POLÍTICA

'É imperdoável o processo de perseguição', diz Lula a Moro

Em depoimento a Moro, ex-presidente negou intenção de comprar triplex no Guarujá e disse que não sabia que dona Marisa tinha visitado o imóvel.

10/05/2017 20:50 -03 | Atualizado 10/05/2017 21:06 -03
Montagem / Reuters / Alep
Ex-presidente Lula presta depoimento a juiz Sérgio Moro.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o final do depoimento ao juiz Sérgio Moro, em Curitiba (PR), para dizer que está sendo vítima de perseguição política e que as acusações contra ele são meras ilações. Ou seja, declarações sem provas. "É imperdoável o processo de perseguição", afirmou.

O petista é réu em cinco processos. Na tarde desta quarta-feira (10) ele foi ouvido no caso que investiga recebimento de propina no caso que envolve a compra do tríplex de quase R$ 4 milhões no Guarujá (SP). O depoimento durou cinco horas.

Estou sendo vítima da maior caçada jurídica que um presidente ou político brasileiro já teve (...) O objetivo é tentar massacrar esse cidadão. Ele tem que pagar o preço por existir. Esse cidadão cometeu o erro de provar que esse país pode dar certo.


Lula disse que assumiu o Palácio do Planalto com a economia mal e que tem orgulho de ter feito a Petrobras crescer. Disse ainda que deu dignidade ao Brasil ao fortalecer instituições como o Ministério Público Federal.

Quando fui eleito em 2003 tinha compromisso de fé e consciência de que não podia errar. Se eu errasse, a classe trabalhadora nunca mais iria eleger alguém do andar de baixo. Presidência da República não foi feita para metalúrgico, para quem não tinha diploma universitário.

O magistrado interrompeu o discurso para dizer quer as declarações finais não devem servir para propósitos políticos, mas Lula continuou. "Estou sendo julgado pelo que fiz no governo", argumentou.

O ex-presidente fez duras críticas à cobertura da imprensa sobre as investigações em que é citado. Reclamou do vazamento de informações e disse não haver equilíbrio no tratamento dado a ele e a outros investigados na Lava Jato. "A imprensa é o principal julgador", afirmou.

Na medida que foi feito acordo de que não é possível na Lava Jato condenar pessoas, políticos importantes ou pessoas ricas, sem o apoio da imprensa, se adotou a política de primeiro a imprensa criminalizar.

Moro rebateu.

A imprensa não tem qualquer papel nesse processo. Ele vai ser julgado com base na Lei e exclusivamente nas provas. O senhor foi chamado nesse processo e tratado - desculpe se não pareceu em algum momento - com o máximo respeito.

Após o ex-presidente dizer para ele se preparar para crítica "se tiverem sinais de que eu serei absolvido", o juiz disse que já é alvo de ataques. "Infelizmente já sou atacado por bastante gente, inclusive por blogs que supostamente patrocionam o senhor, então padeço dos mesmos males, em certa medida", afirmou.

Sobre as acusações, o petista negou irregularidades e cobrou a apresentação de provas que comprovem que ele comprou o triplex. "Quero que parem com ilações e digam qual crime cometi. O crime não é conversar com alguém na agenda", afirmou.

Lula disse que nunca teve intenção de adquirir o imóvel e que não orientou qualquer reforma. Ele confirmou, contudo, que visitou o local porque a OAS pretendia vendê-lo para sua família. Também negou saber da visita de sua esposa, Marisa Letícia, ao local. "Eu não sabia que tinha tido visita. Não sei se o senhor tem mulher, mas nem sempre ela pergunta para a gente o que vai fazer."

Moro lembrou que, no caso do apartamento, a acusação do Ministério Público é que corrupção e lavagem de dinheiro, crime que envolve justamente ocultação de patrimônio. O juiz disse ainda que não há vazamento porque a ação é pública.

O depoimento ocorreu sob forte esquema de segurança.Manifestantes favoráveis e políticos aliados acompanharam Lula até o prédio, incluindo a ex-presidenta Dilma Rousseff.

Acusação

De acordo com depoimento de executivos da OAS, o apartamento é resultado de pagamentos de propina por contratos da Petrobras com a empreiteira. Os delatores dizem que o apartamento sempre pertenceu a empresa.

A justificativa de que o imóvel pertence a empresa é usado pelos advogados de Lula como forma para refutar a tese de recebimento de propina.

Investigadores da Lava Jato também apontam um sítio em Atibaia (SP) como outro bem do presidente originário de recursos desviados.

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