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Na Chechênia, polícia orienta pais a matarem filhos gays para 'limpar a honra'

"Se algum de meus parentes perceber que eu sou gay, eles não hesitarão um minuto antes de me matar", relata um sobrevivente.

04/05/2017 16:48 -03 | Atualizado 05/05/2017 16:24 -03
JOHN MACDOUGALL via Getty Images
Ativistas fazem protesto em Berlim para pressionar o presidente russo Putin a tomar medidas contra a perseguição de gays na Chechênia.

O nível da homofobia da Chechênia tem chamado a atenção do noticiário internacional.

De acordo com a mídia francesa France 24, pais estão sendo instruídos pela polícia local a matarem seus filhos gays sob a ordem de que precisam "limpar o seu sangue com a honra".

A ameaça das autoridades é de que se os familiares não o fizerem, a polícia irá matá-los.

A informação foi confirmada por uma vítima de perseguição que precisou deixar a sua cidade de origem e ir para Moscou para sobreviver.

De acordo com a vítima, na Chechênia só há duas opções: "mentir ou morrer".

"Se algum de meus parentes perceber que eu sou gay, eles não hesitarão um minuto antes de me matar. E se eles não fizerem isso, eles vão se matar por não terem cumprido a honra da família", explicou em entrevista a France 24.

Em março, o jornal russo Novaya Gazeta publicou que dezenas de homens com idades entre 16 e 50 anos foram detidos "em conexão com sua orientação sexual não tradicional, ou suspeita de tal".

Eles foram presos e torturados. Pelo menos duas pessoas haviam sido mortas por suas famílias devido a sua sexualidade.

A denúncia preocupou organizações internacionais. As torturas aconteciam em prisões paralelas, uma espécie de "campo de concentração" para LGBTs.

A ong russa LGBT Network está ajudando os chechenos a deixarem a região e voarem para Moscou. De acordo com Olga Baranova, responsável pela organização, eles recebem mais de 5 pedidos de ajuda diários.

Ekaterina Sokirianskaia, diretora russa da International Crisis Group, disse ao The Guardian que recebeu informações preocupantes sobre o assunto de várias fontes.

"Eu ouvi sobre isso acontecendo em Grozny [a capital Chechênia], fora de Grozny, e entre pessoas de idades e profissões muito diferentes", afirmou.

Na região, a religião predominante é o islamismo, e falar sobre a sexualidade ainda é um tabu. Também por este motivo, muitas da informações sobre os casos são ainda não são totalmente verificáveis, acrescentou Sokirianskai.

"É quase impossível obter informações das vítimas ou de suas famílias, mas o número de sinais que estou recebendo de pessoas diferentes faz com que seja difícil não acreditar que detenções e violência estão realmente acontecendo."

JOHN MACDOUGALL via Getty Images
Ativistas fazem protesto em Berlim para pressionar o presidente russo Putin a tomar medidas contra a perseguição de gays na Chechênia.

A Chechênia é formalmente parte da Rússia, mas funciona como um estado quase independente em que a palavra do líder Ramzan Kadyrov muitas vezes pode ser superior as leis russas.

O porta-voz do governo Alvi Karimov negou as afirmações. De acordo com ele, é impossível haver perseguição de gays em "uma região que sequer eles existem".

"Você não pode prender ou reprimir pessoas que simplesmente não existem na república. Se essas pessoas existissem na Chechênia, a polícia não teria que se preocupar com elas, porque seus próprios parentes teriam mandado elas para onde nunca mais poderiam retornar", disse em um depoimento obtido pela rádio Free Europe.

A detenção em massa de homens homossexuais surge em resposta as tentativas de manifestações dos grupos LGBTS em cidades de toda a região.

Os grupos esperavam que seus direitos fosses legalizados e tinham a esperança de levar suas demandas ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos.

A Federação Russa é conhecida pela sua hostilidade à comunidade LGBT. Desde 2013, tem apoiado uma lei de propaganda anti-gay que torna o clima de intolerância ainda pior.

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