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A crise de migrantes que fervilha na fronteira entre Colômbia e Venezuela

Os colombianos fogem da violência contínua e os venezuelanos buscam uma saída da agitação e do colapso econômico de seu país.

04/05/2017 15:12 -03 | Atualizado 04/05/2017 15:12 -03
AFP/Getty Images
Pessoas aguardam diante do escritório da Alfândega em San Antonio del Tachira, Venezuela, pela abertura da passarela para a ponte internacional Simon Bolívar, que liga a cidade a Cúcuta, na província colombiana de Norte de Santander, em 20 de dezembro de 2016.

Na fronteira entre a Colômbia e a Venezuela, Joe Parkin Daniels traz um relato sobre o número crescente de pessoas que fogem nos dois sentidos, atravessando a fronteira frequentemente fechada, para escapar de problemas humanitários em ambos os países.

BOGOTÁ (COLÔMBIA) – Uma crise de migrantes fervilha na fronteira entre Colômbia e Venezuela. Os colombianos fogem da violência contínua e os venezuelanos buscam uma saída da agitação e do colapso econômico de seu país.

Embora a fronteira frequentemente fique fechada devido às tensões entre os dois países, cada vez mais pessoas vêm viajando nas duas direções para escapar de problemas humanitários em seus respectivos países.

Na Colômbia, um acordo de paz ratificado em novembro passado com o grupo rebelde esquerdista mais antigo da América do Sul, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), abriu um vácuo nas grandes economias criminais com as quais os rebeldes financiavam seu esforço de guerra, que incluíam o narcotráfico e o garimpo ilegal.

Enquanto muitos colombianos festejam o fim formal de 52 anos de uma guerra que deixou pelo menos 220 mil mortos e quase 7 milhões de deslocados, as pessoas que vivem em áreas antes sob o controle das Farc convivem com o medo de grupos armados emergentes que disputam as rotas do tráfico antes controladas pela guerrilha.

No início de fevereiro, funcionários da ONU denunciaram que 96 famílias teriam sido expulsas por grupos armados de suas casas na região de Norte de Santander, centro do cultivo de coca e do garimpo ilegal, situada na fronteira com a Venezuela. Algumas das famílias entraram na Venezuela, enquanto outras continuavam na Colômbia e tinham buscado refúgio em cidades vizinhas.

A chanceler colombiana, Maria Angela Holguín, disse que "não há certeza de qualquer deslocamento desse tipo", mas o governo venezuelano, liderado pelo presidente Nicolás Maduro, disse que 359 colombianos deslocados chegaram à fronteira de seu país desde que o acordo de paz foi fechado. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) informou em fevereiro que 200 pessoas da região estão recebendo ajuda humanitária na Venezuela.

O maior dos grupos responsáveis pelo deslocamento de pessoas na fronteira é formado por ex-membros da AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia), uma federação paramilitar vinculada a elites ruralistas que foi desmobilizada em 2006. A desmobilização foi denunciada como não tendo sido válida, na medida em que muitos combatentes não entregaram suas armas.

Descritos pelo governo como Bacrim (Bandos Criminosos Emergentes), esses grupos vêm reivindicando com violência o controle do território antes dominado pelas Farc. Em dezembro o escritório colombiano do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos disse que o governo colombiano precisa fazer mais para proteger a população da zona rural desses grupos armados.

A Acnur disse que no final de 2016, cerca de 173.673 colombianos residentes na Venezuela estavam procurando proteção internacional. Outros 8.500 já foram reconhecidos como refugiados.

Crise na Venezuela

Mas a migração entre os dois países não é um fluxo de mão única.

A Venezuela, o país que possui as maiores reservas petrolíferas comprovadas do planeta, vive uma situação de caos econômico absoluto. O Financial Times divulgou que a inflação no país pode chegar a 1.600% este ano. A dependência excessiva do petróleo em meio à queda global dos preços do produto, somada à política externa hermética do país, levaram muitos venezuelanos a viver em um estado de privação constante.

Em meio à falta de produtos básicos, desde alimentos enlatados e papel higiênico até medicamentos, as pessoas esperam horas em filas em um esforço vão de comprar comida para cada dia, frequentemente carregando mochilas repletas de notas de bolívar, a moeda venezuelana hoje praticamente destituída de valor. O mercado negro de produtos básicos está em alta, mas os preços são exorbitantes, fora do alcance da população. Muitos venezuelanos procuram viajar à Colômbia, onde as prateleiras estão cheias.

No último ano ocorreu um influxo de venezuelanos em Cúcuta, a capital da região colombiana de Norte de Santander, onde os grupos sucessores dos paramilitares estão em expansão. Durante um período em julho passado quando a fronteira foi aberta, 120 mil pessoas a atravessaram para comprar produtos de primeira necessidade e receber atendimento médico.

Em dezembro o jornal Miami Herald divulgou o caso de uma mulher, grávida de oito meses, que atravessou da Venezuela para a Colômbia para dar à luz a gêmeos, em meio a uma onda de migração. "Não tive escolha", disse Marili Gomez ao jornal. "Eu queria que meus bebês sobrevivessem."

É difícil fazer uma estimativa precisa do número de venezuelanos que já buscaram refúgio na Colômbia, mas a ONU disse que havia mais de 46.600 venezuelanos na Colômbia em 2015, quando começaram os protestos contra o governo que continuam até hoje.

Fronteira fechada

Após anos de relações tensas entre Colômbia e Venezuela, a fronteira entre os dois países é fechada com frequência. Em 2008 a Venezuela enviou tanques e tropas à fronteira, depois de uma operação colombiana para caçar um comandante das Farc que estava em solo equatoriano ter desencadeado uma crise regional. Em meados de 2015, milhares de colombianos foram deportados da Venezuela quando Maduro acusou a Colômbia de dar apoio ao tráfico entre os dois países.

Embora as tensões tenham diminuído desde então, a fronteira ainda é fechada com frequência, levando venezuelanos e colombianos desesperados a atravessá-la ilegalmente nas duas direções.

Muitos venezuelanos vão viver em Cúcuta sem documentação e trabalham informalmente na construção ou como empregados domésticos. Alguns também atuam no crescente contrabando de gasolina através da fronteira; o produto é subsidiado pelo Estado na Venezuela, mas tem preço alto na Colômbia.

"As quadrilhas trazem barris de gasolina, que nós compramos e então revendemos", explicou um homem em Norte de Santander que pediu para ficar anônimo, apontando para uma bomba improvisada feita com um funil caseiro e tubos de plástico. "Também vendemos gasolina em garrafas de Coca-Cola. Na Venezuela a gasolina custa menos que a água, então este é o único negócio que faz sentido."

Enquanto isso, organizações humanitárias que trabalham com refugiados e migrantes frequentemente têm seus esforços obstruídos pelo pouco transparente governo da Venezuela.

A falta de dados sobre refugiados vindos das autoridades venezuelanas exacerba a dificuldade de lidar com as ondas de migrantes, segundo um funcionário humanitário que trabalha na fronteira. Devido à falta de dados, é virtualmente impossível definir quem é refugiado e quem é migrante econômico, ele explicou.

De qualquer maneira, porém, tanto migrantes quanto refugiados enfrentam situações muito semelhantes na fronteira entre Colômbia e Venezuela, observou o funcionário. Quer estejam fugindo da violência ou da turbulência econômica, estão buscando refúgio de uma situação que saiu de seu controle.

Este artigo foi publicado originalmente pelo Refugees Deeply, em seguida no HuffPost US e traduzido do inglês. Para informações e análises semanais sobre questões ligadas a refugiados, assine a lista de e-mails do Refugees Deeply.