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Universidades brasileiras incluem livro de Carolina de Jesus na lista de leituras obrigatórias

'Quarto de Despejo' está na lista dos vestibulares da Unicamp e UFRGS.

08/05/2017 13:38 -03 | Atualizado 10/05/2017 11:41 -03

A principal obra de Carolina Maria de Jesus (1914-1977) estará presente nos vestibulares de duas grandes instituições de ensino superior do Brasil.

Quarto de Despejo – Diário de Um Favelada foi inserido na lista obrigatória de leituras tanto da Universidade Federal do Rio Grande do SUL (UFRGS) quanto da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Carolina de Jesus é considerada uma das maiores escritoras negras da literatura nacional. Nascida na cidade mineira de Sacramento, ela se mudou para a favela do Canindé, zona norte de São Paulo.

Lá, ela trabalhou como catadora para sustentar os três filhos e registrou o cotidiano de fome e pobreza em cadernos encontrados no lixo. No final da década de 1950 foram encontrados mais de 20 diários da escritora.

Um desses cadernos deu origem ao livro Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, que foi recusado por diferentes editoras antes de ser finalmente publicado em 1960.

O relato cru e em primeira pessoa da escritora semi-alfabetizada repercutiu na imprensa e - após seu lançamento - ganhou mais mais três novas edições, sendo traduzido para 14 idiomas e vendido em mais de 40 países.

A inclusão da obra nos vestibulares de 2019, ao lado de clássicos da literatura brasileira, aponta para uma preocupação em se discutir questões que marcaram a história e seguem em debate do Brasil - como desigualdade social e temas de cunho racial.

Ao G1, o professor de literatura Octávio da Matta explica:

"A Unicamp e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul estão convidando o estudante para uma reflexão. Carolina faz um relato autobiográfico, mas ainda hoje pode ser considerado atemporal por apresentar questionamentos sobre a violência, problema do alcoolismo e violência doméstica, a preocupação em conseguir sustentar os filhos e a revolta por não ter o que comer."

Em coluna na Carta Capital, a escritora Aline Valek dá informações complementares sobre a obra:

"O quarto de despejo surge como uma metáfora para a desigualdade que estabelece seu papel e sua posição nessa história: ela aponta que, enquanto o centro da cidade é a sala de visitas, a favela é o quarto onde se joga o indesejável, o entulho, tudo aquilo que se quer esconder. Sua escrita, no entanto, é sua forma de se recusar a ser 'despejo', a ser 'resto'."

Apesar do forte significado da obra no Brasil, encontrá-lo nas livrarias não é tarefa fácil.

Divulgação

Essa situação tende a mudar em breve. Em nota ao G1, a Editora Ática, que detém os direitos da publicação, informou que recebeu uma nova reimpressão do livro em abril. Quarto de Despejo, que já está em sua 10ª edição, pode ser adquirido na loja online da editora.

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