esso e ao Grande Teatro de Sergio Britto. O canal 13, da TV Rio, exibia meus programas favoritos, quase todos shows humorísticos, como Noites Cariocas e O Riso é o Limite. Ao 9, a TV Continental, ninguém assistia. Quer dizer, quase ninguém. Pelo menos uma vez por semana, minha avó sintonizava o menosprezado canal 9. Era quando ia ao ar o programa da Hebe Camargo.

Não era difícil entender por que ela gostava tanto da Hebe. Dona Candoca era leitora assídua da Revista do Rádio, mas rejeitava os cantores populares, que considerava vulgares. Nada de Marlene ou Emilinha Borba, ou qualquer outra cantora que fosse presença constante na Rádio Nacional, celeiro de artistas que mobilizavam fã-clubes. Na Nacional, sua única concessão eram as novelas. Ouvia todas. Dona Candoca era uma sonhadora. E Hebe Camargo cumpria as exigências que ela impunha para quem considerava uma boa cantora. Elegante, refinada e romântica, cantava contracenando com um botão de rosa vermelho. Não sei por que eu achava que a rosa era vermelha. Afinal, a TV era em preto e branco.

Eu me lembro de um Natal em que os netos fizeram uma vaquinha para comprar um presente para dona Candoca. O que ela mais gostaria de ganhar? Um disco da Hebe, é claro. Entregue e desembrulhado o presente, uma das músicas do LP logo se destacou no repertório: "Quem é?", de Osmar Navarro e Oldemar Magalhães.

Quem é que lhe cobre de beijos

Satisfaz seus desejos

E que muito lhe quer

Quem é?

Durante muito tempo, a Hebe cantando "Quem é?" ocupou o primeiro lugar no hit parade daquela casa. Minha avó adorava. E, agora, confesso: eu também. Não muito depois daquele Natal, me mudei do Rio com meus pais e descobri que a TV podia oferecer mais opções que os três canais cariocas. Em São Paulo, eram cinco as estações. Eu via o Sítio do Picapau Amarelo na Cultura, o programa da Bibi Ferreira na Excelsior, o Grande Show União na Record, os teleteatros do TV de Vanguarda e do TV de Comédia na Tupi.

Além disso, quase todo dia tinha algum programa da Hebe na TV Paulista. Ela era uma estrela absoluta em São Paulo. Era difícil, no horário nobre, girar o seletor de canais e não esbarrar em algum show apresentado por ela. Descobri um jeito de matar as saudades da televisão carioca, do Rio e da minha avó: assistindo aos programas de Hebe na TV Paulista. Nós ainda morávamos na capital paulista quando Hebe se casou e largou a carreira. Foi uma comoção, refletida nas muitas páginas de jornais e revistas que cobriram a cerimônia de casamento com Décio Capuano, o nascimento do filho do casal, Marcello, o cotidiano de dona de casa que ela abraçava e as muitas especulações sobre sua volta à vida artística.

Só vi alvoroço maior quando Hebe voltou de verdade e estreou na TV Record. Antes de a Globo lançar o Fantástico, era Hebe o programa que dominava o horário nobre aos domingos. O sofá no palco do Teatro Record no qual a mais querida apresentadora do Brasil recebia seus convidados virou uma instituição nacional. Ninguém tinha prestígio suficiente neste país se não se sentasse ali para ser entrevistado. O programa na Record durou oito anos, e, depois dele, Hebe afastou-se de novo da televisão.

Nesse período, eu voltei para o Rio, formei-me em jornalismo e deixei Hebe de lado. Até receber, como repórter da sucursal carioca da revista Veja, a pauta que me reaproximaria dela: cobrir sua estreia na TV Bandeirantes. Hebe retornava à televisão mais uma vez, e eu fui enviado para São Paulo a fim de entrevistá-la — além de assistir ao primeiro programa na nova emissora, naturalmente. Fui recebido na famosa casa do Morumbi onde ela morava com o segundo marido, o empresário Lélio Ravagnani. Me senti honrado. Não era qualquer um que se sentava no sofá de Hebe — e era o sofá da sua sala de estar, não uma peça de cenografia! Mas, acredite, quem parecia honrada era ela. E a estrela não entendia por que a Veja, "uma revista séria", estava interessada no seu regresso à TV. "Isso é assunto?", me perguntou. "Claro que é", respondi. "Você é a Hebe Camargo."

