MULHERES

'The Handmaid's Tale' é inequivocamente uma história de, para e sobre mulheres

Esta é uma história de sobrevivência de mulheres.

04/05/2017 13:05 -03 | Atualizado 04/05/2017 14:54 -03
Hulu
Elisabeth Moss interpreta Offred em "The Handmaid's Tale."

Quando faltava apenas quatro dias para o muito aguardado lançamento de "The Handmaid's Tale", da Hulu, muito foi dito nas últimas 24 horas sobre o público a quem a história se destina, tanto o livro ("O Conto da Aia", no Brasil) quanto a série de TV.

Em uma resenha publicada pelo New York Times, o produtor executivo da série, Bruce Miller, fala como foi produzir a série sendo homem, considerando que seus criadores queriam inicialmente que uma mulher estivesse no comando:

"Offred falou comigo", disse Miller. "Ela se encontra numa situação pavorosa, mas conserva seu cinismo, sarcasmo e senso de humor. Ela encontra maneiras realmente interessantes de acionar alavancas do poder e de expressar-se."

Mas Miller não foi um nome evidente para comandar o seriado, porque os produtores estavam à procura de uma mulher, ele recorda. "O Conto da Aia" é um romance que há três décadas representa um rito de passagem fundamental para muitas mulheres jovens. É um texto sagrado do feminismo.

"Ele é sagrado para mim também", disse Miller. "Mas não sinto que seja uma história masculina ou feminina. É uma história de sobrevivência."

Na première da série, no Festival de Cinema de Tribeca, os atores principais enfatizaram fortemente o fato de a série ser uma história "humana", e não "feminista".

"Acho que qualquer história, se for uma história contada por uma mulher forte e poderosa... qualquer história em que uma mulher poderosa exerça controle sobre ela mesma é automaticamente vista como sendo 'feminista'", disse Madeline Brewer, que representa a aia Jane. "Mas é simplesmente uma história sobre uma mulher. Não acho que seja qualquer tipo de propaganda feminista."

Elisabeth Moss interpreta a personagem principal, Offred (Defred). Ela reiterou os comentários de Brewer.

"Não é uma história feminista, é uma história humana, porque os direitos das mulheres são direitos humanos", ela disse. "Nunca tive a intenção de representar Peggy [de 'Mad Men'] como feminista e nunca pensei em representar Offred como feminista. Abordo a personagem com um espírito muito humano, espero."

Michael Loccisano via Getty Images

Margaret Atwood não concordou nem discordou do elenco.

"Não é apenas uma história feminista", ela disse. "É também uma história humana."

Embora o seriado não precise ser rotulado de "feminista", e embora seja tudo bem que um homem que curte a história esteja no comando de sua adaptação para a televisão, uma história escrita por uma mulher, sobre a subserviência forçada das mulheres e sua sobrevivência subsequente, merece pertencer às mulheres. Temos o direito de reivindicá-la.

O Conto da Aia, em tradução para o português, é uma obra de ficção distópica, com certeza, mas está levando mulheres a invadir suas bibliotecas locais para conseguir exemplares do livro. Em abril, mulheres fantasiadas de aias protestaram na galeria do Senado do Texas contra a legislação antiaborto. E, no festival SXSW deste ano, mulheres trajando fantasias de aia percorreram as ruas de Austin, no Texas, numa performance. Embora o livro tenha sido escrito mais de 30 anos atrás, está voltando a mobilizar as mulheres.

Rebecca Traister escreveu para a New York Magazine, em fevereiro, um texto sobre como é ler o livro na era do presidente Donald Trump. "Não há dúvida de que ler a distopia imaginada por Atwood é muito mais assustador hoje do que era, suspeito, para adultos em 1985", ela escreveu.

Qualquer pessoa que tenha lido o livro não deve se surpreender com o fato de as mulheres se sentirem tão mobilizadas por ele no momento político e social atual. Afinal, a história passa a sensação de estar mais próxima da realidade do que teriam desejado os criadores da série.

Moss, que também é produtora da série, reconheceu os paralelos bizarros e assustadores entre a trajetória apavorante de Offred e a América de Trump.

"Nunca quisemos que a série fosse tão relevante assim", ela disse ao Entertainment Weekly em dezembro.

É fácil identificar essa relevância.

Na teocracia distópica de Gilead, onde é ambientado O Conto da Aia, os corpos das mulheres são policiados e controlados pelo Estado, comandado por homens. O único papel das aias é ter filhos; elas não têm direitos, não têm liberdade, não têm vida própria. As mulheres não exercem controle sobre seu próprio corpo.

Hoje os EUA têm um presidente que se gaba de agarrar mulheres "pela buceta". Esta semana um advogado no Tennessee disse que as mulheres são "especialmente hábeis em mentir... porque são o sexo mais fraco". Um parlamentar do Missouri declarou no ano passado que engravidar de um estupro é uma bênção de Deus. Salões cheios de homens tomam decisões legislativas sobre o corpo das mulheres. Um comitê de homens em Maryland decidiu que os estupradores podem continuar a exercer o pátrio poder sobre os filhos concebidos de um estupro. E o acesso ao aborto está em risco em todo o país.

Mas a beleza de "The Handmaid's Tale" – algo que passa despercebido por Bruce Miller e que talvez sejam as mulheres que captam mais profundamente – está no fato de ser indiscutivelmente, explicitamente, uma história sobre a sobrevivência e audácia de mulheres.

Na primeira vez em que li o livro, em 2015, eu chorei. Não porque o conteúdo fosse tão traumatizante (era). E não porque remetesse estranhamente ao que estava acontecendo em nossa própria paisagem política (remetia).

Chorei por trechos como este:

"Aprendemos a sussurrar quase sem fazer som algum. Na semiescuridão, estendíamos nossos braços, quando as Tias não estavam olhando, e tocávamos as mãos uma da outra, sobre o espaço. Aprendemos a fazer leitura labial, com a cabeça deitada na cama, deitadas de lado, observando a boca uma da outra."

E outros como este:

"Sigo adiante com esta história triste e faminta e sórdida, esta história trôpega e mutilada, porque, afinal, quero que você a ouça... Pelo fato de estar lhe contando alguma coisa, estou pelo menos acreditando em você... Porque estou contando esta história para você, desejo sua existência, logo você existe."

A prosa lindamente construída de Atwood alcança seus momentos mais belos quando ela descreve a pura e simples resiliência das mulheres, minhas irmãs.

Desde a eleição presidencial, é a resiliência das mulheres que me mantém animada, me permite seguir adiante. As mulheres estão resistindo, chamando, sendo voluntárias, doando ... e vivendo.

E, como a fictícia Offred – quer Moss a considere "feminista" ou não --, pretendemos sobreviver.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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