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A adoção é uma questão feminista, mas não pelas razões que você pensa

“A adoção é um negócio complexo de bilhões de dólares que, muitas vezes, aumenta a desigualdade", diz Liz Latty sobre a realidade dos Estados Unidos.

05/05/2017 20:57 -03 | Atualizado 05/05/2017 20:57 -03
The Establishment

Este artigo de Liz Latty foi publicado originalmente no The Establishment, um site multimídia independente fundado e dirigido por mulheres nos Estados Unidos.

Em seus esforços para curar o que consideram uma crise moral que infecta nosso país, o movimento antiaborto tem historicamente investido seu poder, dinheiro e influência em dois de seus antídotos favoritos para o aborto: educação sexual focada na abstinência e adoção.

Em qualquer época em que os direitos reprodutivos sofram um retrocesso, como é o caso atual, as feministas precisam se fortalecer e se esclarecer sobre nosso posicionamento e sobre o que estamos lutando.

Todos sabemos, tanto a partir de dados como do bom senso, que a educação para a abstinência não só é um fracasso como também é extremamente prejudicial à saúde e segurança dos jovens. Mas parece não haver um entendimento mais amplo, mesmo no feminismo mainstream e movimentos pró-aborto, de que promover a adoção também tem seus problemas.

O feminismo mainstream — o feminismo feito por e para a classe média e média alta de mulheres brancas — tem historicamente apoiado a adoção. As feministas têm apoiado os direitos de pessoas solteiras e famílias com casais de mesmo sexo à adoção, os direitos de famílias adotadas em adoções questionadas e políticas destinadas a acelerar a ida de crianças para lares adotivos. O que está faltando para o feminismo mainstream é um apoio explícito às famílias de origem: os pais que têm de perder seus filhos, as famílias que precisam ser desmanteladas para que as famílias adotivas sejam construídas.

Quando era criança, meus pais sempre me diziam o quão corajosa e inteligente era minha mãe biológica. O quanto ela me amava ao ponto de tomar a altruística decisão de me doar, porque queria que eu tivesse uma vida melhor — porque, como uma garota de 17 anos, solteira, no último ano do colegial, ela sabia que não poderia ser uma boa mãe para mim. Ela tinha feito essa escolha, disseram, de maneira abnegada e gentil, com o apoio de todos à sua volta, para que eu pudesse ter a vida que eu realmente merecia. Meus pais não inventaram essa linguagem, claro; ela foi fornecida a eles por profissionais de adoção, livros sobre adoção e grupos de apoio, e eles a repetiam, amorosamente, insistentemente, até que todos nós acreditássemos que era verdade. Assim como muitos adotados, no entanto, as verdades sobre meu começo são infinitamente mais complicadas, mais dolorosas e não têm nada a ver com escolha.

Depois de encontrar minha família biológica quando tinha 20 e poucos anos, fui capaz de juntar os pedaços de uma história mais precisa e matizada sobre meu nascimento. A história de uma garota branca, de classe trabalhadora, que se beneficiava do privilégio racial, mas não dispunha de nenhum recurso financeiro real ou poder próprios. Uma garota apavorada. Uma garota que foi pressionada, demonizada e ostracizada por sua própria família e comunidade. Uma garota que ouviu dos pais e profissionais que não servia para ser mãe porque era jovem e solteira, porque não seria capaz de me dar coisas de que eu precisava, como comida, amor ou orientação moral.

Embora ela quisesse me ter, seus pais a enviaram a uma dessas casas que escondiam garotas grávidas e as humilhavam para uma atitude de submissão — o tipo de lugar que as pessoas dizem que não existia depois de Roe v. Wade (caso julgado pela Suprema Corte dos Estados Unidos que resultou na legalização do aborto no país). Exceto pelo fato de que era o ano de 1978, meia década após as mulheres que podiam engravidar terem teoricamente se tornado capazes de fazer escolhas mais desinibidas sobre se deveriam ou não ter filhos. Minha mãe, na verdade, não teve capacidade de fazer uma escolha real e autêntica. E muitas mulheres grávidas ainda não têm essa escolha. Porque uma escolha na ausência de outras escolhas não tem nada a ver com escolha.

