ENTRETENIMENTO

Uma visão dura e realista da Guerra no Iraque está na Netflix. E ela é dirigida por um brasileiro

O diretor paulista Fernando Coimbra é nome por trás do filme de guerra 'Sand Castle'.

20/04/2017 20:09 -03 | Atualizado 20/04/2017 20:47 -03

Fernando Coimbra é o primeiro diretor brasileiro de um filme original da Netflix. O feito inédito, porém, não desperta grandes sentimentos no diretor paulista – seja de orgulho ou preocupação. "Pessoalmente não me faz nem melhor nem pior", ele conta ao HuffPost Brasil. "Ainda vou descobrir o que é ter feito um filme para a Netflix".

O longa em questão é Sand Castle (Castelo de Areia), cuja estreia global na plataforma de streaming ocorre nesta sexta-feira (21).

A trama, que se passa durante a Guerra do Iraque em 2003, acompanha um grupo de soldados enviados para a Baquba, capital da província Diylaia, para consertar uma estação de bombeamento de água danificada por bombas americanas.

Mais conhecido pelo premiado longa de estreia O Lobo Atrás da Porta (2013), Coimbra iniciou sua relação com a Netflix em 2015, quando dirigiu dois episódios da segunda temporada de Narcos. O convite para realizar o filme foi recebido com cautela.

Até então, o cineasta não tinha intimidade com o universo bélico. Por conta de um problema ortopédico, ele conta que acabou não prestando o serviço militar na juventude. Essa reserva com a temática da guerra foi vencida quando o diretor leu o roteiro, assinado por Chris Roessner – baseado em sua experiência pessoal durante a Guerra do Iraque.

"O que me atraiu nessa história foi a forma como ela é contada. Não há uma visão gloriosa ou heróica da guerra. Não tem herói, nem essa coisa 'americanista' forte de 'nós podemos', 'nós fazemos', 'nós trazemos a liberdade ao seu país'", revela.

Divulgação
Fernando Coimbra orienta os atores Nicholas Hoult, Fernando Coimbra e Beau Knapp no set de filmagem de 'Sand Castle'.

Coimbra conta que a proposta do filme é apresentar o oposto disso: "O filme traz uma visão mais realista e dura. A guerra é uma experiência bem complicada e pode deixar uma pessoa com marcas para sempre", diz.

Essa experiência é vivida por um elenco estelar, que reúne os atores Glen Powell (Estrelas Além do Tempo), Henry Cavill (O Homem de Aço), Logan Marshall-Green (Homem Aranha: De Volta ao Lar) e Nicholas Hopult (Mad Max: Estrada da Fúria).

Hopult vive o protagonista da história, Matt Ocre, soldado que não tem vocação para o serviço militar, mas que tem que conseguir a ajuda dos iraquianos - derrotados após ação dos EUA em Bagdá - para concluir seu trabalho.

"A jornada desse personagem ficou na minha cabeça durante dias depois que li o roteiro", revela Coimbra.

Para realizar o filme, o diretor passou quatro meses na Jordânia, zona neutra do Oriente Médio, próximo à fronteira da Síria, onde teve a consultoria de ex-combatentes, além de longas conversas com Roessne, roteirista do longa. "A minha intenção era discutir a diferença de motivações para guerra que existe entre soldados e superiores, algo que ficou muito claro quando li o roteiro", conta.

Satisfeito com o resultado, Coimbra acredita que o filme possa servir como uma ferramenta de reflexão sobre o que foi a Ocupação do Iraque - iniciada pelos EUA em 2003 e encerrada em 2011 - e como a lógica do conflito se estende a outros lugares do mundo.

"O filme mostra que por trás da Guerra do Iraque houve interesse econômico e corporativista. O interesse de tomar o país e entregar para grandes corporações privadas. Tudo foi feito por meio de relações com a iniciativa privada, diferente de Vietnã e de outros conflitos. Todas as guerras tiveram interesses econômicos, mas o que ocorreu no Iraque foi algo brutal, foi a tomada de um país estável - que liderava economicamente aquele bloco no Oriente Médio - e repasse de tudo aquilo para corporações a fim de desestabilizá-lo. A saúde e a educação pública de qualidade foram destruídas e entregue para ser tudo privado. E a gente vê isso acontecer aqui, no Brasil, na Argentina, no Egito e em muitos outros países agora."

Sand Castle chega à Netflix em um momento de intensos conflitos em diferentes partes do globo.

Para citar eventos recentes, no início de abril, província de Idlib, no noroeste Síria foi alvo de um ataque com armas químicas (atribuído ao regime de Bashar al Assad) que resultou em 86 mortos, incluindo 30 crianças. Dias depois, os EUA lançaram um ataque-supresa com mísseis contra o regime sírio - que atingiram a base aérea de Shayrat, na região norte do país.

Questionada sobre a atualidade do filme, tendo em vista o cenário de intensos conflitos – envolvendo principalmente os EUA, sob o comando de Donald Trump -, Coimbra diz que o longa pode ser ajudar numa discussão mais profunda sobre a experiência da guerra.

"O que Trump está fazendo agora é algo totalmente previsível. E ele vem novamente com aquele discurso: "Estamos defendendo nosso país", "estamos defendendo nossa democracia, nossa liberdade", o que é uma hipocrisia. E Sand Caslte mostra justamente esse tipo de discurso e, ao mesmo tempo, você vê o que está acontecendo - que é algo completamente diferente."

O ensaio (quase nu) dos veteranos de guerra amputados