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A estratégia da premiê britânica para ser... premiê britânica

Conservadora e feminista, Theresa May quer legitimidade do voto popular para comandar o Brexit.

19/04/2017 19:20 -03 | Atualizado 30/06/2017 09:58 -03
Montagem/Fawcett Society/Reuters
Theresa May espera conseguir no voto popular legitimidade para ser premiê do Reino Unido.

48 anos separam a atual premiê inglesa Theresa May da pequena Theresa de 12 anos do condado de Sussex. Naquela idade, ela sonhava em ser política e ambicionava ser a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra do Reino Unido.

Seus planos foram frustrados quando Margareth Thatcher conseguiu esse feito em 1979. Amigos dizem que ela ficou muito irritada.

Nesta semana, a ocupante do endereço 10 na Downing Street de Londres surpreendeu os britânicos ao propor a antecipação das eleições gerais de 2020 para este ano. A política conservadora de 60 anos busca ter a legitimidade do voto popular para conduzir o Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia.

Com popularidade em alta, May espera que o novo Parlamento eleito em 8 de junho tenha maioria conservadora e, assim, a indique como primeira-ministra.

May só se tornou a mulher mais poderosa do Reino Unido, em julho de 2016, após a renúncia do ex-premiê David Cameron, que tomou essa decisão depois que sua campanha contra o Brexit foi derrotada pela maioria dos britânicos.

A então ministra do Interior também fez campanha pela permanência de seu país na União Europeia, mas teve apoio irrestrito do Partido Conservador para tocar o processo de saída. "Brexit significa Brexit", discursou assim que tomou posse.

A intensa oposição que May e Brexit enfrentam no Parlamento foi um dos principais drives da decisão dela de convocar as novas eleições e conseguir maioria.

Personalidade

Theresa May é conhecida por ser reservada. Odeia conversas triviais e manter conchavos no Parlamento. Ela pode vociferar um duro discurso contra a corrupção na Federação Policial e ousar chamar seu próprio partido de desagradável, mas jamais vai ser vista tomando um café com os colegas em tardes londrinas tipicamente cinzas.

A alcunha de "a dama de gelo" não é por acaso: é conhecida pela timidez e certa antipatia, de acordo com parlamentares. São muitos os relatos de MPs que a consideram "fria", e o antigo vice primeiro-ministro Nick Clegg declarou "ter encontros muito difíceis com ela".

Enquanto os colegas saíam para beber pints em bares tarde da noite após o expediente, ela preferia ter uma bom e calmo jantar com o marido em casa.

Durante os anos de atividade política, teve embates com muitos colegas. Colecionou desafetos em sua trajetória, mas a reputação ilibada a levou a triunfar num ambiente em que cada vez mais políticos se viam envolvidos em escândalos.

Sua habilidade política e competência em gestão de crise são opiniões unânimes entre seus colegas. May também possui respeito dentro do partido, e sua dureza se tornou sua marca política.

Extremamente detalhista e dedicada, chegou a trabalhar até de madrugada em momentos de crise do governo conservador. É tachada como um seguro par de mãos: "sólida, confiável, mas perspicaz o suficiente para fazer escolhas difíceis", segundo o jornal The Guardian.

Girl Power

Em uma famosa foto, a premiê posa uma camiseta com a estampa "É assim que uma feminista se parece". De fato, em sua trajetória, May tem sido protagonista no movimento por igualdade de gênero sobretudo na política do Reino Unido.

Primeira mulher a liderar o Partido Conservador, em 2002, ainda é uma das poucas mulheres no alto escalão do partido e segunda primeira-ministra na História do Reino Unido.

Determinada, recusou-se em 2001 a fazer parte do Carlton Club, clube dos conservadores, em protesto à política interna que cerceava direitos para as mulheres. Elas não podiam, por exemplo, usar o bar ou votar para a diretoria.

Criou em 2006 a associação Women2Win, que visa a aumentar a participação de mulheres no Partido Conservador e serve como confidente e modelo para aspirantes a deputadas. Amigos dizem que, em jantares, ela sempre conversa com outras mulheres e se interessa genuinamente por suas histórias. Uma de suas bandeiras é aumentar a participação feminina no governo.

Em 2014, ela se envolveu fortemente na coordenação do Girl Summit do Reino Unido, no qual anunciou medidas protetivas a sobreviventes de mutilação genital e de repressão a essa prática ilegal. Na época, persuadiu Cameron a encampar essa batalha e conseguiu lançar um programa de governo estimado em 1,4 milhão de libras para atacar o problema.

Também no final daquele ano, apresentou uma lei contra relacionamentos abusivos, oferecendo pena de até cinco anos na cadeia e multa para violência psicológica. May queria "igualar à tortura" esse tipo de abuso na lei.

Polêmicas

- Direitos humanos: Como ministra do interior, declarou que o problema do Reino Unido é o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, que impede os ingleses de aplicarem suas leis e os deixa de mãos atadas.

- Imigração: Assumiu o compromisso de reduzir a imigração e para isso endureceu a política migratória, com campanhas hostis e discursos que atribuíam problemas ao aumento da entrada de estrangeiros no país.

- Donald Trump: Em janeiro deste ano, May foi flagrada de mãos dadas com o presidente dos Estados Unidos na Casa Branca. Depois, recebeu numerosas críticas dos trabalhistas e foi alvo de protestos de britânicos por convidar Trump a visitar o Reino Unido para tratar de parcerias comerciais.

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