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Sonhando com o impeachment de Trump? Tenha cuidado com seus desejos

Mesmo o autor de “The Case For Impeachment” espera que a situação não chegue a isso.

08/05/2017 19:36 -03 | Atualizado 08/05/2017 19:36 -03

A tradição manda que o centésimo dia de um presidente em seu cargo deve dar início a um período de avaliação e reflexão. Agora é a hora do presidente Donald Trump enfrentar este momento tão importante.

Sejamos honestos: essas avaliações dos 100 primeiros dias podem parecer tremendamente prematuras. Grandes projetos legislativos podem levar muito tempo para tomar forma, e sua implementação costuma levar ainda mais tempo. E os momentos que verdadeiramente definem uma presidência podem acontecer a qualquer hora. A impressão que se tem é que essa rubrica de "Primeiros 100 Dias" virou uma espécie de chavão da mídia. E, pelo modo como os ocupantes da Casa Branca de Trump vêm reagindo com ondas de declarações públicas contraditórias, percebe-se que eles, em algum nível, concordam.

Alguma coisa nesse marco dos 100 dias deixou Trump abalado, louco para conseguir algum grande trunfo ou feito dentro desse período. É possível que qualquer relato de como as coisas vêm se saindo para a novata administração Trump seja o bastante para provocar consternação.

Mas isso encerra uma lição também para os críticos e adversários de Trump nos 100 primeiros dias de sua presidência. A lição é a seguinte: provavelmente haverá mais vários períodos de 100 dias da presidência de Trump.

Se o artigo patribótico mais recente de Louise Mensch tiver razão, Donald Trump já é carta fora do baralho.

A razão porque digo isso é que entre os críticos mais ardorosos de Trump com quem eu topo regularmente em viagens pelas redes sociais e na vida real, vê-se a impressão ampla de que uma solução rápida para o problema de Trump estaria iminente. As pessoas parecem achar que a queda de Donald é inevitável, mesmo que não imediata.

Quando a presidência de Trump vai acabar? Como isso vai acontecer? Essas são outras perguntas que me são feitas. O mais provável é que ela termine com outra eleição. Se acontecer de modo precoce, porém, será fruto de alguma coisa ruim, e esse trauma provavelmente desencadeará mais trauma.

As presidências que terminam abruptamente não terminam de modo limpo, por definição. Não apertamos o botão de resetar, começamos de novo com a tela em branco e saímos dessa sem prejuízos. Após o final desonroso da administração de Richard Nixon, seu sucessor, o presidente Gerald Ford, tentou imprimir uma reviravolta rápida à situação política, iniciando seu mandato com uma frase ritual: "Meus concidadãos americanos, nosso longo pesadelo nacional chegou ao fim". Mas, se você olhar para nossa história desde o final da Guerra do Vietnã e a presidência Nixon, parece que aquele período de mal-estar nunca terminou de fato. Nas décadas transcorridas desde então, o que nos definiu foram mais nossas crises de fé que nossas conquistas. Perdeu-se muita da confiança nas instituições importantes.

Depois de renunciar à presidência, Richard M. Nixon faz o V da vitória ao embarcar em seu helicóptero Marine One pela última vez no gramado da Casa Branca. 9 de agosto de 1974.

A coisa mais difícil que temos que encarar no momento é a verdade de que a presidência de Donald Trump não é um fenômeno excepcional que surgiu do nada para nos dar um susto inesperado. Na realidade, é a consequência natural de décadas de escolhas que fizemos juntos.

Isso não significa, é claro que Trump seja mais vítima do que pecador. Dada sua natureza turbulenta, seu ego maníaco e seu histórico de corrupção, sua presidência só pode ser um período que provoca alta ansiedade em nós. Pela minha estimativa, existe uma probabilidade acima da média de que Trump se envolva em algum ato ilegítimo grave – na realidade, talvez esteja envolvido em alguma iniquidade desse tipo agora mesmo.

