ENTRETENIMENTO

Como um filme em realidade virtual pode gerar empatia pelo Xingu

Documentário 'Fogo na Floresta' estreia no Festival É Tudo Verdade, em cartaz em São Paulo e no Rio de Janeiro.

27/04/2017 17:44 -03 | Atualizado 27/04/2017 18:20 -03
� Tadeu Jungle
Queimada no entorno da aldeia Piyulaga surpreendeu filmagens de 'Fogo na Floresta'.

"Gostou? Foi louco? O nosso objetivo é de que você tenha viajado", pergunta Tadeu da Fonseca Junges, o Tadeu Jungle, 61, o diretor de Fogo na Floresta a uma repórter. "Nunca estive no Xingu. Quer dizer... Agora acho que já estive", responde ela, rindo e ainda meio confusa numa das salas do último andar do Instituto Socioambiental (ISA), em Higienópolis, região nobre de São Paulo. Minutos antes, ela havia sido jogada na aldeia do povo Waurá, no Parque Indígena do Xingu, Mato Grosso. Era a sessão para a imprensa do primeiro documentário em realidade virtual a concorrer no festival "É Tudo Verdade", em cartaz até 30 de abril em São Paulo e no Rio de Janeiro.

"Mais de 60% do tráfego da internet é de vídeos. E os videoativistas têm uma grande tendência de querer estar em várias plataformas. Pode ser o cinema ou o WhatsApp. Dentro disso, a realidade virtual vem para ficar, não é uma moda e não é um novo 3D. Ela vem transformar a maneira de se contar uma história. Desde a invenção do cinema, mais de cem anos depois, agora surge a imersão como narrativa. Eu vivencio as cenas. As pessoas estão dentro do Xingu". A narração é feita pela atriz Fernanda Torres.

De certa forma, Tadeu é o mensageiro dos ventos que já desembocam há tempos nos Estados Unidos: a ideia de fazer da realidade virtual um meio para que os espectadores sejam capazes de sentir a dor dos outros.

A palavra empatia é muito atrelada à realidade virtual. Chris Milk, que é um dos criadores da virtual reality diz que ela é a maior máquina de empatia jamais inventada. Estou no lugar do outro, estou vendo os outros.

A fala de Milk no TED é uma fagulha na silenciosa revolução que se desenha. Está tudo documentado. "Fui ao South By Southwest [SXSW] deste ano e uma experiência da Universidade de Harvard mostrava aos visitantes histórias e dados sobre homeless (moradores de rua) para medir o nível de engajamento das pessoas em causas. Para um grupo, entregavam apenas dados em papéis. Outro grupo assistia a filmes com os mesmos dados. Um terceiro grupo era exposto à realidade virtual com a vida dos moradores de rua. As pessoas desse último grupo podiam entrar no mundo dos sem-teto. E quem tinha visto os filmes de realidade virtual se engajava muito mais no problema", conta o diretor brasileiro. O experimento fez parte do chamado Empathy Lab, que aconteceu no dia 12 de março deste ano, em Austin, no Texas.

Jeremy Bailenson, diretor do Virtual Human Interaction Lab, da Universidade de Stanford, confirma as suspeitas de Tadeu. Em entrevista à revista americana Wired, em 2015, ele já pontuava. "Estamos entrando em uma era sem precedentes na História humana, em que você pode transformar o eu e pode experimentar qualquer coisa que o criador virtual possa fantasiar", diz o pesquisador. "O estudo mostra que isso pode ter um profundo efeito sobre o nosso comportamento", define.

O Project Syria, de Nonny de la Peña, CEO da Emblematic Group e grande inovadora nos campos do jornalismo imersivo, é outra enorme referência para o cineasta brasileiro. Ela já jogou os espectadores entre os tiros na Síria para que possam sentir como é ser alvo de uma maiores tragédias humanitárias do século 21.

Ela também já colocou as pessoas nas ruas virtuais de Los Angeles, para entender a fome, e na fronteira virtual entre os EUA e o México, para viver a história de um homem espancado até a morte por agentes da fronteira americana.

Em Fogo na Floresta, a tragédia humana retratada é a devastação ambiental, bola levantada pelo ISA, o realizador do filme. O Xingu é uma região de mata baixa, rasteira. De 1993 a 2016, o desmatamento no entorno do parque virou regra e uma devastadora realidade.

Rafael Nardini/Especial para HuffPost Brasil
Tadeu Jungle concede entrevista a jornalistas sobre documentário.

Segundo Paulo Junqueira, coordenador do ISA que trabalha especificamente com os povos do Xingu, 49% das áreas no entorno do parque foram destruídas no nos últimos 23 anos, quando se iniciou o levantamento. O vilão? Os altos preços da soja nos últimos tempos, que incentivaram o plantio e levaram a seca e intensos incêndios para dentro da reserva indígena brasileira mais conhecida. Os povos originários acabaram num círculo de fogo do agronegócio. A empatia da realidade virtual veio para dar conta de tal narrativa...

