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A emoção do primeiro espetáculo sem Domingos Montagner e a celebração dos 20 anos do 'La Mínima'

"Éramos dois caras encantados com a arte e com o circo. Tudo que eu levo para a cena tem um pouco dele e eu acho isso ótimo."

01/05/2017 10:32 -03 | Atualizado 01/05/2017 14:47 -03
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Fernando Sampaio, do La Mínima, fala sobre primeiro espetáculo sem Domingos Montagner

Quantas pessoas você conhece há, no mínimo, 20 anos?
Quantas delas você pode chamar de amigo?
E o quanto delas você enxerga em si mesmo?

A amizade entre Fernando Sampaio e Domingos Montagner começou quando os dois se reconheceram em meio ao encantamento com a arte, virou cumplicidade entre dois palhaços e se tornou parceria com o grupo La Mínima e o Circo Zanni.

A dupla deu vida ao Agenor e ao Padoca, em 1997, os palhaços que mais tarde ajudariam a formatar o cenário artístico e circense atual.

Este ano, a companhia de circo e teatro celebra os seus 20 anos com o espetáculo Pagliacci, em cartaz no Sesi de São Paulo até 2 de julho, além de uma exposição sobre a trajetória do grupo.

E com a total maioridade é chegada também uma de suas fases mais desafiadoras: conseguir olhar para frente e honrar todas as lembranças de um passado.

A passagem do Duma em setembro de 2015, como é lembrada a morte de Montagner pelo seu parceiro, trouxe o desafio emocional para a Cia de continuar produzindo e preservando seu legado artístico.

Hoje, Sampaio diz que está vendo o sonho de Montagner ser realizado. Em um caderno de rabiscos e desenhos deixado pelo ator, ele expressa sua vontade de que a história do La Mínima seja comemorada percorrendo muita estrada e com a estreia da adaptação da ópera italiana.

Originalmente composta em dois atos, com música e libreto por Ruggero Leoncavallo, Pagliacci foi representada pela primeira vez em 1892. O enredo é um drama de um amor fracassado e uma traição envolvendo atores de uma companhia circense.

A adaptação do La Mínima, dirigida por Chico Pelúcio e escrita por Luís Alberto de Abreu, pretende ir além das relações entre as personagens para tratar de um tema muito atual: o feminícidio e a valorização da força feminima.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Fernando Sampaio compartilhou um pouco da trajetória da companhia e da amizade com Montagner.

HuffPost Brasil: Este ano a companhia completa 20 anos. Como você enxerga a trajetória até aqui?

Fernando Sampaio: Sinto muito orgulho em ver que um grupo pequeno e simples conseguiu contribuir tanto, como tantos outros grupos de circo de São Paulo. Tenho orgulho das obras que fizemos. As pessoas lembram, assistem os espetáculos suas famílias e o retorno do público é muito inspirador. Isso nos alimenta. O La Mínima deixou de ser só uma dupla de palhaços. Nós trancendemos. A gente vê como contribuiu para o avanço da palhaçaria. O quanto agregamos pessoas ao grupo, seja na atuação, criação, produção. Hoje temos uma linha de produção grande para o que éramos. O circo ganhou mais espaço. E nós contribuímos com isso de alguma maneira.

Qual a relação entre uma ópera e o espetáculo circense?

O La Mínima é uma companhia que existe há 20 anos. Adaptar uma ópera que tem um nome como Pagliacci, que para nós é sugestivo demais, e ainda é um drama, é um desafio enorme. Na nossa historia a gente busca esses desafios ligados a dramaturgia, porque ela ainda é um ponto vulnerável do circo.

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O enredo de Pagliacci é um drama do século 19, o que ele tem de atual?

Essa ópera tem um enredo simples. Nosso processo de montagem buscou ampliar as relações entre os personagens. Na nossa adaptação, a gente trabaha com o meta teatro. Apesar de ter sido escrita pelo italiano Ruggero Leoncavallo em 1892, o enredo é atual. É um espetáculo trata do feminicidio e as estatísticas provam que esse é um tema urgente. Mas não é só isso. A gente faz uma critica a esse assassinato. Ao longo da trama, os palhaços começam a se humanizar, eles perdem a ingenuidade. Temos uma personagem que é uma mulher muito forte. Outra coisa que para gente era importante era representar o amor em sua pureza. A protagonista não se apaixona pelo galã da peça, mas por aquele personagem ingenuo que é o palhaço da trupe.

O palhaço é conhecido por ser um personagem de humor e caricato pelo senso comum. Como é interpretá-lo?

