COMPORTAMENTO

É exatamente assim que o açúcar age dentro do seu corpo

Existe um jeito de fazer com que o açúcar seja um alimento 'seguro' para o consumo.

11/05/2017 13:01 -03 | Atualizado 11/05/2017 14:38 -03
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A questão do açúcar e o papel que ele desempenha em nossa saúde é uma discussão presente, contínua e de importância maior.

Todos nós já ouvimos as estatísticas: quase dois em cada três adultos, além de 25% das crianças do País*, têm sobrepeso ou estão obesos.

O que é o que o açúcar tem que gera um ganho de peso tão dramático, ano após ano? Será que todas as formas de açúcar são perigosas? Ou existe uma maneira de fazer com que seja seguro consumir açúcar?

Robert Lustig, professor de pediatria na Divisão de Endocrinologia da Universidade da Califórnia em San Francisco, pode nos dar respostas a todas essas perguntas.

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Leptina (o "hormônio da saciedade")

A razão por que o açúcar é tão prejudicial ao nosso corpo, até mesmo tóxico, tem tudo a ver com seu efeito sobre a leptina (o "hormônio da saciedade") e a insulina.

"A leptina é um hormônio produzido por células adiposas [que armazenam gorduras] em resposta à recepção de energia", disse Lustig ao Huffington Post Austrália.

"Ela é liberada no fluxo sanguíneo e vai para diversos órgãos do corpo, dizendo a eles que há energia suficiente disponível para eles realizarem processos metabólicos de alto consumo energético. Em outras palavras, a leptina garante que o corpo não esteja 'passando fome'."

A puberdade, a gestação e a produção de ossos fortes são processos corporais de alto consumo energético. Se você não tem leptina, não pode passar pela puberdade, não pode engravidar e não pode construir ossos fortes.

"A leptina permite que todas essas coisas ocorram porque o resto do corpo, quer seja o cérebro ou os ossos, consome leptina."

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Ghrelin, on the other hand, is the "hunger hormone".

Quando o nível de leptina sobe, seu apetite diminui. Logo, a leptina é crucial para controlar quanto você come.

"Quando seu cérebro vê o sinal da leptina, ele diz: 'Não estou passando fome, não preciso comer tanto'. E assim seu corpo pode procriar, menstruar, gestar um filho, construir ossos fortes, ter um sistema imunológico normal e assim por diante", falou Lustig.

"Quando a leptina não faz a transdução de um sinal, o cérebro diz 'estou morrendo de fome, preciso reduzir meu gasto energético e aumentar meu consumo de alimentos para poder me abastecer de energia e produzir leptina'."

Basicamente, a leptina regula nosso metabolismo e o ritmo da decomposição da gordura. Quando os níveis de leptina se elevam, nosso índice metabólico sobe. Quando o nível de leptina cai, nosso metabolismo se desacelera.

"É como um termostato. O termostato lê a temperatura presente na casa. Se estiver frio demais, ele liga o aquecedor. Quando a temperatura chega ao nível desejado, ele desliga o aquecedor."

O que aprendemos com nossa pesquisa é que o hormônio insulina bloqueia a leptina.

O que a leptina tem a ver com o açúcar e a insulina? Muita coisa. Porque o que comemos (açúcar) pode afetar negativamente nosso nível de leptina (logo, nosso metabolismo e apetite).

"Resistência à leptina. Ou seja, há leptina de sobra, mas o cérebro não reage a ela", explicou Lustig.

"Isso pode se dar ou porque o receptor está com uma mutação ou porque há algo mais abaixo do receptor de leptina que está levando alguma coisa a não funcionar direito. É o que tem o resto das pessoas obesas.

"Então o que fazemos? Aprendemos com nossa pesquisa que o hormônio insulina bloqueia a leptina."

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Insulina (o hormônio que converte comida em glicose)

A razão por que a insulina bloqueia a leptina é que a insulina manda suas células adiposas armazenarem energia (ganho de peso).

"A insulina desloca a energia que você consome (ou seja, o açúcar) para a gordura. As células adiposas convertem essa energia em gordura, ácidos graxos e triglicerídeos, e então a célula adiposa produz leptina", disse Lustig.

Mas insulina em excesso pode impedir a leptina de cumprir sua função – fazer com que nos sintamos saciados.

"Se a função da insulina é armazenar energia, faz sentido que é ela quem impede a leptina de funcionar. Senão você não poderia armazenar a energia, já que pararia de comer, porque a leptina estaria funcionando.

"A pergunta é: o que produziu a insulina? Por que o nível de insulina de todo o mundo está duas a quatro vezes mais alto hoje do que era 40 anos atrás? É esse o problema."

De acordo com Lustig, o problema não é a resistência à leptina. A resistência à leptina é o sintoma do problema. O que criou a resistência à leptina?

"É aí que entra o açúcar."

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Açúcar (glicose e frutose)

Açúcar. Ele está em todos nossos alimentos favoritos: biscoitos, donuts, bolos, doces, pirulitos, chocolate.

"O açúcar é feito de duas moléculas. Uma se chama glicose e a outra se chama frutose", disse Lustig ao HuffPost Austrália.

"A glicose é a energia da vida. Toda célula no planeta precisa de glicose para ter energia. A glicose é tão importante que, se você não a consome, seu corpo a fabrica.

"Por exemplo, não existem plantas no Polo Norte. Os esquimós comem banha de baleia – proteína e gordura. Eles não consomem carboidratos, mas mesmo assim têm um nível de glicose normal."

Esse processo de converter gordura em glicose se chama gliconeogênese e ocorre no fígado.

