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Para Pepe Mujica, a política 'está doente do mesmo jeito que a sociedade'

Ex-presidente do Uruguai participou do programa "Conversa com Bial".

07/05/2017 18:10 -03 | Atualizado 07/05/2017 18:12 -03
Divulgação/TVGLobo
Pepe Mujica em entrevista para Pedro Bial.

"A política está doente do mesmo jeito que a sociedade. Se você se ilude achando que vai enriquecer na vida e isso se transforma também para a política, estamos fritos."

A frase acima é do ex-presidente do Uruguai, José "Pepe" Mujica, de 81 anos. Recentemente, em entrevista ao programa Conversa com Bial, da Rede Globo, ele falou sobre seu papel como presidente, sobre política e consumismo.

O jornalista Pedro Bial viajou ao Uruguai para uma entrevista exclusiva com Mujica e foi recebido por ele em seu rancho -- durante a conversa, o apresentador se viu frente a um filósofo e não com um político.
Sentado em um banco de madeira e cercado por plantas e árvores, o ex-presidente afirmou que não pensa mais em se candidatar, mas que se fizesse isso, certamente, levaria a eleição. "Mas serei militante até o caixão, se puder", disse.
Veja as frases mais marcantes da entrevista de Mujica a Bial:
"Há outra coisa mais bonita que o consumo: o tempo com os filhos, os afetos. Ter tempo para cultivar os afetos, que é o único que levamos. Se sou uma máquina de trabalhar, consumir e pagar contas, quando acordo, vou me dar conta: foi nisso que me transformei? Não há supermercado de vida."

"Podemos ser felizes com pouco. Não faço apologia da pobreza. O que faço é a apologia da sobriedade. Aprender a viver sem ser escravo, sobretudo na política."

"Tem que ter interesse de carinho humano, de reconhecimento humano. A política não pode ser instrumento para comprar riqueza. E tem que ser um instrumento para costurar o amor social."

"O socialismo, até agora, foi ineficiente. E o capitalismo é extremamente egoísta."

"Não enlouqueci porque já era louco".
No palco do programa, a entrevista foi comentada pela correspondente internacional do Estadão, Adriana Carranca, e também pelo músico Vitor Ramil, que já morou em Montevidéu.
"O que é bacana do Mujica é que esse poder que todos os líderes buscam, ele rechaça. É bacana que ele tem essa voz tão conciliadora, que em alguns momentos a gente vai precisar de políticas da direita, políticas da esquerda para chegar em um fim, no bem comum", disse Adriana Carranca.
Você pode assistir o programa aqui.

A simplicidade de Mujica

Andres Stapff / Reuters

O presidente uruguaio, José "Pepe" Mujica, tornou-se uma celebridade instantânea em 2012, depois que a BBC publicou uma matéria especial documentando seu estilo de vida austero e detalhando seu passado. Ele é um ex-combatente da guerrilha que passou 14 anos na prisão -- mais de dez deles em confinamento solitário e dois no fundo de um buraco --, mais tarde Mujica repudiou a violência e tornou-se um político bem sucedido da Frente Ampla, de esquerda.

Mujica entregou a presidência ao seu antecessor, Tabaré Vázquez. Á época, ele se elegeu com 52,8% dos votos frente a 40,5% de seu adversário conservador, Luis Lacalle Pou. Vázquez já foi presidente do Uruguai entre 2005 e 2010, mas ganhou a (difícil) missão de substituir um líder carismático e excêntrico.

A presença internacional de Mujica se solidificou em 2013, quando ele ficou famoso por legalizar a maconha no País e tornou o Uruguai o primeiro País da América Latina a fazer isso. Foi também um esforço pioneiro para refrear o poder dos traficantes de drogas e promover a transição para o tratamento da dependência de drogas como questão de saúde pública, não criminal.

Mujica conquistou parte do mundo graças em parte ao fato de levar uma vida simples e usar aforismos populares em um mundo onde os políticos importantes têm estilos de vida mais luxuosos do que a maioria das pessoas pode imaginar.

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