ENTRETENIMENTO

Um episódio de 'Cara Gente Branca' explica por que é tão difícil falar sobre racismo com pessoas brancas

O quinto episódio da série é o mais comentado, e com razão.

11/05/2017 15:58 -03 | Atualizado 12/05/2017 10:57 -03
Netflix
Uma cena de "Cara Gente Branca", na Netflix.

Toda pessoa negra que vive nos Estados Unidos acaba por aceitar uma coisa em algum momento: a chamada "N-word" não vai desaparecer. Quer você a use ou não, quer você ache tudo bem usar a palavra, quer ela o ofenda profundamente, é uma palavra que carrega tanta história e tanto sofrimento que é impossível evitá-la. Na discussão que segue, usamos a palavra sem censurá-la.

O consenso geral entre a maioria dos negros é que "nigger" é uma palavra que deve ser deixada para que nós, negros, lidemos com ela. Em outras palavras: pessoas não negras – e especialmente as pessoas brancas – não devem empregá-la. Não devem empregá-la coloquialmente, não devem empregá-la em sentido pejorativo, dentro de contexto ou fora. Falando francamente, sabemos que vocês vão usar de qualquer jeito, mas não o façam quando estiverem conosco, pelo menos.

Levaria tempo demais apresentar todos os argumentos e contra-argumentos sobre as razões pelas quais os brancos devem evitar essa palavra por completo. Inúmeras pessoas já explicaram por que não existem desculpas nem circunstâncias que autorizem brancos a dizer "nigga" e já explicitaram porque não se trata de um caso de dois pesos, duas medidas.

O que raramente é explicado, contudo, é a mão-de-obra emocional e espiritual necessária para tentar explicar a pessoas não negras por que não devem proferir a palavra. A série da Netflix "Cara gente branca" ilustra essa frustração perfeitamente.

O quinto episódio da série é o mais comentado, e com razão. Dirigido pelo premiado com o Oscar Barry Jenkins, o episódio acompanha um dia na vida de Reggie (Marque Richardson), o líder super antenado do fictício Grêmio Estudantil Negro da Universidade Winchester. Reggie é apaixonado pela ativista Sam (Logan Browning).

Em uma cena, a mais importante do episódio, Reggie, que é negro, está numa festa com outros estudantes, em sua maioria brancos. Está tudo tranquilo, ele está dançando e se divertindo, até que um amigo branco dele chamado Addison, cantando a letra de uma canção de hip-hop, solta a bomba N. Reggie lhe pede para não falar aquilo. Addison explica que ele não usa esse termo "na realidade", mas apenas está cantando a letra da música.

"Não é como se eu fosse racista", ele insiste.

E lá está. O momento em que você está pedindo a outra pessoa que lhe respeite, deixando de usar uma palavra que você considera pejorativa e ofensiva, e a pessoa vira a situação para que diga respeito a ela, de repente focando mais a crítica que ela imagina que tenha sido feita a seu caráter, em vez de focar sobre como ela fez você se sentir.

Reggie expressa o problema perfeitamente quando diz: "Não diga 'nigga', só isso. Você não precisava dizer aquela hora. Afinal, como você se sentiria se eu começasse a cantarolar letras de rap dizendo 'honky' e 'cracker'?" [termos pejorativos usados por negros para aludir a brancos].

"Eu não daria a mínima."

"Exatamente. É essa a diferença. Você não se incomoda. Mas eu me incomodo. Entendeu?"

É claro que Addison não entende, e a conversa rapidamente ganha um tom acintoso, com Addison insistindo que não é um interiorano reacionário, observando que foi legal com Reggie, deixando-o participar da festa em sua casa, e lamentando que devido à correção política "a gente não pode nem mais se divertir".

Parte do que torna essa experiência emocionalmente cansativa, do que faz cada caso como esse tão exaustivo para muitas pessoas negras, é que com frequência as interações desse tipo acontecem em público, na vida real ou online, e muita energia mental tem que ser investida em reprimir nossa raiva, para que não sejamos tachados de raivosos, agressivos ou dominados pela emoção.

Como Reggie, somos obrigados a comprometer nossa humanidade para que ela seja mais visível para a pessoa branca que não entende "por que isso é tão importante". Essa realidade fica muito clara na cena, quando, depois de a discussão de Reggie com Addison levar um dos presentes à festa a chamar a polícia, vemos Reggie olhando direto para o cano da arma de um policial.

É exaustivo ter que explicar que o termo mais coloquial "nigga" não é um clube do qual só negros podem ser sócios. É exaustivo ter que explicar que você ter direito ou não ter direito de usar uma palavra não se baseia em você ser simpático ou não, não depende de quantos amigos pretos ou você tem ou quantas músicas de hip-hop você conhece. É exaustivo ter que explicar que o uso do termo "nigga" é uma reação a todas as consequências reais de ser negro. É exaustivo fazer tudo isso e saber que, na maioria dos casos, a pessoa para quem você está explicando tudo não vai acreditar.

Este post foi originalmente publicado no HuffPost Black Voices e traduzido do inglês.

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