A nossa relação com o palhaço é outra. É uma relação de admiração profunda. A gente não enxerga ele como um personagem caricato, mas como um personagem muito rico e muito sensível. As vezes ele é tímido, as vezes é bufão. Talvez poucas pessoas saibam a grandiosidade deste personagem. Na história do circo, o palhaço sempre foi reconhecido por ser o artista mais completo. Ele sabia fazer comédia, drama, tinha habilidades em aparelhos aereos, manipulação. Enfim, é um personagem muito rico e quem estuda circo sabe disso. Isso serve muito como estímulo para a gente sempre estar buscando referências de como dar vida ao personagem.

E como você decidiu que queria ser palhaço?

No final dos anos 80, fui assistir uma peça em que o circo era muito presente. O humor do circo era forte. A partir dai eu fiquei instigado a estudar sobre o teatro. Mas depois eu percebi que na verdade o que tinha me instigado era o circo. Quando eu comecei a estudar o circo, eu conheci a dupla de palhaços Picolino e Pinguim. Foi ali que eu encontrei o que eu queria fazer da vida. Eu fiquei encantado. Não tem a criança que vê o Batman e quer ser como ele? Comigo foi assim, só que com o palhaço. Isso foi muito transformador. Com o Domingos foi a mesma coisa. Ele se encantou pela palhacaria.

O que uniu vocês dois nessa trajetória?

O encantamento foi o que nos uniu. Éramos dois caras de classe média encantados com a arte e com o circo. Incorporamos muito rapidamente os palhaços.

A gente se conheceu no Circo Escola. Nossa aproximação foi engraçada. A gente frequentava a escola e íamos embora depois de todo mundo. As aulas acabavam às 17h, mas sempre ficávamos ensaiando juntos até pelo menos umas 21h. Era um prazer ensaiar e aprender. Domingos estava muito animado com as descobertas do circo quando nos conhecemos. A gente conversava com os mestres e tudo foi acontecendo muito rápido. Eu sei que teve um momento em que nós vivemos a marginalidade das agendas. Até que em 97 a gente montou 'As Bailarinas' e daí em diante permanecemos próximos. Em 2001, montamos nosso primeiro espetáculo de rua. Não paramos mais. Não tiveram momentos difíceis ao lado dele. Não tivemos crise. Quando ele foi pra Globo eu o apoiei. Percebi o quão revolucionário seria para a carreira dele. Não teve momento ruim.

Qual o desafio emocional de se apresentar sem o Domingos?

Foi um desafio enorme. No momento da passagem dele a gente se questionou se deveríamos manter o projeto. Foi uma decisão do coletivo montar Pagliacci. Em outras conversas com o próprio Domingos a gente já tinha decidido que essa ópera seria a celebração dos nossos 20 anos. E muito do que está em cena hoje é resultado do que foi construído com ele nos últimos 20 anos. Tem muito dele no palco. Do desejo dele. A gente usou o livro de desenhos e ideias que ele tinha como roteiro para a montagem. O Domingos está presente em tudo. É impossível que qualquer coisa que as pessoas não sintam o olhar dele em qualquer coisa que o La Mínima venha a fazer. Trabalhamos muitos anos juntos. É uma relação de cumplicidade. Tudo que eu levo para a cena está relacionado a ele e eu acho isso ótimo. Tenho orgulho. Ele era um artista completo, um cara forte, generoso com os amigos e com o circo. Foi um momento dificil retomar a produção sem ele. Foram ensaios sensíveis e muito emocionados. Mas a gente estava determinado em fazer acontecer para celebrar a historia dele e da companhia. A ideia é andar para frente, não é?

Como traduzir o que é ser um palhaço?

Ser palhaço hoje é um ofício. Eu tenho plena certeza de que é isso que eu quero ser para sempre. Hoje eu entendo melhor o papel do palhaço no mundo, a relação dele com o mundo. Talvez o circo seja a arte que mais congrega linguagens e pessoas. É uma arte rica, popular, democrática. A gente se transforma nos papeis. Atuar é um estado de prazer que é difícil de explicar. Não tem como explicar o que é um palhaço. Eu me acho um palhaço em formação. Vejo outros que me inspiram e entendo que a trilha é longa. Ainda bem. Tem que ser longa e a gente não pode se acomodar.

Há espaço para o circo hoje em dia?

O circo é um lugar feliz. Ele nunca vai acabar. Está cada vez mais rico o espetáculo. Isso é fruto do que as escolas iniciaram há décadas e tem uma geração inteira que se apropriou das técnicas e da pesquisa. Essas pessoas chegaram para fazer circo com amor. E elas são apaixonadas. O circo é apaixonante. Hoje ele está em outro patamar e eu espero que só cresça. É uma arte democrática.

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