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Por que o ataque de Trump na Síria deixa os Estados Unidos no precipício de uma nova guerra

E as consequências podem ser mais graves que as da invasão do Iraque.

21/04/2017 15:50 -03 | Atualizado 21/04/2017 16:40 -03

Uma semana depois de o governo Trump lançar um míssil de cruzeiro contra a base aérea síria de Shayrat, não é nenhuma surpresa que o ataque tenha aumentado perigosamente as tensões na guerra civil do país, incentivando as forças que visam manter um estado de caos no país. Resta saber o que acontece depois que a poeira assentar e os impactos reais do ataque atingirem um ponto crítico, especialmente no país e na região. Até agora, todos os sinais apontam para mais instabilidade e menos diplomacia nos próximos meses e anos, com o potencial de uma guerra no Oriente Médio aparentemente cada vez mais provável.

O ataque ocorreu num momento sensível, quando aliados regionais dos Estados Unidos pressionavam por uma maior intervenção americana para enfrentar a percebida influência iraniana; os iranianos estavam se preparando para uma eleição presidencial na qual o presidente centrista Hassan Rouhani pode ser desafiado pelos conservadores; e as investigações de longo prazo sobre as supostas ligações ilícitas de Trump com a Rússia ainda pairavam no ar antes da visita do secretário de Estado Rex Tillerson a Moscou. Enquanto isso, a guerra síria entrou em seu sétimo ano, e o governo sírio e os representantes da oposição se reuniram para negociações cara a cara pela primeira vez, criando esperança em uma solução política para a crise.

O ataque de Trump mudou essa dinâmica e nos colocou no caminho da confrontação. Seus atos na Síria vão desencadear as seguintes dez conseqüências e efeitos colaterais que, juntos, podem dar origem a um imbróglio ainda pior que o que se seguiu à Guerra do Iraque.

As relações russo-americanas estão ficando ainda mais frias, graças ao ataque de Trump na Síria.

1. O ataque destrói a esperança de um recomeço para as relações entre Estados Unidos e Rússia, colocando a segurança global em risco.

A eleição de Donald Trump trouxe esperanças de que a maltratada relação Estados Unidos-Rússia pudesse melhorar e, com ela, as crises na Síria, no Afeganistão e no Iêmen. As amargas tensões entre as potências mundiais só têm servido para exacerbar os conflitos regionais. A colaboração em questões como o terrorismo certamente melhoraria as perspectivas de uma mudança mais duradoura e positiva. Mas a controvérsia doméstica em torno dos supostos laços de Trump com a Rússia provou ser um obstáculo significativo para uma détente entre americanos e russos.

Visto neste contexto, o ataque de Trump pode ter sido em parte uma tentativa de enfraquecer essas acusações. O filho de Trump, Eric, apoiou esta teoria, afirmando: "Se tem uma coisa que a Síria tenha feito é validar o fato de que não há nenhuma ligação com a Rússia." Com Tillerson em Moscou, temos de esperar para conhecer o efeito preciso deste ataque nas relações Estados Unidos-Rússia, mas a situação é bem mais fria do que ambos podem ter esperado. Na verdade, o presidente russo Vladimir Putin já indicou que a confiança "se deteriorou" entre os dois poderes antes do encontro com o secretário de Estado, e Trump acrescentou que a relação "pode ​​estar em seu ponto mais baixo". Se houver novos ataques, elimina-se qualquer possibilidade de cooperação entre Estados Unidos e Rússia e coloca-se em risco a estabilidade regional e internacional.

Antes de tirar conclusões precipitadas sobre a culpa de Assad, deve-se conduzir uma investigação independente.

2. Ao imediatamente culpar Assad, Trump estabelece um precedente perigoso para a intervenção americana.

Como Trump, o ex-presidente Barack Obama enfrentou duras pressões domésticas e externas para atacar a Síria e derrubar o presidente Bashar Assad após o ataque químico de Ghouta, em 2013. No entanto, Obama resistiu às pressões, pois o diretor de Inteligência Nacional James Clapper, e mais tarde também investigadores independentes e as Nações Unidas, expressaram dúvidas sobre o papel do governo sírio no ataque. Hoje, há dúvidas parecidas sobre a ligação do governo sírio com o ataque químico de Khan Sheikhoun, não só por parte de Rússia e Irã, mas também de figuras como o ex-inspetor de armas da ONU Scott Ritter, um dos líderes das críticas de que o Iraque não tinha armas de destruição em massa.

No entanto, ao contrário de Obama, Trump imediatamente acusou Assad, sem extensa deliberação dentro do governo dos Estados Unidos e muito menos uma investigação independente. Se descobrir-se que Assad não foi o responsável, os verdadeiros perpetradores que querem derrubar o presidente sírio se sentirão incentivados a repetir as mesmas atrocidades para desencadear uma intervenção americana. Putin já alertou que novas tentativas de "incriminar" Assad estão em curso. Se os Estados Unidos comprarem essa versão, vão entrar em um conflito em nome de atores verdadeiramente nefastos, capazes de cometer atos hediondos e encobri-los à custa dos outros.

