ENTRETENIMENTO

Os segredos das canções 'literárias' de Dylan estão desvendados neste livro

'Dylan gostaria de comparável aos escritores Beatniks', afirma tradutor.

27/04/2017 20:33 -03 | Atualizado 02/05/2017 12:06 -03

Bob Dylan: Letras - (1961-1974) acaba de chegar às livrarias. Edição brasileira de The Lyrics - 1961-2012, o livro é o primeiro de dois volumes da Companhia das Letras, que reúnem as letras dos 33 álbuns do cantor, atual vencedor do Nobel de Literatura.

Divulgação/Companhia das Letras

Quem assina a tradução é Caetano Galindo, professor da Universidade Federal do Paraná, profissional com vasta experiência no mercado literário, além de autor de textos acadêmicos obre teoria do romance e a obra de James Joyce.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Galindo falou sobre o processo de tradução das letras de Dylan, os desafios de se trabalhar com canções no lugar de romances e compartilhou sua visão acerca do fato de um prestigiado prêmio de literatura ter sido entregue a um músico.

De cara, vale dizer aos leitores que Bob Dylan – Letras traz um diferencial na forma como o conteúdo é apresentado. As canções não estão traduzidas de "forma poética" (com rimas e contagem de sílabas) e nem "para performance" (com rimas e preocupação de encaixe na melodia original da canção).

"A ideia era traduzir o 'texto' das canções, com atenção sim a questões de sonoridades, de efeitos mais claros de aliteração (repetição das mesmas sonoridades numa série de sílabas ou palavras), por exemplo, mas sempre tentando valorizar centralmente o conteúdo, o 'o quê' era dito ali", afirma Galindo.

O tradutor conta que, a partir dessa proposta editorial, o processo de tradução das canções trouxe as mesmas exigências que um "texto literário sofisticado". E enumera: "Atenção à semântica, ao significado, articulada com um cuidado com a "superfície" do texto final."

Nesse trabalho, ele enfrentou uma dificuldade específica: "tornar natural 'no papel' o recurso derivado das canções folk e do blues tradicional, de começar os versos com uma exclamação como 'well' ou "then'".

A diferença entre as idiomas desperta uma outra questão:

Tendo em vista a riqueza de palavras da língua portuguesa, como é possível traduzir algo que pode assumir significados diferentes de acordo com o leitor, transformando esse material em algo compreensível para qualquer pessoa?

Ele explica:

"É sempre uma questão de tentar exercer ao máximo os teus dotes de leitor, primeiro, e perceber o maior número possível de 'leituras' verossímeis para aquele texto (ou aquela 'palavra', caso a caso) e depois de tentar utilizar o repertório de que você disponha para reproduzir, nem sempre a mesma 'coisa', mas idealmente o mesmo 'efeito' no texto traduzido."

Galindo ressalta que todos os idiomas são ricos. E que no caso de duas línguas com séculos de tradição literária, como o português e o inglês, "sempre será possível se servir desse repertório de maneira eficiente".

Polêmica em torno do Nobel

POOL New / Reuters

Em dezembro do ano passado, Dylan se tornou o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura. A Academia Sueca justificou a entrega da honraria ao cantor de 75 anos atribuindo a ele a criação de um novo modelo de expressão poética na tradição estadunidense.

A notícia foi recebida com entusiasmo por fãs, uma maioria de artistas e personalidades. No entanto, essa reação não foi unânime. Um dos críticos ao prêmio entregue à Dylan foi o escocês Irvine Welsh, autor do best-seller Trainspotting.

Em sua conta no Twitter, o escritor afirmou:

"Sou fã de Dylan, mas este é um prêmio nostálgico mal concebido por próstatas rançosas."

Nesse contexto polêmico, em que canção é vista como algo menor que literatura, Galindo tem uma posição bem definida - que aponta equidade de valor entre ambas. Para justificar essa ideia, ele recupera algumas informações históricas.

"A canção popular é no mínimo desde os anos 30 do século passado o maior veículo de transmissão de poesia para o mundo. Todo mundo tem uma relação com poesia, e ela via de regra vem de canções. Nesse sentido, o dado 'literário' já fica posto", afirma.

Isso não significa que toda canção é boa. Para Galindo, existem sim canções ruins, assim como literatura ruim. Mas ressalta:

"Desde aqueles anos 30, alguns letristas passaram a atingir um grau de sofisticação que a gente não costuma associar a formas de arte popular, e muito menos 'pop'. De Cole Porter a Chico Buarque, de Ira Gershwin a Caetano Veloso."

Para o tradutor, nesses casos o uso do adjetivo "literário" como algo automaticamente imbuído de valor positivo é uma ação equivocada. Porém, "é difícil negar o estatuto 'literário' da produção mais alta de um Paul McCartney, por exemplo", afirma.

Sobre a pertinência da entrega do Nobel à Dylan, Galindo afirma:

"Se Cole Porter tivesse levado o nobel nos anos 40 já teria sido adequado. Agora, quase oitenta anos depois, estava mais do que na hora."

Com "estatuto literário" justificado, que posição Bob Dylan ocupa hoje dentro da literatura universal?

"Eu, particularmente, acho que ele gostaria de ser comparável acima de tudo aos escritores Beatniks, de quem inclusive chegou a ser próximo", afirma Galindo, citando Allen Ginsberg e Jack Kerouack como exemplos.

Galindo acredita que a produção mais alta do compositor de 75 anos não deixa nada a desejar às obras criadas pelos autores da Geração Beat. "Mas ele tem muito de dívida com certa literatura francesa, de Baudelaire e talvez principalmente Rimbaud. E também com Walt Whitman", afirma.

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