Não estou de maneira alguma defendendo que devemos desistir de buscar a verdade e a justiça ou deixar de investigar as evidências, onde quer que elas nos levem. Estou apenas lembrando que a solução para este momento em particular não está logo atrás do próximo horizonte. E quero lembrar que, caso Trump seja afastado da presidência, isso provavelmente será fruto de alguma espécie de acontecimento traumático. Portanto, se você estiver em casa, fazendo figas para que tudo isto termine no futuro próximo, pense bem o que está desejando quando sonha com uma solução rápida e fácil.

Cem dias depois de iniciada sua presidência, o impeachment de Trump já é um produto vendido como tal. E The Case For Impeachment (O argumento em favor do impeachment) já é o título de um livro do professor de história Allan J. Lichtman, da American University. Talvez você se recorde de Lichtman – ele foi uma das poucas pessoas durante o ciclo eleitoral de 2016 a prever que Trump estava destinado a vencer, usando o que ele descreve como "o mesmo método comprovado que o levou a prever com precisão os resultados de oito eleições anteriores". Desta vez, o próprio Lichtman se surpreendeu ao acertar novamente em sua previsão.

Trump tomou nota. Depois da eleição, enviou uma mensagem breve de felicitações a Lichtman: "Professor – parabéns – bom palpite". Lichtman escreve: "Mas Trump passou por cima da minha 'grande previsão' seguinte: que, depois de conquistar a presidência, ele seria 'impichado'." Vale observar que Lichtman não baseou sua previsão em algum modelo estatístico testado. Ele admite que fez previsões intuitivas, baseadas no comportamento e no histórico passado de Trump, além dos fatos históricos relativos a presidências passadas que naufragaram. Às vezes vamos longe demais quando historiadores tentar ser analistas ases.

Se você espera que o texto de Lichtman ofereça o que o título de seu livro deixa entender – um argumento legal simples e pronto contra a continuidade de Trump na presidência, algo que possa ser apresentado na justiça e argumentado --, você vai se decepcionar. Lichtman explica habilmente o mecanismo do impeachment, descreve presidências passadas que fomentaram crises e até faz um esboço de maneiras para armar "armadilhas de impeachment". Mas boa parte de seu livro simples repisa coisas que já sabemos a respeito de Trump: seus negócios escusos, suas maracutaias diversas, seus conflitos de interesse, suas mentiras e o modo indigno como ele trata as mulheres.

O presidente Bill Clinton se prepara para ler uma declaração na Casa Branca depois de o Senado ter votado por sua absolvição, em 12 de fevereiro de 1999. Clinton pediu desculpas por seus atos que levaram ao processo de impeachment.

Lichtman tem razão quando observa que os erros do passado podem adquirir relevância para processos de impeachment. Em um sentido técnico, podem até servir para incentivar um impeachment. Mas é difícil imaginar que as transgressões passadas de Trump, que já foram totalmente digeridas pelo público nos anos passados desde então, vão motivar o Congresso a tentar afastá-lo do poder em algum momento do futuro.

Mesmo assim, existem algumas áreas, muito habilmente identificadas por Lichtman, que têm o potencial de fazer Trump perder o controle da presidência. Uma delas tem a ver com seus negócios, um terreno fértil para toda espécie de corrupção. Seus bens nos Estados Unidos geram receios consideráveis de conflitos de interesse e a possibilidade de ele se guiar mais pelo que é bom para seus próprios negócios que pelas preocupações do povo americano.

Fora do país, seus negócios e bens internacionais geram o receio de que ele seja suscetível a esforços para lhe fazer favores e que dará tratamento especial a figuras do exterior que concordem em engordar sua conta bancária. Esta semana mesmo foi anunciado que o Departamento de Estado estava promovendo o clube Mar-a-Lago, pertencente a Trump. A iniciativa arrancou críticas imediatas de defensores da ética, devido à potencial violação da cláusula de emolumentos da Constituição. (O Departamento de Estado mais tarde deletou essas promoções.)