Minha mãe, na verdade, não teve capacidade de fazer uma escolha real e autêntica.

O fato é que a maioria das pessoas que renunciam a seus filhos para adoção ou veem seus filhos serem levados embora, tanto nos EUA quanto no exterior, o faz como resultado de uma injustiça racial e econômica.

Em um recente estudo publicado pelo The Donaldson Adoption Institute (DAI), apenas um terço das primeiras mães (normalmente o termo preferido em vez de "mães biológicas") que foram entrevistadas relatam que a decisão de renunciar aos seus direitos parentais foi tomada amplamente com base em seus próprios desejos.

A principal razão pela qual as primeiras mães renunciam aos seus direitos parentais, segundo o relatório do DAI, é a falta de recursos financeiros (82%), seguida pela ausência de apoio social e isolamento. Além disso, a maioria dos casos de crianças retiradas por intervenção do estado e adotadas por meio de um sistema de acolhimento é classificada como casos de negligência, que são tipicamente resultado da pobreza e de vieses racistas e classistas embutidos no tecido do sistema de bem-estar infantil que julgam os pobres, a maioria negros e de pais de pele parda, como imorais e inadequados.

No caso da gravidez indesejada, a mulher grávida em busca de opções de aconselhamento receberia, idealmente, informações completas, imparciais e sem julgamento sobre suas três opções: aborto, adoção e parentalidade, ou seja, criar o filho. Se a pessoa está considerando a adoção, é normalmente encaminhada a uma agência de adoção pelo plano de saúde ou encontra uma por conta própria. Infelizmente, segundo a organização National Pro-Choice Adoption Collaborative, mais de 95% das agências de adoção nos EUA são afiliadas a instituições religiosas. Provavelmente, você não se surpreenderia ao saber que os profissionais de adoção, muitas vezes, não fornecem informações completas sobre o aborto como uma opção em suas práticas de aconselhamento — 40% das mães no estudo do DAI disseram que o assunto nunca foi mencionado. Mas os profissionais também não têm apresentado a opção de criar os filhos como uma opção viável.

De acordo com o estudo do DAI, a maioria das primeiras mães entrevistadas relatam pouco ou nenhum acesso às informações sobre criar os filhos quando se aconselham com profissionais de adoção. E, ainda assim, a grande maioria — 87% das primeiras mães que participaram do estudo — disse que sua primeira opção era, na verdade, criar o filho. É que ninguém lhes disse que tinham o direito de fazê-lo ou ofereceu recursos para ajudar.

Muitas primeiras mães relatam que já eram consideradas "mães biológicas" assim que pisavam nas agências, em vez de mulheres grávidas estudando opções, e que os profissionais que trabalharam com elas inequivocamente consideraram um resultado positivo uma adoção já aprovada oficialmente. E estas são apenas algumas das agências de adoção americanas comuns; nem sequer falamos sobre os frequentemente criminalmente coercitivos centros de gravidez que rotineiramente pressionam pessoas vulneráveis a renunciar a seus bebês. Ou o fato de que muitas adoções particulares são facilitadas por advogados como transações meramente financeiras e legais sem nenhum serviço social vinculado para ajudar qualquer pessoa a atravessar essa experiência transformadora de vidas.

Com o retrocesso dos direitos reprodutivos, os prazos para as mulheres que podem legalmente fazer abortos, caso tenham recursos e poder para ter acesso a eles, estão encolhendo. Isso significa que mais pessoas podem ter de decidir entre a adoção e criar os filhos como as únicas opções viáveis. Se os péssimos serviços sociais também estão retrocedendo, criar os filhos se torna uma opção mais distante. E, se a adoção está sendo promovida pelas mesmas pessoas que estão revertendo nossos direitos, que tipo de promoção, que tipo de agências e que tipo de aconselhamento realmente teremos à frente desses esforços?