Rejeitar uma investigação sobre o ataque químico faz com que o ataque pareça menos justificado.

3. Os ataques de Trump não terão legitimidade enquanto Washington evitar uma investigação independente.

Em conversas telefônicas com os ministros das Relações Exteriores da Rússia e da Argélia, com Federica Mogherini, chefe da política externa da União Européia, e com outros líderes mundiais, o chanceler iraniano, Javad Zarif, defendeu que uma comissão internacional investigue o ataque e certifique quem são os culpados, para que eles possam ser responsabilizados ​​e punidos adequadamente.

O objetivo do Irã é estabelecer os detalhes do ataque químico e fazer com que os Estados Unidos respondam por mais um ataque contra um país membro da ONU. Moscou também descreveu o disparo dos mísseis como um "ato de agressão" e está unido com o Irã neste objetivo. A Rússia pediu uma investigação completa e imparcial iniciada pela Organização para a Proibição de Armas Químicas. Se os Estados Unidos se opuserem, reforçarão a posição de Teerã e Moscou de que Washington não tem provas sólidas ligando Assad ao ataque químico e que o disparo dos mísseis americanos teve base legítima.

A estratégia de política externa de Trump está seguindo os passos daquelas que levaram ao fracasso.

4. Voltar a adotar uma política externa unilateral é o caminho do fracasso.

Ações americanas unilaterais no Afeganistão, no Iraque e na Líbia custaram trilhões de dólares, desestabilizaram regiões inteiras, levaram à morte de milhares de soldados norte-americanos, mataram ou deslocaram milhões de civis e fortaleceram grupos terroristas em todo o mundo. O próprio Trump reconheceu isso durante sua campanha presidencial. Obama também estava ciente desses fracassos e favoreceu as políticas multilaterais, cuja principal conquista foi o acordo nuclear do Irã. Os ataques de Trump na Síria representam um retorno a uma abordagem unilateral, o que promete ter os mesmos resultados desastrosos para a região, para os Estados Unidos e para o mundo.

Derrubar Saddam não tornou o Iraque mais estável.

5. Defender a mudança do regime só vai criar mais caos, como mostra a história.

Os Estados Unidos têm um histórico de levar a cabo políticas intervencionistas em vários países ao redor do mundo. Uma das principais razões para a relação hostil entre Estados Unidos e Irã hoje é ao antigo desejo americano de mudança de regime em relação ao Irã. Obama foi o primeiro presidente americano a anunciar que estava abandonando a abordagem de mudança de regime no Irã e até mesmo demonstrou arrependimento em relação à intervenção na Líbia.

Enquanto isso, Trump era bastante único ao criticar as políticas de mudança de regime. No entanto, o ataque na Síria reacende preocupações de que os Estados Unidos estejam retomando essa estratégia. O histórico das políticas de mudança de regime nos Estados Unidos -- em lugares como o Afeganistão, a Líbia e o Iraque -- mostra que elas só aumentaram a instabilidade. Continuar essa abordagem só vai garantir mais caos para a região e além.

Forçar a Rússia a tomar decisões difíceis entre Trump e Assad não beneficia ninguém.

6. Os Estados Unidos estão deixando a Rússia numa situação complicada, sem boa solução para qualquer um dos lados.

Embora os Estados Unidos tenham muitos aliados e bases militares no Oriente Médio, a Síria, onde Moscou tem uma presença militar estabelecida, é o principal aliado da Rússia na região. Voltar-se contra o governo sírio em um momento tão crucial prejudica a reputação que Putin criou para Moscou no Oriente Médio e além. O Kremlin se concentrou em aumentar sua influência global, e os movimentos que fizer agora serão críticos para sua posição global. Perder Assad como um aliado certamente irá manchar a credibilidade das alianças russas, mesmo diante de uma pressão internacional tão imensa.

Além disso, os comentários da Casa Branca de que a Rússia está tentando "acobertar" o que aconteceu em Khan Sheikhoun só serão percebidos pela Rússia como uma pressão insultante de Trump para forçar a mão de Putin. Se Trump decidir realizar ataques adicionais na Síria, a Rússia pode decidir que sua reputação está em jogo e se sentir compelida a ativar seus sistemas de defesa antimísseis na Síria, especialmente se seu pessoal e equipamento não tiverem tempo suficiente para fugir do perigo, como ocorreu no ataque de Shayrat. Trump está criando uma situação em que ambos os lados não têm outra escolha que não uma escalada militar, com consequências potencialmente desastrosas.