"No dia em que chegamos, o fogo estava queimando tudo em volta da nossa oca. Era um monte de gente tentando apagar o fogo. Botamos a câmera no trator e saímos. No filme, você vê colunas de fogo quase o tempo todo. Era difícil respirar, tudo era muito quente e a fumaça deixava o céu todo branco", resume Tadeu. "Foi aí que o fogo se transformou em protagonista e vilão da nossa história".

Três mil pés de pequi, fruta fundamental na alimentação indígena, também já foram atingidos pelas queimadas. "A nossa hipótese era que fosse a praga da soja. Mas não é. O predador dos percevejos são formigas, que acabam vítimas do fogo também", explica Paulo Junqueira. Não para por aí.

"Os porcos nunca atacaram roças indígenas. Um índio me pediu um rádio para deixá-lo ligado na roça para ver se espantava os porcos. É uma aldeia pequena com dez roças, que alimenta os índios por dez meses do ano. Quando vimos, oito e meia delas já haviam sido completamente destruídas pelos porcos."

A queimadas trazem outras novidades indesejáveis para os Waurá. "Estamos monitorando veneno na região agora. E os índios são muito acurados, no olfato, na visão. Eles sentem o cheiro, reclamam que a pele começa a coçar. Sabem quais são os mosquitos que não existiam por ali antes. Quais são as pragas diferentes no milho", conta o coordenador do ISA. No Xingu, casa de nove povos e oito línguas distintas, a realidade tem sido cada vez mais difícil.

Sem 'índio romântico'

Fogo não é o primeiro mergulho virtual de Tadeu. A estreia em realidade virtual veio com Rio de Lama, sobre o desastre de Mariana, em Minas Gerais, em parceria com o Greenpeace. Para realizar o curta sobre a causa indígena, Tadeu foi buscar referências no canal de vídeos do The New York Times. Ele desconstruiu as produções para entender o que o maior jornal do mundo estava fazendo. "Ainda estamos aprendendo como fazer narrativas para realidade virtual. Não tem nada a ver com o que fizemos antes. Vlog, cinema de arte, novela, seriado... Não tem nada disso. É tudo novo."

O filme conta com planos longos. São dez, 15 ou até 40 segundos. É uma forma de dar respiro aos que estão assistindo. "Você precisa dar um tempo para o público explorar. É o que eu chamo de 'Efeito Exorcista' (em referência à cena em que a personagem principal do clássico de terror dá uma volta completa com o pescoço, virando a cabeça para trás). Mas isso passa depois do primeiro filme. Aí as pessoas entendem", conta, virando o pescoço para todos os lados.

Nos cinco dias de filmagem quase ininterruptos, a preocupação maior do diretor e dos outros cinco integrantes da equipe era interferir o mínimo possível e, principalmente, escapar das obviedades que mascaram a realidade indígena em pleno século 21.

Por isso tudo, Fogo tem índios andando em alta velocidade de motocicleta pela aldeia, mas também de shorts Adidas e jogando futebol com pedidos de "passa" e "toca" em claro e límpido português. "Não tem índio romântico. Em uma cena a índia está nua ralando mandioca. Em outra está de vestido. Eles são assim", relata Tadeu.

O cineasta que também assina o longa-metragem de ficção Amanhã Nunca Mais, com Lázaro Ramos, e o documentário Evoé, Retrato de um Antropófago, sobre o dramaturgo Zé Celso Martinez, vê sinais de que a realidade virtual já é mais que viva. Os custos, as técnicas de gravação e a facilidade para editar também ajudam que se propague rapidamente, segundo ele. "Existem bilhões de celulares no mundo. A máquina da VR já existe em massa", resume.

Los Angeles, capital cinematográfica do mundo, já ostenta o IMAX VR Center, especializado em realidade aumentada. Seria o princípio do fim do cinema convencional? "De jeito nenhum. O cinema vai continuar igual, também com casa, tela e sofá. Mas a realidade virtual não é uma brincadeira. É outra maneira de contar a história", completa Tadeu.

Muita gente sonha em um dia conhecer uma aldeia na Amazônia. Mas, acredite, quem está na linha de frente da questão indígena também sonha com essa aproximação. "O Brasil precisa conhecer o Brasil. A gente só falava com a turma que já nos conhecia. A gente espera que isso comece a mudar agora", conta Paulo. "Os Waurá são muito festeiros. Normalmente para os índios as danças têm relações com momentos específicos, como colheita, por exemplo. Para eles, não; os Waurá dizem que dançam por estarem alegres. A palavra que eles usam é justamente alegria."

A estreia oficial de Fogo na Floresta no Festival Internacional de Documentários "É Tudo Verdade" foi nesta quinta-feira (27) no Centro Cultural São Paulo. Em seguida, o filme faz o circuito de premiações nacionais, com presenças na Virada Sustentável no Rio de Janeiro e festival Ecofalante. No final de junho, vai parar no YouTube, na opção 360º. Fora do País a distribuição ainda não foi definida, mas ela certamente virá. "A atenção e a audiência fora do Brasil tendem a ser até maiores", aponta Bruno Weis, coordenador de comunicação do ISA.

É que o poder da empatia é universal.

Para mais informações sobre o Festival "É Tudo Verdade", acesse o site do evento.