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A guerra cibernética é diferente, mas as causas e a conduta no conflito seguem humanas

A segurança neste século vai depender mais de nossa imaginação moral do que de grandes avanços tecnológicos.

19/04/2017 11:40 -03 | Atualizado 19/04/2017 12:33 -03
gremlin via Getty Images

No último quarto de século, a revolução da tecnologia da informação transformou as relações entre pessoas e entre esstados, incluindo a conduta em conflitos.

Para as Forças Armadas americanas, a manifestação dessa revolução cobrem do espectro completo do dramático ao prosaico. Aeronaves controladas remotamente, navios e sistemas terrestres são equipados com sistemas cada vez mais sofisticados e armas extremamente precisas. Menos visíveis, mas também muito importantes é o desenvolvimento da capacidade de integrar e analisar vastas quantidades de informações de várias fontes e de determinar com precisão a localização de elementos amigos e inimigos. Finalmente, não podemos ignorar o crescimento da dependência em email, videoconferências e programas como o PowerPoint para comunicar e compartilhar informações e planejar e executar as tarefas de comando e controle.

Tecnologias que não existiam na época da primeira Guerra do Golfo hoje são tão fundamentais para a condução de operações militares que é difícil imaginar operar sem elas. E o crescimento da internet, das redes sociais e agora da "internet das coisas" representa um estágio ainda mais avançado da revolução da tecnologia da informação, cujas consequências ainda estão se manifestando. De qualquer modo, algumas implicações preliminares de tais capacidades cibernéticas nas guerras já são claras.

Está claro que capacidades ofensivas cibernéticas estão à frente das opções defensivas e de retaliação.

1. O ciberespaço é um campo de batalha completamente novo, que se soma aos domínios existentes de terra, mar, mar profundo e espaço.

Essa realidade tem ramificações militares enormes no que diz respeito a doutrina, operações, estruturas organizacionais, treinamento, materiais, desenvolvimento de lideranças, exigências de pessoal e instalações militares. Mais significativamente, ela acrescente um novo e poderoso elemento ao desafio de "combates em múltiplos domínios", nos quais já estamos envolvidos e para os quais precisamos estar mais bem preparados no futuro.

2. A tecnologia acrescenta um novo elemento à tendência atual de dispersão e fragmentação do poder global.

Nenhum país contribuiu mais para o crescimento da internet e do mundo digitalizado que os Estados Unidos – e nenhum país desenvolveu capacidades cibermilitares mais sofisticadas. Mas a natureza dessas tecnologias em último caso representa mais uma ruptura desafiadora para a proeminência desfrutada pelos Estados Unidos desde o fim da Guerra Fria. Outros países exploram o potencial da ofensiva cibernética de maneiras cada vez mais sofisticadas e diabólicas.

Exemplos disso incluem o uso do ciberespaço por organizações extremistas, tais como o chamado Estado Islâmico e a Al Qaeda, com o objetivo de inspirar ataques terroristas à distância; pela Rússia, para lançar ataques ideológicos e políticos com o objetivo de minar a coesão e a autoconfiança de democracias ocidentais; e pela China, para obter o know-how tecnológico que acelera sua já rápida ascensão e dribla a vantagem militar e industrial americana.

3. Capacidades cibernéticas estão borrando as fronteiras entre guerra e paz e entre espaços civis e militares.

Por vários motivos, essas distinções vêm se erodindo nas últimas décadas, algo que só se acelera com os desenvolvimentos tecnológicos. Hoje em dia, é igualmente claro que as capacidades ofensivas cibernéticas estão à frente das opções defensivas e de retaliação. Enquanto persistirem as dificuldades em identificar e atribuir responsabilidade por ataques cibernéticos, essa realidade deve minar as políticas de dissuasão e incentivar agressões no ciberespaço.

Mas, ao mesmo tempo em que as transformações tecnológicas nos inspiram a especular sobre o futuro da guerra, talvez os insights mais importantes sobre a era cibernética estejam no passado. Embora a tecnologia prometa gerar rupturas na conduta de guerra, é igualmente importante reconhecer o que ela não é capaz de alterar – as causas da guerra, que são do caráter da humanidade. Como Tulcídedes documentou mais de dois milênios atrás, são as forças primordiais do medo, da honra e do interesse as fontes do conflito, e muitas vezes as escolhas de líderes individuais são os elementos determinantes da evolução de um conflito.

De fato, foi por essa razão que, quando vestia uniforme, argumentei contra o conceito de "guerra centrada em redes" – proposto no fim dos anos 1990 – e em vez disso defendi que uma formulação melhor seria guerra facilitada por redes, mas centrada em lideranças. Ainda são os líderes, afinal, quem determina estratégias e toma as decisões chave. Mesmo com o avanço de armas autônomas e outras capacidades similares, os parâmetros de ação de tais sistemas continuará sendo estabelecido por seres humanos.

A tecnologia sozinha não vai condenar nem salvar o mundo.

Ademais, a história sugere que a capacidade de inovação da humanidade costuma estar à frente de nosso pensamento estratégico e do desenvolvimento de normas éticas. O desenvolvimento metódico de doutrinas a respeito das armas nucleares pelos "Sábios do Armagedon", nos anos 1950 e 1960, que muito ajudaram na prevenção de um apocalipse nuclear, parece ter sido a exceção, não a regra. É mais típica a experiência das potências europeias do começo do século passado, que não souberam reconhecer que os exércitos industrializados que elas estavam reunindo eram os componentes de uma máquina de enorme poder destrutivo, que viria a causar massacres que nenhum dos combatentes julgara possível.

Enquanto nós e outras potências participamos de uma corrida para desenvolver capacidades cibernéticas de ponta – avançando rapidamente em áreas como robótica, bioengenharia e inteligência artificial --, seria prudente devotar a mesma energia e atenção para o estudo das implicações de nossa engenhosidade. A segurança neste século vai depender mais de nossa imaginação moral – e da nossa capacidade de desenvolver conceitos de comedimento -- do que de grandes avanços tecnológicos.

Isso, por sua vez, sugere uma realidade definitiva sobre a guerra na era cibernética. A despeito das inovações futuras, a tecnologia sozinha não vai condenar nem salvar o mundo. Para o bem ou para o mal, nosso destino permanece teimosamente humano.

Este texto foi originalmente publicado no The World Post e traduzido do inglês.

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