Depois disso, eu só via Hebe na telinha. De vez em quando ela era citada em uma ou outra nota na coluna que mantive no Jornal do Brasil e ainda mantenho no Globo. Até o dia em que ela me achou, por telefone, no estacionamento de um shopping center no Rio. Já estava doente. Tinha passado um tempo afastada do horário nobre — agora no SBT — para cuidar da saúde, mas uma semana antes do telefonema havia retomado as atividades. Foi um programa emocionante, que celebrou a sua volta à TV. Amigos na plateia, amigos no palco, todo mundo queria mostrar à Hebe o quanto ela era querida. E foi sobre esse sentimento que eu escrevi na minha coluna daquela semana. A TV e a Hebe viveram um casamento perfeito por mais de sessenta anos. Sem a Hebe, a TV tinha ficado sem graça. Com ela de volta, a televisão fazia sentido novamente.

Pois ali, no estacionamento do shopping, o celular tocou e alguém me disse que Hebe Camargo queria falar comigo. Fiquei paralisado. Era ela mesma do outro lado da linha. Queria agradecer pelo que eu tinha escrito na coluna. Me deu vontade de chorar. Chorei. Ali, no estacionamento do shopping, imaginei quantos elogios, quantas homenagens a Hebe já tinha recebido, e mesmo assim ainda se dava ao trabalho de telefonar para agradecer àquele que talvez tenha sido o menos importante dos elogios, a mais singela das homenagens. Querendo mostrar a intimidade que tinha com ela, falei da minha avó, do programa da TV Continental, do disco que nós, os netos, compramos, da minha canção preferida... No fim, cantamos em dueto "Quem é?". Eu não podia vê-la, mas tenho certeza de que a Hebe estava segurando a gargalhada diante de minha desafinação.

Voltamos a nos ver quando ela recebeu o prêmio Faz Diferença, do jornal O Globo, em uma festa no hotel Copacabana Palace. Não nos falamos, pois era difícil chegar perto dela. Era a mais requisitada de todos os premiados. Dos donos do jornal aos estagiários que cobriam a festa, todos queriam ficar perto dela. Eu não tive a menor chance. A certa altura da noite, trocamos olhares. Acho que foram olhares cúmplices e que, em pensamento, reprisamos nosso dueto cantando baixinho: "Quem é que lhe cobre de beijos?"

Quis o destino que eu encontrasse a Hebe mais uma vez, quando fui convidado para escrever sua biografia. Durante um ano e meio convivi com ela, coletando dados para descrever a trajetória de uma personalidade esfuziante, que ajudou a contar a história da televisão brasileira. Impossível não lembrar todos os nossos encontros. Impossível não lembrar minha avó. Ah... e minha intuição estava certa. Enquanto apurava informações para minha pesquisa, descobri que as flores preferidas da Hebe eram as rosas vermelhas, rosas da mesma cor que eu identificava no velho aparelho de TV em preto e branco da dona Candoca.

Que este livro seja um brinde, como os muitos com que ela celebrou a alegria de viver. "À vida", ela costumava dizer enquanto batia taças de champanhe. Com este livro, eu brindo com a Hebe: à vida!

LEIA MAIS:

- Patrícia Abravanel deveria ter aprendido com Hebe a combater o preconceito e não reforçá-lo (VÍDEO)

- Seu Dia do Amigo só vai ficar completo com este encontro entre Nair, Hebe e Lolita Rodrigues

31 grandes artistas em seus estúdios