POLÍTICA

Delação da Odebrecht: Desilusão de eleitores ajuda candidaturas de outsiders

Reforma política não deve gerar mudanças significativas e irá manter grandes partidos no jogo, avalia especialista.

15/04/2017 19:02 -03 | Atualizado 15/04/2017 21:03 -03
Nacho Doce / Reuters
Prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), pode ser beneficiado por efeito colateral da Lista de Fachin.

A ascensão de candidatos que negam a política deve repetir o resultado das urnas em 2016 e permanecer nas eleições de 2018, como resposta da população à Operação Lava Jato, de acordo com a avaliação de analistas.

Nesta terça-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Edson Fachin, autorizou investigações contra oito ministros de Estado, três governadores, 24 senadores, 41 deputados federais e um ministro do Tribunal de Contas da União, com base nas delações da Odebrecht.

Para o cientista político Valdir Pucci, da Universidade de Brasília (UnB), o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), é o principal beneficiado nesse cenário.

"Há uma previsão de dificuldade dos candidatos tradicionais nessa eleição, conforme foi demonstrado na eleição passada. O que cria a situação muito fértil para o outsider, o anticandidato, alguém que se coloque como antipolítico. O prefeito Doria é um nome forte por se colocar nessa posição", afirmou ao HuffPost Brasil.

Ao mesmo tempo em que nega a disposição a disputar a Presidência da República - e se mantém próximo de seu padrinho político e possível candidato ao Planalto, o governador Geraldo Alckmin - , o prefeito tem mantido uma postura de candidato.

Após a divulgação da Lista do Fachin, o tucano afirmou que as investigações são um desgaste para políticos tradicionais. "Embora investigação não signifique punição, é sempre um desgaste para a classe política de forma geral", afirmou a jornalistas em viagem oficial a Seul, na Coreia do Sul.

De acordo com três delatores da Odebrecht, Alckmin recebeu mais de R$ 10 milhões do grupo em caixa 2 para as suas campanhas ao governo paulista. Foram R$ 2 milhões em 2010 e R$ 8,3 milhões em 2014.

Durante a entrega de obras na rodovia Raposo Tavares, na quarta-feira (12), o governador negou as acusações de delatores e disse que prestará todos os esclarecimentos à Justiça.

Presidenciável tucano em 2014, o senador Aécio Neves (MG) é acusado de pedir R$ 15 milhões à empreiteira para campanha de 2014. Outra investigação apura o envolvimento em um suposto esquema de fraude em licitações na construção da Cidade Administrativa de Minas Gerais, estado que o tucano governou de 2003 a 2010.

Em nota, Aécio defendeu o fim do sigilo das delações. "Assim será possível desmascarar as mentiras e demonstrar a absoluta correção de sua conduta", afirmou.

Terceiro nome do partido de olho no Planalto, o senador José Serra (SP) é acusado envolvimento em fraude do processo licitatório na construção do Rodoanel Sul, em São Paulo, estado que governou de 2007 a 2010.

O ex-executivo da Odebrecht Pedro Novis afirmou que aproximadamente R$ 21 milhões foram repassados ao senador via caixa 2. Os pagamentos teriam sido feitos para as campanhas de 2002, 2004 e 2006.

Em nota, Serra negou irregularidades e afirmou que a abertura do inquérito será um oportunidade de demonstrar a "lisura de sua conduta".

Desilusão

Na avaliação de Valdir Pucci, a reforma política não irá mudar o jogo de poder entre os partidos e manterá as chances de as grandes legendas alcançarem sucesso nas urnas. Ele aponta que a adoção da lista fechada - em discussão na Câmara dos Deputados - pode contribuir para manter nomes de investigados na política.

Apesar de não apostar em uma transformação do sistema político, o especialista considera que o discurso de outsiders terá força, ainda que esses candidatos atuem dentro de partidos.

Se o eleitor identificar a pessoa como sendo antipolítico, contra práticas consideradas nefastas, associadas à corrupção, ao toma lá dá cá - seja com empresários, com a base ou com o Congresso -, esse político vai ter maiores chances.

Pucci destaca que Marina Silva (Rede), possível nome na disputa de 2018 e com discurso de outsider, não deve ter resultados expressivos nas urnas porque há uma percepção do eleitor de falta de posicionamento.

"Na tentativa de agradar a vários segmentos, ela não se posiciona sobre determinados fatos ou assuntos, o que demonstra a sensação de uma pessoa indecisa e fraca. Pode ser ruim ter essa fragilidade", afirma.

Outro pré-candidato para o Planalto que nega a política, apesar de ser deputado federal desde 1991, é Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Ele aparece em terceiro lugar nas intenções de voto, com 11,3%, de acordo com pesquisa realizada pelo instituto MDA, contratada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgada em fevereiro.

No primeiro cenário para o primeiro turno, com a presença do ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e do presidente Michel Temer (PMDB), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem 30,5% e Marina Silva, 11,8%.

O petista confirmou a pré-candidatura após ser citado na Lista de Fachin. "Vou disputar se me deixarem disputar e vou provar que esse país pode voltar a ser feliz", afirmou em entrevista à Rádio Metrópole, nesta quinta-feira (13).

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