MULHERES

Em 'Rock Story' e 'A Força do Querer', mulheres vão denunciar falsas violências de seus companheiros

As cenas da Globo vão ao ar poucas semanas após os casos de Zé Mayer e Marcos, ex-BBB.

10/05/2017 16:34 -03 | Atualizado 10/05/2017 17:22 -03

Duas novelas da Rede Globo terão o mesmo drama em seu roteiro: cenas de mulheres que acusam falsamente homens de agressão.

De acordo com a coluna de Mauricio Stycer, Rock Story e A Força do Querer vão exibir nos próximos capítulos as situações.

Na primeira novela, Mariane (Ana Cecília Costa) vai acusar Gui (Vladimir Brichta) de falsa violência, influenciada pela ideia de Lázaro (João Vicente de Castro).

Divulgação/TV Globo

Já na segunda produção, Cibele (Bruna Linzmeyer) vai ter uma discussão com Ruy (Fiuk), durante a qual ele a segurará pelo braço.

Divulgação/Tv Globo

A personagem, então, irá denunciá-lo na delegacia sob o argumento de que a agressão é recorrente. Ela relatará: "Me agrediu, quase quebrou meu braço, torceu meu braço, até arrebentou minha pulseira! Estou com o ombro todo doído, de quando ele me empurrou, me imprensou na parede".

Nas duas novelas, Gui e Ruy são ex-namorados das personagens.

A trama de Rock Story e A Força do Querer pode reforçar a ideia de que as meninas não superaram o fim do relacionamento e por isso inventam mentiras sobre os exs-companheiros.

Tal ideia, contudo, não é a única que está implícita nas dramaturgias da Globo quando lidas de modo superficial. Elas também podem ser vistas como as loucas, exageradas, vingativas e até mesmo carentes por atenção.

Por trás de cada indíviduo há nuances. O fato de serem mulheres não torna impossível que as personagens sejam, realmente, mentirosas. Ou qualquer um destes adjetivos.

Mas o que deverá ser retratado na Globo sai da esfera individual para tocar em um problema que é estrutural. E que arduamente vem sido posto no debate público.

As cenas da Globo vão ao ar poucas semanas após de, pelo menos, duas grandes movimentações terem chamado atenção do público sobre a violência de gênero no País.

Nos casos, os protagonistas eram o ator Zé Mayer, que gerou comoção das próprias globais na campanha #MexeuComUmaMexeuComTodas e da direção da Rede Globo, que decidiu afastá-lo de produções; e o ex-BBB Marcos, acusado de violência física e psicológica ao viver em tempo real um relacionamento abusivo com a outra participante do reality, a Emily.

Mas maior que estes homens foram as mulheres que se expuseram, como a figurinista Su Tonani, para falar de um problema que não é individual, mas coletivo.

O feminicídio é o assassinato de uma mulher pela simples condição de ser mulher. O crime é motivado pelo ódio e, principalmente, pelo sentimento de perda de controle e da propriedade sob as mulheres, relata o dossiê da Agência Patrícia Galvão.

O Brasil ocupa o 5º lugar entre os países que mais matam mulheres no mundo. Grande parte desses crimes são cometidos por conhecidos das vítimas. Em geral, homens próximos à elas. São seus familiares.

O dossiê demonstra ainda que o feminicídio acontece, em sua maioria, em casos de violência doméstica. Em 50,3% dos casos levantados pelo último Mapa da Violência o assassino era um parente da vítima, e em 33,2% destes casos ele era seu parceiro ou ex.

Ao ouvir as mulheres, o Mapa da Violência constatou que 85% das brasileiras têm medo de serem agredidas fisica e sexualmente. Enquanto que 3 em cada 5 jovens já sofreram violência em relacionamentos.

De acordo com os dados do 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a cada 11 minutos 1 mulher é estuprada no Brasil. São 130 mulheres violentadas todos os dias.

Outro desafio é também subnotificação.

O medo de expor violências, o temor por represálias ou simplesmente a descrença e a culpabilização da vítima faz com que, todos os dias, mulheres permaneçam em silêncio. Apenas 35% dos casos de estupro são notificados no Brasil.

Para muitas mulheres é díficil falar sobre o que causa dor e, muitas vezes, vergonha. Quem consegue chegar até a delegacia, ainda se depara com o despreparo dos profissionais para receber este tipo de vítima, além de faltar informação sobre os procedimentos de coleta das provas e do exame de corpo de delito.

Investigando as causas deste cenário, o Mapa trouxe outro ingrediente para este panorama: 37% dos homens e mulheres entrevistados concordaram que "mulheres que se dão ao respeito não são estupradas".

Tonani expôs a sua dor e toda a sua coragem ao falar abertamente sobre o assédio vivido por ela. E além dela, representou outras tantas mulheres brasileiras.

É preciso respeitar estas histórias.

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