Aqui está a verdade difícil de ser escutada: a adoção é um trauma. A separação de pais e filhos, o desmantelamento das famílias, mesmo durante o nascimento, é frequentemente muito traumática e pode resultar em enormes quantidades de sofrimento e consequências ao longo da vida para as primeiras mães e adotados, bem como para as famílias e comunidades às quais pertencem. A maioria das primeiras mães entrevistadas disseram que nunca foram verdadeiramente informadas sobre o potencial de trauma para elas e para as crianças. Normalmente ouvem que podem se sentir um pouco tristes por um tempo e que depois a situação será superada — mas muitas não conseguem. E muitos pais dizem que se arrependem da decisão, mesmo que tivessem a impressão de que era a correta na época.

Aqui está uma verdade ainda mais difícil: a indústria da adoção é um negócio. O segmento gera bilhões de dólares todos os anos e requer filhos de outras pessoas para se manter rentável.

Mas aqui está a verdade ainda mais difícil: essas crianças são quase sempre filhos de pessoas pobres e da classe trabalhadora, de pessoas negras, nativos, indígenas e jovens. As pessoas que as adotam, que diretamente se beneficiam da opressão econômica e racial desses grupos, são, na maioria das vezes, de classe média e média alta e principalmente brancas.

O movimento feminista mainstream tem sido, em geral, a favor da adoção e tem resistido adotar um posicionamento explicitamente interseccional sobre as desigualdades e injustiças que tipicamente unem as famílias adotivas. Há muitas razões para isso, mas aqui estão duas sobre as quais mais penso:

  • O feminismo mainstream tem historicamente assumido que a decisão de renunciar ao filho para adoção é uma escolha que as pessoas fazem livremente, e que as pessoas que escolhem fazê-lo é porque não acreditam no aborto.
  • As feministas brancas mainstream são parte de um grupo demográfico primário que mais se beneficia da adoção.

É provável que sempre haverá crianças que precisem ser adotadas por famílias amorosas e cuidadas de perto por essas famílias, por suas comunidades e dispor de serviços de apoio de alta qualidade ao longo da vida. Mas, como feministas, acreditamos que todas as pessoas devem ter a capacidade de fazer escolhas com informações e com apoio sobre criar filhos ou não, então, devemos trabalhar para que esses casos sejam raros.

Isso significa, claro, que haverá menos crianças para adoção, mas entendemos que as famílias não são intercambiáveis e que o desejo de se tornar pai ou mãe por meio da adoção não faz com que alguém adquira direitos sobre o filho de outra pessoa. Tal como acontece neste país, o mercado força a adoção, juntamente com intervenções estatais classistas e racistas e uma narrativa societária redutiva que vê a adoção como um conto de fadas que no final todo mundo sai ganhando, ou seja, pessoas que possuem privilégios de raça e de classe continuarão a construir suas próprias famílias por meio de escolhas restringidas, coerção e perda daqueles que não têm esses privilégios. Esta é uma questão feminista.

O movimento de Justiça Reprodutiva, fundado e liderado por feministas negras e mulheres não brancas, nos ensina que todas as pessoas devem ter "o direito humano de manter a autonomia corporal pessoal, ter filhos, não ter filhos e criar os filhos que temos em comunidades sustentáveis e seguras". Se pensarmos sobre a adoção através dessas lentes e, em particular, no direito de criar os filhos que temos, vemos que temos de pedir algo muito diferente do feminismo mainstream. Comprometer-se com a justiça reprodutiva, com os direitos humanos, exige que lutemos pela justiça racial e econômica para garantir que todas as mulheres grávidas possam tomar escolhas informadas e autênticas por si mesmas, e que as famílias que queiram permanecer juntas tenham a autonomia e apoio necessário para fazê-lo.

Comprometer-se com a justiça reprodutiva exige que lutemos pelas famílias que queiram permanecer juntas tenham a autonomia e apoio para fazê-lo.

Quero desafiar as organizações feministas e ativistas a incorporar um entendimento interseccional e um posicionamento sobre a adoção como parte de suas plataformas reprodutivas. Leiam experiências de adotados e de primeiras mães. Ouçam acadêmicos, escritores, ativistas e artistas adotados. Ouçam famílias que foram separadas ou abaladas por intervenção do estado. Tenham a conversa difícil. Entre a Marcha das Mulheres, Planned Parenthood e organizações de base locais existe muito espaço para complexidade, nuance e crescimento sobre o assunto. As feministas têm a responsabilidade de abraçar essa causa.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost US e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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