Esse é o tipo de situação confusa que os fundadores dos EUA fizeram questão de tentar evitar e que pode dar motivo a um processo de impeachment. Mas, embora haja um processo judicial por emolumentos abrindo caminho pelo sistema legal no momento, é preciso lembrar que o defensor mais eficaz do interesse público, no que diz respeito a conflitos de interesse, é o Congresso, e que os republicanos, que controlam as duas câmaras do Congresso, optaram por fazer vista grossa para o problema.

Se em algum momento os democratas reconquistarem a maioria em uma ou ambas as câmaras do Congresso, a fiscalização pode se intensificar consideravelmente. Mas, seja como for, não estamos assistindo a algo que possa levar Trump a ser afastado da presidência no futuro próximo. E, embora a administração Trump tenha chamado muita atenção pública ao Escritório de Ética do Governo (OGE), e até ter conquistado alguma aprovação pública para a agência, ela não existe para criar armadilhas de impeachment. Se o OGE conseguir seu intento, os críticos de Trump não poderão sequer apresentar argumentos contra ele baseados em seus negócios, porque ele estará obedecendo aos critérios do OGE.

A outra área de vulnerabilidade de Trump é a investigação em curso sobre possível ingerência russa na eleição de 2016 e o grau de envolvimento de Trump e seu círculo nesse alegado complô. Este caso, em especial, possui todos os elementos necessários de alta tensão, sem falar no frisson de possível traição à pátria. Mas, novamente, nada até agora já chegou ao ponto de indicar que alguém esteja prestes a ser preso. Também essa questão vai levar tempo para ser resolvida. E, embora novas especulações sobre o caso parecem ser geradas de hora em hora, dependendo de quem você segue no Twitter, esse tipo de argumento pode ser difícil de sustentar.

No final, é possível que este caso sórdido todo acabe sem que seja possível comprovar uma acusação contra Trump e pessoas ligadas a ele. Pode até acabar com eles sendo absolvidos. Estes são resultados que você deve preparar-se intelectual e emocionalmente para aceitar. Esperemos, contudo, que o resultado, seja ele qual for, seja fruto de uma investigação abrangente, profissional e fidedigna.

Além disso, você quereria realmente que a Casa Branca tivesse sido comprometida pelo Estado russo? Preferiria que corrupção maciça corresse solta ao nível executivo? Lembre-se que, embora qualquer dessas coisas possa encurtar a presidência de Trump, elas não são positivas para o resto de nós.

E o que dizer de outros tipos de coisas que podem pôr fim repentino a uma presidência? A maioria delas envolve algum evento que provoca danos, feridos ou desastre em grande escala. Precisamos encarar essa realidade sem pestanejar. Se você está torcendo para que o mandato presidencial de Trump acabe em pouco tempo, saiba que também está torcendo para que ocorra algo que provavelmente causará angústia a boa parte de seus concidadãos americanos.

Com expressão sombria, o presidente Jimmy Carter, no Salão Oval, fala sobre o esforço fracassado de resgatar 53 reféns americanos do Irã, em 25 de abril de 1980.

Tem que haver uma "manhã seguinte". Se Trump tombar devido a descobertas da comunidade de inteligência, corrupção ou algum acontecimento destrutivo, ainda assim vamos ter que enfrentar o que virá depois. Nesse sentido, um impeachment não é necessariamente uma "solução pacífica", de maneira alguma. Seria mais uma crise de confiança em tempos de divisão, semeando tensão e divergências que seriam difíceis de acalmar.

Precisamos buscar a verdade, defender objetivos justos e castigar os que cometem delitos, mas não devemos ficar acordos à noite torcendo para que alguém cometa um delito apenas porque isso poderia facilitar os resultados eleitorais que seriam de nossa preferência.

