ENTRETENIMENTO

Uma conversa séria sobre alimentação e saúde com a chef Paola Carosella

Jurada do 'MasterChef' falou sobre a indústria da comida em canal no YouTube.

26/04/2017 17:10 -03 | Atualizado 27/04/2017 09:52 -03
Reprodução/YouTube

Diretor do documentário Quebrando Tabu, o cineasta Fernando Grostein Andrade convidou a chef Paola Carosella para participar de um vídeo em seu canal no YouTube, que traz uma pergunta provocativa no título: Fast Food é Droga?

Com a ajuda de artigos e estudos científicos recentes, Grostein propõe uma discussão que compara os danos causados por junk food (comida-lixo, em tradução literal) aos causados por drogas ilícitas como cocaína e heroína.

Famosa jurada do MasterChef Brasil, dona de restaurante e café badalados em São Paulo, além de uma pessoa com conhecimentos apurado sobre alimentos, Paola aparece durante os 17 minutos de vídeo.

Em sua fala, a chef argentina apresenta um panorama conciso sobre a indústria da comida e sua influência na explosão de distúrbios relacionados à (má) alimentação que se deu no Brasil e no mundo a partir das década de 1970.

Reprodução/YouTube
Em vídeo, cineasta propõe discussão em que relaciona efeitos de drogas e de alimentos industrializados.

A mudança no vínculo das pessoas com os alimentos nas últimas décadas é um dos principais pontos levantados pela chef. "O nosso relacionamento com a comida era completamente diferente do que é hoje em dia, quando a comida deixou de ser aquilo que a gente produzia para comer e virou um negócio", afirma Paola no vídeo.

A chef explica que com a nova rotina de trabalho, as pessoas deixaram de ter acesso ao cultivo dos alimentos. Nesse contexto, determinados grãoes e alimentos viraram commodities. Ou seja, quanto mais pessoas compram esses alimentos, maior o lucro dos poucos que retém o controle da produção.

"Nós somos espécies de escravos de açúcar, trigo, soja e de determinados tipos de grãos que estão presentes em toda a nossa comida. E que são muito baratos na teoria", compara.

Para aprofundar a discussão sobre a problemática da comida industrializada especificamente no universo infantil, Paola recorda o domingo em que cozinhou para alunos da Escola Estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, durante as ocupações de 2016.

A chef descreve o tipo de alimentação com que se deparou na escola:

"Quando eu fui na escola Fernão Dias, sabe o que era a comida? Eram sacolas a vácuo de cubos de frango cozidos em óleo de soja, bolinhos de carne cozidos em óleo de soja, feijão cozido em óleo de soja; e o café da manhã e o lanche da tarde era uma batida sabor côco feita a base de açúcar, xarope de milho, leite em pó, essência artificial de côco e corante artificial. Em tudo o que eles comiam tinha óleo de soja, açúcar e xarope de milho. Em tudo."

E prossegue:

"Por isso que você tem agora todas essas pessoas intolerantes ao glúten. Por isso que temos alergias que antes não tínhamos. Porque antes a gente comia menos e muito mais variado. Hoje comemos muito, mesmo não tendo dinheiro, a mesma coisa o tempo inteiro."

Paola classifica como "violência" a falta de atenção do governo a esse cenário.

"Acredito que não há pior violência do que um governo não se importar com educar e com trazer dignidade para as futuras gerações. E dar essa comida de merda que se dá nas escolas é uma violação a todos os direitos. É criar uma comunidade de pessoas que não vão nunca dar valor à comida (...) Se você é cozinheira, você quer cozinhar. Não quer abrir um pacote à vácuo e jogar numa panela para aquecer. Você não sabe o cheiro horroroso que tem essa comida. Parece que você está aquecendo comida de cachorro. Isso é violência."

Durante a conversa com Grostein, Paola cita números alarmantes como o que aponta que "quase metade das crianças brasileiras estão perto da obesidade ou já são obesas". De acordo com a chef, a mudança desse cenário requer uma série de mudanças, iniciadas principalmente no campo da educação.

"Falta educação para aprender escolher, conhecer quais são as outras possibilidades (de alimentação), faltam políticas públicas que nos ajude a comer diferente. Cultura, basicamente", enumera.

Ao final do vídeo, ela esclarece que também é contra qualquer tipo de radicalismo quando o assunto é alimentação.

"Eu sou contra os radicalismos. Porque obviamente o oposto a tudo isso é o radicalismo de: 'não pode comer açúcar nunca' 'não pode comer gordura nunca', 'não pode comer farinha nunca'. Aí você dá outro espaço para aquela indústria que vende tudo que é 'glúten free', 'shugar free'(...) Na verdade, você tem que comer comida. E às vezes você vai comer açúcar (...) O problema é você comer açúcar no café da manhã, açúcar no almoço, açúcar no chá da tarde, açúcar no lanchinho."

Segundo a chef, mais problemático ainda é o consumo de refrigerante, conhecido vilão dos alimentos – seja você criança ou adulto. Ela descreve a bebida como "sacanagem". "Porque não traz absolutamente nada, te enche de açúcar e vicia", afirma.

O vídeo traz ainda a participação de uma nutróloga Cristiane Coelho, da pesquisadora especialista em drogas Ana Paula Pellegrino e do jornalista Pedro Bial. Assista no player abaixo:

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