Milhares foram mortos por armas químicas fornecidas pelo Ocidente durante a guerra Irã-Iraque.

7. Os dois pesos e duas medidas com relação às armas de destruição em massa só vão aumentar a presença global desse tipo de armamento.

A abordagem política e seletiva dos Estados Unidos em relação às armas de destruição em massa, ou ADMs, continua a ter consequências negativas para a paz e a segurança globais. Durante a Guerra Irã-Iraque, o Ocidente forneceu ao falecido ditador iraquiano Saddam Hussein apoio material, logístico e político para lançar ataques químicos contra o Irã e contra os próprios iraquianos

Ao todo, cerca de 100 000 iranianos foram mortos ou feridos, incluindo inúmeros civis e crianças. Somente em Halabja, cerca de 5 000 iraquianos foram mortos, incluindo centenas de crianças. O argumento falso dos Estados Unidos sobre as ADMs para a invasão do Iraque, em 2003, também paira no ar quando surgem novas acusações americanas sobre o uso desse tipo de armamento.

O fato de os Estados Unidos usarem agora a morte de cerca de 70 civis sírios para lançar um ataque de mísseis contra a Síria reflete essa inconsistência. Usar dois pesos e duas medidas para alcançar seus próprios objetivos e fazer política com vidas civis só vai eliminar as esperanças de alcançar um mundo livre de armas de destruição em massa e tornar seu uso mais provável.

Os ataques da coalizão liderada pelos Estados Unidos na Síria e no Iraque, incluindo Mosul, resultaram em um grande número de vítimas civis.

8. A seletividade da América em relação ao valor da vida civil só causará mais mortes civis.

Nas semanas antes da tragédia de Khan Sheikhoun, cerca de 200 civis iraquianos foram mortos em um único ataque aéreo americano em Mosul. O chamado Estado Islâmico também decapitou recentemente 33 sírios em um incidente e 12 em outro. De acordo com a organização sem fins lucrativos Airwars, somente em março os ataques aéreos da coalizão liderada pelos americanos causaram a morte de até 1 000 civis iraquianos e sírios.

O governo Trump não fez nada para evitar essas calamidades humanitárias, mas ao mesmo tempo lançou ataques militares para vingar a morte destes 70 sírios. Isso demonstra que a América usa seletivamente as mortes de civis para avançar seus objetivos políticos. Esta abordagem só pode levar à perda de mais vidas civis.

Se o Irã for provocado pelos americanos, vai retaliar.

9. O uso de aliados árabes e a confrontação com o Irã só vão provocar Teerã.

Hoje, é comumente reconhecido em Washington que os países árabes do Golfo Pérsico estejam colocando imensa pressão sobre Trump para enfrentar a suposta influência iraniana maligna na região. Esses países afirmam que, se os Estados Unidos acham "difícil cortar a cabeça da cobra, então a segunda melhor opção é começar a cortar o rabo da cobra". Trump telefonou para o rei saudita Salman imediatamente após o ataque, o que sugere um dos objetivos da ação era satisfazer os aliados regionais dos americanos.

Essa idéia de "guerras americanas com dinheiro árabe" promete não só piorar os conflitos regionais, mas também colocar vidas de militares americanos em risco desnecessário. O Irã, por sua vez, não ficará calado diante das agressões e usará suas capacidades regionais -- incluindo seus aliados endurecidos pelos combates terrestres na Síria e no Iraque -- para aumentar o custo de eventuais ataques.

Ignorar as leis internacionais estabelece um precedente perigoso para o processo de paz.

10. A violação da Carta da ONU torna mais provável que outros cruzem as linhas de paz internacionais.

Com base na Carta das Nações Unidas, o Conselho de Segurança da ONU é o único órgão internacional que pode identificar ameaças à paz internacional e decidir sobre eventuais punições. Ações unilaterais norte-americanas constituem uma violação flagrante da Carta da ONU e servem para desacreditar o órgão como um ator significativo. Tais ações são, portanto, um grande golpe para a paz internacional e incentivam outras potências a tomar medidas unilaterais -- uma das razões que provavelmente levaram a Rússia a vetar a resolução da ONU sobre o ataque da Síria. Enquanto isso, nos Estados Unidos, muitos também afirmam que as ações do presidente Trump violaram a Constituição americana.

Trump infelizmente decidiu pelo caminho militar antes de dar oportunidade à diplomacia.

Trump leva os Estados Unidos para um caminho extremamente arriscado com os ataques de Shayrat. Os Estados Unidos estão agora no precipício de outra guerra no Oriente Médio, que promete ser um atoleiro ainda maior que o do Iraque e só servirá para alongar o sofrimento do povo sírio. A realidade é que, para a Síria, não há solução militar -- apenas política. E Trump, infelizmente, decidiu pelo caminho militar antes de dar oportunidade à diplomacia.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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