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Como o mercado da carne do Brasil tenta se recuperar após operação da Polícia Federal

Quase um mês depois da deflagração da Carne Fraca, profissionais do setor ainda não sabem quais as reais consequências para a atividade.

15/04/2017 15:02 -03 | Atualizado 15/04/2017 15:38 -03
Arquivo EBC
Após a deflagração da Operação Carne Fraca, profissionais do setor ainda não sabem quais foram as reais consequências para o mercado.

Em 2017, o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária deve atingir R$ 545,9 bilhões, 2,9% acima do registrado em 2016. Para o mesmo ano, o mercado financeiro aposta que o PIB do setor, que calcula a quantidade de riqueza gerada no ano, deve crescer 3,6%, consolidando a agropecuária como o principal motor do País apesar da crise.

Essa força pode ser explicada pela capacidade produtiva dos agricultores e pecuaristas brasileiros. Apesar dos resultados, o produtor rural não é reconhecido por suas práticas, argumenta Alex Lopes, zootecnista e analista da Scot Consultoria, em entrevista ao HuffPost Brasil.

"Nos últimos anos de crise somos o único setor que tem sustentado a economia, ou reduzido as perdas do PIB. Mas a relação entre a sociedade e o produtor é preconceituosa e de pouca informação. Não se conhecem os processos. Nem os desafios de quem produz. E não se reconhece que produzir alimento é algo sagrado, e não criminoso como a gente vê quando se trata dos estereótipos do 'grande fazendeiro'."

A avaliação de Lopes reflete o sentimento dos produtores rurais, principalmente após a deflagração da Operação Carne Fraca, há quase um mês.

Desde que as informações de maquiagem de carne e propina paga a fiscais por empresas do setor vieram a público no dia 17 de março, não é possível dimensionar com exatidão quais foram as reais consequências para a reputação da carne brasileira.

Em entrevista ao Valor Econômico, o diretor de estatísticas e apoio às exportações do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (Mdic), Herlon Brandão, afirmou que a operação da Polícia Federal não afetou a média diária das exportações de carnes bovina, de frango e suína no último mês. Apesar da suspensão temporária das importações por alguns países logo depois que a operação estourou, houve um crescimento de 9% nas vendas.

Mas, se não houve alterações substanciais nas vendas externas dos produtos, para quem sobrevive no setor outra questão é mais relevante: a desconfiança generalizada no mercado.

em 21 dos 4.837 frigoríficos do País foram encontradas irregularidades nas carnes. Mas a repercussão da Carne Fraca atingiu em cheio a segurança do consumidor sobre o produto que está comprando nos açougues distribuídos pelo País.

Futuro incerto

Victor Campanelli é um dos diretores de uma empresa familiar cuja matriz é em Bebedouro, no interior do estado de São Paulo. Ele representa a quarta geração de uma família que vive exclusivamente da agricultura e da pecuária. Atualmente, produz cana de açúcar, milho e cria bois em pasto e confinamento.

Em entrevista ao HuffPost Brasil, Campanelli critica a falta de habilidade da Polícia Federal em repassar as informações apuradas para a população.

"Não dá para passar a mão na cabeça de quem está errado pensando que isso é o melhor para o País. Mas casos como este precisam ser explicados para a sociedade. Por exemplo, foi veiculado pela mídia imagens de carne bovina, mas você viu a lista dos frigoríficos que estavam listados entre aqueles 21? É tudo de frango, produtos industrializados e embutidos. Óbvio que esses caras precisam reconhecer e pagar pelos erros. Mas não pode generalizar."

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Para Campanelli, todos os pecuaristas, dos pequenos aos grandes, estão sofrendo os impactos da operação. Isso porque, embora os embargos dos países importadores tenham sido revertidos, leva um tempo para o mercado voltar à normalidade.

O analista Alex Lopes explica que o envolvimento da empresa JBS, dona de um dos maiores faturamentos no Brasil, na operação vai pressionar ainda mais o mercado, que é estritamente baseado na oferta e na procura das matérias-primas.

"Eles são os maiores compradores de matéria-prima nacional. Se eles saírem das negociações, terá uma redução na concorrência, e isso em qualquer mercado é prejudicial. Os outros compradores que permanecem no mercado passam a pressionar os preços e tudo isso faz que a gente tenha um viés baixista muito mais intenso do que em condições normais. No mercado do boi não se vê contratos ou pré-acordos. Por isso afeta todos os produtores."

Fiscalização rígida

"A forma mais fácil de um frigorífico fazer a sua imagem é trazer o pessoal para dentro."

O pecuarista Victor Campanelli chama atenção para os serviços de inspeção aos quais os produtores são submetidos. O Serviço de Inspeção Federal (SIF) está em mais de cinco mil estabelecimentos espalhados pelo País e regula a qualidade dos produtos de origem animal destinados ao mercado externo e interno.

Entre as competências do orgão estão a elaboração de diretrizes para a fiscalização e políticas agropecuárias do Brasil e a coleta de dados sobre as produções.

"As políticas brasileiras são eficientes. Você sabe que vai ter um fiscal na sua empresa diuturnamente, atestando a qualidade do seu produto. Qual outro setor tem isso? Um país que exporta para mais 150 países como o Brasil foi fiscalizado por cada um deles. Você acha que a China e os Estados Unidos simplesmente confiam na gente? Não. Eles têm os processos deles. E nós passamos no teste", argumenta Campanelli.

Orlando Negrão é diretor de operações de uma rede de frigoríficos que abate 2.500 animais por dia em Lençóis Paulista, interior de São Paulo. Em entrevista ao HuffPost Brasil, ele explica que a empresa tem um departamento específico para monitorar a procedência dos animais antes do abate.

"Usamos um software que é alimentado com informações do Ibama sobre área embargada de terras indígenas. Temos acesso a informações sobre o relevo e verificamos se as áreas da fazendas criadoras foram desmatadas. Esse sistema também é linkado ao site do Ministério do Trabalho. A gente recebe informações sobre denúncias de trabalho escravo. Tudo é monitorado; por isso, cada animal comprado para o abate passa por uma séria investigação a partir do nome do pecuarista e da região da fazenda. O abate só é feito se não for encontrado nenhum problema. A gente só compra de produtores com boas práticas, não tem segredo."

Plantar sementes

Com o desenvolvimento das tecnologias, o agronegócio tem se profissionalizado. Mas para Victor Campanelli, a revolução está em algo muito mais simples: a aproximação das novas gerações com o que é produzido no campo.

"Eu estudo muito sobre a agropecuária e frequento uma universidade no Texas (EUA). Posso dizer que o Brasil está na vanguarda das práticas sustentáveis e que temos uma das legislações ambientais mais rígidas do mundo. Mas, o que me frustra é ver que nessa universidade, por exemplo, eles têm uma fazenda que possui convênio com as escolas da região. Faz parte do currículo escolar frequentá-las para entender o que é a agricultura e a pecuária. O nosso pecado é não plantar as sementes nas crianças. Para mim, a solução para se ter uma maior transparência está em aproximar os jovens do que é produzido no campo. Somos um país que depende da agropecuária, mas a gente não fala sobre isso. Temos tanta história boa para contar. A força brasileira é algo enorme no mundo. Precisamos valorizar nossos produtos."

Comidas resgatadas do lixo

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