MULHERES

Por que o episódio final de 'Girls' me deixou furiosa

“Latching” acaba promovendo um monte de estereótipos sobre ser mulher e mãe.

18/04/2017 14:17 -03 | Atualizado 18/04/2017 14:18 -03
HBO

Como praticamente todo o mundo que conheço, assisti ao capítulo final de Girls na noite do último domingo (16). Eu não estava morrendo de vontade –estava cansada depois de passar sete horas viajando de carro com minha filha de 5 anos no domingo de Páscoa.

Mas o capítulo final da temporada final de Girls era um evento, você entende, e eu não queria que fosse estragado para mim por revelações no meu trabalho ou no Twitter. Por isso, consegui ficar de olhos abertos durante os créditos de abertura. Depois, à medida que fui assistindo, foi ficando com raiva.

Fiquei superacordada e morrendo de raiva.

A estas alturas você já deve saber o que acontece no episódio, mas, caso não saiba, é o seguinte: nossa anti-heroína Hannah teve seu bebê, a quem deu o nome de Grover. Marnie, sem norte e sem saber o que fazer na vida, se oferece para ajudar a criá-lo. As "amigas" se mudam para o interior do Estado, onde Hannah sofre para se adaptar à sua nova realidade (por exemplo, o fato de ter um bebê que depende dela) e também, especialmente, à amamentação. Esse é realmente o grande tema do episódio, intitulado justamente "Latching" (o ato de o bebê agarrar o mamilo para mamar).

Marnie, por sua parte, vira uma espécie de superbabá, e no final do episódio todo o mundo aprendeu lições sobre o que significa amadurecer e se desapegar.

Tudo ótimo. Só que, enquanto mostra as dificuldades de Hannah em adaptar-se à condição de mãe, "Latching" acaba promovendo uma série de estereótipos sobre como é ter bebês e ser mulher e mãe, coisas que eu esperava que Lena Durham e sua turma tivessem colocado de ponta-cabeça.

Eu entendo: as mães que acabam de dar à luz são pressionadas a amamentar seus bebês. Médicos, amigos, a internet, homens: todo o mundo tem uma opinião sobre o assunto, e a opinião geralmente é a mesma (é bom você amamentar seu filho, senão as consequências podem ser graves). Essa ideia generalizada deixa entender que, se você der mamadeira com fórmula a seu filho, ele será reprovado no prezinho, passará a vida com um resfriado interminável e, além disso, não vai amar você, que foi egoísta demais para dar seu corpo a seu nenê por ... quanto tempo mesmo? É melhor nem começar a discussão sobre quanto tempo é aconselhável amamentar ou quanto tempo é tempo demais. Ninguém sairia ganhando.

Quando minha filha nasceu, deixei claro –verbalmente e por escrito—aos profissionais do hospital que eu ia alimentá-la com fórmula. Mesmo assim, tive que aguentar uma enfermeira me perguntando por que eu não estava lhe dando o peito. Ela me mandou tentar. Eu falei para ela não se meter na minha vida (ah, além disso tive anestesia peridural no parto!).

Como já escrevi em textos anteriores, minha filha é saudável, esperta, me deixa maluca e é perfeita de todas as maneiras.

Então espere aí, por que estou tão furiosa? É porque, apesar do que dizem Lena Dunham e Jenni Konner (uma frase de Dunham: "Para nós, qualquer coisa que facilite seu dia, desde que você não esteja dando crack a seu bebê misturado ao leitinho dele, está tudo bem"), aquele episódio final acabou essencialmente reforçando a ideia de que fórmula faz mal ao bebê e que você não é mãe 100% se não tentar de tudo para amamentar seu filho no peito, mesmo que isso a impeça de relaxar o suficiente para ficar à vontade com seu recém-nascido, o que dirá curti-lo.

Vemos Hannah tendo dificuldade em fazer Grover agarrar o mamilo; a vemos usando um colete especial com bombinha extratora de leite materno, conectada a uma mochila, com duas mamadeiras penduradas (não chegamos a ouvir o barulho feito pela máquina, que parece o de Darth Vader e talvez seja a parte mais assustadora do aparelho inteiro); a ouvimos reclamando de tudo isso e dizendo que para Grover não basta estar tomando leite materno da mamadeira, porque mesmo assim eles não estão criando um vínculo estreito. "Ele me odeia!", Hannah chora.

Não pude deixar de pensar algo tremendamente deprimente: que essa é a mensagem que estava sendo passada a uma geração inteira (a maior parte da qual ainda sem filhos) na noite de domingo: que, quando chegar a hora de essas mulheres terem filhos, elas receberão o conselho "sábio" de que a amamentação é crucial para a formação do vínculo com seu bebê. Que qualquer outra coisa senão o contato entre mamilo e boca não é o bastante. E que, se você não o faz, corre o risco de estragar seus filhos e levá-los a odiá-la.

Que mensagem horrível, incorreta, opressora a transmitir em um mundo onde as mulheres já são bombardeadas com coisas suficientes para fazê-las se sentirem mal, especialmente depois de terem filhos. E especialmente porque essa mensagem é totalmente falsa.

Pergunte a qualquer mãe ou pai adotivo ou a qualquer mulher que por algum motivo não conseguiu aleitar seu filho no peito ou que simplesmente não quis fazê-lo. Amamos nossos filhos e eles (a não ser que sejam adolescentes) nos amam de volta.

E o que dizer dos pais e companheiros? Será que as crianças amam seus pais ou outras mães menos porque eles não têm seios cheios de leite? Nada disso. E muitos homens (como meu marido) ou companheiros que não deram à luz mas que tomaram parte no processo de alimentar o bebê com mamadeira desde o dia que ele nasceu lhe dirão que isso fez parte de seu processo de criação de um vínculo com o bebê e foi uma maneira de fazer com que se sentissem totalmente envolvidos no cuidado e na saúde de seu filho. Para mim, isso faz parte de ser uma mãe feminista: compartilhar com meu companheiro a responsabilidade de manter nosso filho vivo e saudável.

Hannah sofre de TOC desde que a conhecemos. Talvez, em algum momento futuro, sua obsessão com o aleitamento materno como caminho para criar um vínculo com Grover fosse entendida nesse contexto. Talvez pudéssemos vê-la dando sushi a seu filho antes de ele completar 2 anos ou deixando-o tomar um gole de seu café. Daríamos risada, reconhecendo que não é tão fácil na realidade traumatizar seu filho, desde que você lhe dê o amor e os cuidados essenciais.

Porque na noite de domingo não pude deixar de pensar que a Hannah que eu conheci –aquela garota que rompe estereótipos, que arranca as roupas em quase um episódio em cada dois, numa espécie de mensagem física de "vá se f....", que dorme com quem ela quer quando ela quer e como ela quer, que pede ajuda constantemente—essa Hannah teria sido menos intransigente com ela mesma e teria dado um pouco de fórmula a seu filho. E provavelmente a fórmula do tipo líquido, que nem é preciso agitar.

Ao mesmo tempo, ela teria transmitido uma mensagem realmente radical aos milhões de mulheres jovens que cresceram assistindo a Girls: quando chegar sua hora de virar mãe, você não precisa ceder à pressão, mesmo que sinta vontade disso. Faça as coisas do jeito que for certo para você, e todo o mundo ficará bem. Não apenas bem –todo o mundo ficará feliz.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

LEIA MAIS:

- Por que a cena de sexo oral em 'Girls' chocou tanto? (NSFW)

- ASSISTA: Elenco de 'Girls' levanta a voz para apoiar mulheres vítimas de violência sexual

25 selfies que mandam a real sobre a maternidade