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"A glicose existe no amido. O amido é feito de glicose. Pão, arroz, macarrão, batatas, lentilhas, quinoa, feijão –tudo isso é glicose.

"Quando você consome glicose (por exemplo, uma fatia de pão branco), apenas 20% da glicose vai parar no fígado. Oitenta por cento dela vai parar nos outros órgãos, porque todas as células do seu corpo podem utilizar glicose para gerar energia."

O grande problema é a combinação de glicose e frutose, da qual a alimentação ocidental está cheia. Ela é encontrada em sucos de frutas, refrigerantes, pirulitos, açúcar e melado.

"O açúcar, aquela coisa doce, é a glicose e a frutose. Uma coisa mais a outra. Frutose não é glicose. A frutose é doce e é a razão porque gostamos do açúcar e temos vontade de consumi-lo. A frutose é o componente do açúcar que gera dependência. A glicose, não", disse Lustig.

"A frutose não é metabolizada pelos outros órgãos do corpo. Apenas o fígado é capaz de lidar com a frutose. Quando você consome açúcar, 20% da glicose vai para o fígado, mas 100% da frutose vai para o fígado.

"E, se você sobrecarregar a capacidade de seu fígado de metabolizar a frutose, algo que acontece com relativa facilidade, aquela frutose extra é convertida em gordura hepática. Esse é um processo chamado lipogênese de novo. É como o açúcar é convertido em gordura."

Ou o fígado libera a gordura no fluxo sanguíneo, onde ela vai elevar o nível de triglicerídeos (um fator de risco de doença cardíaca e obesidade), ou o fígado não a libera e "ela permanece no fígado e se precipita".

"Agora você tem esteatose hepática, ou doença hepática gordurosa. Seu pâncreas precisa produzir insulina a mais para fazer o fígado realizar seu trabalho. Agora você tem altos níveis de insulina em todo lugar. Você está ganhando peso e sua insulina está bloqueando a leptina ao nível do cérebro, fazendo você sentir mais fome. Você está com um círculo vicioso de consumo e doença."

YelenaYemchuk

Fibras (a maneira de tornar o açúcar seguro)

Se você está ficando apavorado em relação ao açúcar, lembre-se do seguinte:

"Existe uma maneira de tornar a frutose e glicose seguras. Chama-se fibras. Em outras palavras, frutas, que contêm fibras", diz Lustig.

Existem dois tipos de fibras: as solúveis e as insolúveis. As fibras solúveis são como a pectina que dão consistência à geleia de frutas, e as fibras insolúveis são como a celulose (aquela coisa fibrosa que o aipo possui). Você precisa dos dois tipos de fibras – e as frutas contêm os dois tipos.

"Quando você consome os dois tipos (consome uma fruta), o que acontece é que a fibra insolúvel forma uma rede no interior de seu intestino. Então a fibra solúvel fura buracos na rede", Lustig explicou.

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Thanks to fibre, you don't have to fear fruit.

"Você acaba com um gel esbranquiçado que reveste o interior do intestino e atua como barreira, para que seu corpo não absorva todo aquele açúcar rapidamente. Você o absorve devagar, e isso protege o fígado, não deixando que ele fique gordo."

A outra coisa realmente bacana das fibras é a seguinte: quando consumimos fibras, elas alimentam nossas bactérias intestinais. Não as absorvemos para nosso próprio uso e não as armazenamos, explicou Lustig.

"Além disso, como você não absorveu o alimento rapidamente, aquilo que você comeu vai percorrer o intestino e avançar mais longe. Na segunda parte do intestino existe algo que não há na primeira: bactérias. O microbioma. Essas bactérias precisam comer para viver.

"Quando você consome alimentos com fibras, suas bactérias recebem mais. E isso permite que as bactérias boas cresçam. As bactérias mastigam a energia, em vez de você a absorver.

"Assim, apesar de você ter comido o alimento, você não ficou com ele. As bactérias ficaram. Essa é uma coisa positiva."

Essencialmente, as fibras são o antídoto do açúcar. As fibras são a razão por que comer frutas não tem problema.

"O problema é quando você retira as fibras e consome apenas o açúcar. Isso não é ok. Por exemplo: suco de frutas", disse Lustig.

"Essa é a diferença entre comida de verdade e comida processada. A comida de verdade tem baixo teor de açúcar e alto teor de fibras. A comida processada tem alto teor de açúcar e baixo teor de fibras.

"As pessoas ouviram a vida inteira que alimentos processados são comida. Mas não são. Os alimentos processados são o que nos levou a esta situação péssima."

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Em vez de alimentos processados, opte por alimentos integrais, amidos de boa qualidade, proteína magra, gorduras boas. Elimine o açúcar e os alimentos processados. Nas palavras de Lustig: "Chama-se 'comida de verdade'".

E, graças às fibras existentes nas frutas, nos vegetais e nos carboidratos complexos não processados, uma caloria não é uma caloria se vem acompanhada de fibra.

"Procuramos explicar que as calorias não são o problema. A razão principal é porque, se você consome alimentos com fibras, mesmo que tenha consumido as calorias você não as absorveu. Então a massa consumida é irrelevante, porque ela não ficou com você (ficou com as bactérias intestinais)", disse Lustig.

"É por isso que contar calorias não funciona para perder peso e ganhar saúde. É por isso que temos 40 anos de fracassos no combate à obesidade em todo o mundo. Se você pensa que as calorias são parte do problema, então você é parte do problema."

O novo livro de Robert Lustig, The Hacking of the American Mind, será lançado este ano e vendido pela Amazon.

*Dados acima são referentes à realidade australiana.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Australia e traduzido do inglês.

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