POLÍTICA

Carmen Lúcia sobre ser mulher no STF: 'Não nos deixam falar, então nós não somos interrompidas'

A fala da presidente do STF ocorreu após uma sequência de diálogos entre os ministros Luiz Fux, Ricardo Lewandowski e Rosa Weber.

11/05/2017 18:52 -03 | Atualizado 12/05/2017 11:05 -03
ANDRESSA ANHOLETE via Getty Images
A carreira da ministra nascida em Montes Claros (MG) foi construída com uma firme postura de gênero.

"Não nos deixam falar, então nós não somos interrompidas"

A regra básica de um debate é não interromper o adversário. Mas se você é uma mulher, esta regra é comumente desrespeitada em diversas esferas da sociedade. E a frase acima da presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, mostra esta realidade.

Em sessão na última quarta-feira (10), Cármen voltou a trazer a questão de gênero -- e marcar as diferenças entre homens e mulheres no sistema Judiciário brasileiro como um todo.

Após uma sequência de diálogos entre os ministros Luiz Fux e Ricardo Lewandowski, a ministra questionou o fato de Fux, ao finalizar seu posicionamento, dizer que ele iria "conceder a palavra para o voto integral (risos)", se referindo à ministra Rosa Weber. Porém, o momento de fala já era da ministra Rosa Weber e nada precisava ser "concedido" a ela.

O diálogo que contém a fala de Cármen foi transcrito pelo JOTA:

Cármen Lúcia: Ministra Rosa Weber, Vossa Excelência tem a palavra para voto.

Rosa: Ministro Lewandowski, o ministro Fux é quem tinha me concedido um aparte.

Cármen: Agora é o momento do voto...

Luiz Fux: Concedo a palavra para o voto integral (risos).

Cármen: Como concede a palavra? É a vez dela votar.

Ela é quem concede, se quiser, um aparte.

Foi feita agora uma análise, só um parêntese. Foi feita agora uma pesquisa, já dei ciência à ministra Rosa, em todos os tribunais constitucionais onde há mulheres, o número de vezes em que as mulheres são aparteadas é 18 vezes maior do que entre os ministros... E a ministra Sotomayor [da Suprema Corte americana] me perguntou: como é lá?

Lá, em geral, eu e a ministra Rosa, não nos deixam falar, então nós não somos interrompidas.

Mas agora é a vez de a ministra, por direito constitucional, votar. Tem a palavra, ministra.

Assista ao vídeo do momento aqui:

Segundo coluna da jornalista Letícia Sorg, no Estadão, a pesquisa que a ministra cita em sua fala foi feita por Tonja Jacobi e Dylan Schweers, da Escola de Direito Northwestern Pritzker School of Law, de Illinois, em Chicago, nos Estados Unidos e descobriu o efeito do gênero, da ideologia e da idade nos debates dentro da Suprema Corte americana.

E o padrão descoberto foi: as mulheres são interrompidas, em média, três vezes mais que os homens, embora elas falem com menos frequência e por menos tempo do que eles. Para chegar a este resultado os pesquisadores analisaram discussões no Supremo norte-americano desde 1990.

Uma parte da pesquisa diz que:

"Usando uma variedade de técnicas, nós constatamos que, apesar de as ministras falarem menos e usarem menos palavras do que os ministros, elas são interrompidas durante a fase de sustentação oral de forma significativamente maior. Homens interrompem mais do que mulheres e eles interrompem particularmente mulheres mais do que interrompem os homens"

Outro ponto da pesquisa ainda ressalta que a ministra Sonia Sotomayor (citada por Cármen Lúcia), foi interrompida 15 vezes por Anthony Kennedy, 14 vezes por Samuel Alito e 12 vezes por John Roberts, ambos colegas do Judiciário norte-americano.

Em contrapartida, ainda no contexto norte-americano, apenas dois dos homens do Supremo foram interrompidos mais de dez vezes; e o maior número de interrupções feito por mulheres chegou a sete.

Os pesquisadores descobriram também que isso não era simplesmente uma questão ligada à idade, por exemplo, considerando que Sotomayor é um dos membros mais graduados e sêniores da Suprema Corte.

A pesquisa determina que o gênero é "aproximadamente 30 vezes mais influente do que a idade" quando se trata de interrupções.

O estudo completo pode ser lido na íntegra, em inglês, clicando aqui.

Cármen Lúcia é uma entusiasta da luta em defesa das mulheres. No Dia Internacional da Mulher deste ano, a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) trouxe o debate de gênero outra vez, ao ser parabenizada pela data.

"Vossa Excelência vê como é a vida... Nós (mulheres) temos um dia, Vossa Excelência tem todos os outros. Olha o princípio da igualdade...", afirmou em resposta ao ministro Luís Roberto Barroso.

Em maio de 2016, quando foi noticiado o caso de estupro coletivo no Rio de Janeiro, Cármen Lúcia emitiu um posicionamento forte: "É inadmissível, inaceitável e insuportável ter de conviver sequer com a ideia de violência contra a mulher".

E a diferença entre homens e mulheres sempre deixou a ministra intrigada. "Estou com 60 anos e tenho que trabalhar duas vezes pra chegar ao mesmo lugar dos homens. Mas eu não reclamo porque eu quero que quem vier depois de mim tenha certeza de que trabalhei sim e com muito gosto porque sou de um país em que posso escolher a minha profissão, e tive a oportunidade de ser juíza constitucional porque trabalho com todo o gosto", disse, segundo o JOTA.

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