Assim, é revelador que, no penúltimo capítulo de The Case For Impeachment, Lichtman não torce por um impeachment. Em vez disso, dirigindo-se diretamente a Trump, ele exorta o presidente a mudar sua conduta, seguindo "um plano de ação para sobreviver como presidente". Lichtman aconselha Trump a se desfazer de seus bens, adotar políticas mais progressistas, alcançar um nível maior de generosidade e benevolência em seu temperamento, suspender sua abordagem autocrática e parar de mentir para safar-se de problemas.

A última advertência que ele faz a Trump:

Tenho um último conselho a lhe dar para concluir, sr. Presidente, resumido em uma palavra: legado. É fácil deixar-se envolver pela adulação e o entusiasmo das multidões. Mas não é possível construir um legado feito de comícios e tuites. São necessárias realizações sólidas que tornem a América grande e segura e que garantam sua reeleição em 2020.

Sobretudo, o senhor não pode dar-se ao luxo de se enredar em uma investigação de impeachment, como aquela que consumiu os dois últimos anos da presidência Clinton. Falando francamente, os critérios foram reduzidos a tal ponto para o senhor que mesmo as mudanças pequenas que sugeri aqui desarmariam seus críticos o suficiente e abririam seu caminho para uma presidência bem-sucedida. O senhor é capaz de fazê-lo.

É demais para pedir? Possivelmente. Provavelmente. Mas é um momento bastante otimista para figurar no final de um livro intitulado "Um argumento em favor do impeachment". E mostra que Lichtman não está, na realidade, torcendo para algum trauma que ponha fim à presidência de Trump, apesar da longa lista de erros passados do presidente que ele apresenta nos capítulos anteriores. Na verdade, o livro não traz um argumento em favor do impeachment, mas em favor de Trump realizar a auto-reflexão necessária para exercer uma presidência eficaz, respeitável e responsável. Isso é algo que ainda pode ser conseguido, desde que Trump se conscientize de seus erros e aproveite este momento ao máximo.

E isso tudo encerra uma lição também para os críticos e adversários de Trump. Para a geração das ideias ousadas, o momento atual é de avaliar e analisar os fatos e priorizar nossos concidadãos em nossos pensamentos. Sem falar em militar incansavelmente. Também para esse grupo, este é um momento de trabalhar para deixar um legado para o futuro.

Já li muitas "autópsias" de partidos políticos, em que um partido que perde uma eleição procura avaliar o que deu errado. Honestamente, essas análises nunca acabam conduzindo a mudanças reais. Em vez disso, levam a chamados para que se façam todas as mesmas coisas de antes, só que com marketing melhor. Os democratas, em especial, já recorreram muitas vezes ao argumento de que "nossos adversários endoidaram", mas o resultado é que se depararam com a lei dos retornos minguantes. Todo o mundo procura atalhos em lugar de fazer autoavaliações honestas, e os atalhos não levam a lugar algum.

Se o mandato de Trump acabar antes da hora devido a erros dele, que isso seja o resultado de a justiça ter sido feita da maneira mais clara e transparente possível. Enquanto isso, todo o mundo faria bem em passar menos tempo torcendo por uma solução imediata. Não existem soluções imediatas.

Na realidade, pode-se argumentar que foi a busca por uma solução imediata que nos levou a onde estamos agora, em primeiro lugar. Para quem espera um dia tomar o lugar de Trump, a verdadeira lição dos "100 dias" é que o primeiro partido ou movimento político que fizer uma autoavaliação honesta, gere novas ideias e rejeite a tentação das respostas fáceis provavelmente será o próximo a construir alguma coisa duradoura. E, se o tempo de Trump na presidência terminar de modo desonroso, esse partido ou movimento estará mais bem posicionado para ajudar o país a sanar seus males. É isso o que é necessário para acabar com um pesadelo, se não uma presidência.

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Jason Linkins edita o "Eat The Press" para o HuffPost US e é co-apresentador do podcast do HuffPost Politics "So, That Happened".

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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