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O que você precisa saber sobre o programa nuclear da Coreia do Norte

O país disse que está preparado para ir à guerra contra os Estados Unidos caso Trump demonstre sinal de agressão.

14/04/2017 19:47 -03 | Atualizado 17/04/2017 13:57 -03
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Imagem obtida pela Reuters mostra Kim Jong Un acompanhando as atividades do Exército norte-coreano.

Desde a ascensão de Kim Jong Un, em 2011, a Coreia do Norte representa um desafio diplomático para os Estados Unidos. Pyongyang acelerou seu programa nuclear e em breve espera ter um míssil com armas nucleares capaz de alcançar os Estados Unidos.

À medida que as tensões se intensificaram nos últimos anos, o ex-presidente Barack Obama alertou seu sucessor, o presidente Donald Trump, de que uma Coreia do Norte nuclear provavelmente será a questão mais importante enfrentada pelo novo governo.

Apesar das garantias do presidente Trump de que "não haverá" uma Coreia do Norte nuclear, especialistas dizem que, se as tendências atuais continuarem, Kim pode muito bem ter essa capacidade em uma década. Eis os componentes do desenvolvimento nuclear da Coreia do Norte e os esforços do Ocidente para detê-lo.

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Foto tirada em fevereiro deste ano pela Agência Central de Notícias da Coréia do Norte mostra teste do Pukguksong-2 em localidade desconhecida.

Armas nucleares

A Coréia do Norte vem trabalhando há décadas para adquirir uma arma nuclear funcional. Essas aspirações começaram durante o governo do ex-líder supremo Kim Il Sung, no final da Segunda Guerra Mundial, e começaram a tomar forma sob o reinado de seu filho, Kim Jong Il, que em 2006 realizou o primeiro teste de uma arma nuclear do país.

O repórter do New York Times David Sanger explicou em entrevista a Dave Davies, da rede pública de rádio NPR, no mês passado:

"Kim Il Sung lembra que o general (Douglas) MacArthur, durante a Guerra da Coreia, queria usar armas nucleares contra a Coreia do Norte e contra a China. Ele foi impedido de fazê-lo. Mas isso causou uma grande impressão sobre o Sr. Kim, e ele sabia que a Coréia do Norte, para sobreviver e evitar um ataque desse tipo, precisava ter capacidade nuclear. Foi ele, o avô do atual líder norte-coreano, que começou a trilhar este caminho."

A Coreia do Norte comprou grande parte de sua tecnologia nuclear inicial de um dos fundadores do programa nuclear do Paquistão. As centrífugas de enriquecimento de urânio foram adquiridas da Líbia. Esses planos continuaram no governo de Kim Jong Il, o primeiro a testar uma arma nuclear, em 2006.

Agora acredita-se que o país tenha cerca de dez armas nucleares e material nuclear suficiente em estoque para produzir outras cem.

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Foto sem data mostra a reunião anual do comitê de governo da Coreia do Norte.

Testes Nucleares

Até agora, a Coréia do Norte realizou cinco testes de armas nucleares, todos em um local de testes subterrâneo no nordeste do país, chamado Punggye-ri. Essas explosões, que começaram em 2006, foram ficando mais potentes na última década, à medida que o país desenvolveu seu programa de armas.

Como observa o The New York Times, o primeiro teste, conduzido por Kim Jong Il, pai do atual líder, teve rendimento de menos de um quiloton, ou o equivalente a mil toneladas de TNT. O segundo, realizado três anos depois, registrou 2,35 quilotons. O teste mais recente, em setembro de 2016, foi o mais forte até agora, estimado pelo Ministério da Defesa da Coréia do Sul em dez quilotons, embora alguns especulem que a bomba possa ter produzido entre 20 e 30 quilotons.

[Como comparação, a bomba "the Little Boy", lançada contra Hiroshima, no Japão, tinha 15 quilotons. O College of Arts and Letters do Stevens Institute of Technology divulgou uma série de mapas em 2015 que mostram o impacto dessas armas em cidades de todo o mundo.]

Os mísseis

Além do desenvolvimento nuclear, a Coréia do Norte vem realizando uma campanha ativa e às vezes bem-sucedida de lançamento de mísseis balísticos, com o objetivo final de criar um míssil balístico intercontinental, ou ICBM na sigla em inglês, capaz de levar uma ogiva nuclear a solo americano.

Um infográfico criado pelo Centro de Estudos de Não-Proliferação para a Iniciativa da Ameaça Nuclear mostra o atual arsenal norte-coreano e seu alcance, incluindo vários tipos de mísseis não-testados capazes de chegar aos Estados Unidos. Acredita-se que o Musudan, a arma de longo alcance norte-coreana, seja capaz de alcançar o território americano de Guam, no Pacífico. Mas, em oito testes realizados no ano passado, apenas um, em junho, foi parcialmente bem-sucedido.

Em maio passado, oficiais de inteligência norte-americanos e sul-coreanos anunciaram que a Coreia do Norte agora consegue anexar uma pequena ogiva nuclear a mísseis capazes de alcançar grande parte da Coreia do Sul e do Japão. Especialistas dizem que em dez anos a Coreia do Norte pode ter a capacidade de atacar os Estados Unidos.

Testes de mísseis

Nos últimos meses, Kim, de 33 anos, supervisionou pessoalmente os lançamentos de vários mísseis balísticos. Embora o objetivo seja testar o arsenal da Coreia do Norte, os lançamentos também servem a um propósito político.

Vários dos testes recentes foram programados para coincidir com momentos estratégicos importantes para a região. O que aconteceu em fevereiro coincidiu com a reunião do primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, com Trump, no resort Mar-a-Lago, na Flórida. Outro deles, realizado este mês, aconteceu antes da visita do presidente chinês, Xi Jinping, aos Estados Unidos. Um lançamento em março foi conduzido em retaliação a exercícios militares conjuntos entre forças dos Estados Unidos e da Coréia do Sul.

O governo de Pyongyang, acuado, estaria fazendo uma demonstração de força – força que, segundo os especialistas, merece cada vez mais atenção.

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Cercado por soldados, Kim Jong-Un comemora lançamento de míssil balístico.

O que a Coréia do Norte quer

As aspirações nucleares da Coreia do Norte, segundo especialistas, estão relacionadas ao desejo de Kim de manter a nação isolada sob seu controle.

"Acima de tudo, o programa nuclear da Coreia do Norte tem a ver com segurança", disse John Delury, professor da Universidade Yonsei, em Seul, à BBC em setembro passado. "Segundo as estimativas deles, é a única garantia confiável da soberania básica do país, do controle do regime comunista e do poder de Kim Jong-un."

Sanger, o repórter do Times, ecoou essa opinião no Fresh Air:

"Se você considerar que seus objetivos são assegurar a sobrevivência do regime, garantir que a Coreia do Norte continue sendo o feudo pessoal da família Kim, eles têm uma estratégia bastante racional, na qual a lealdade está acima de tudo, na qual até mesmo os membros da família que desafiam a liderança acabam sendo executados. E, sob essa estrutura, os norte-coreanos, para um regime instável e irracional, têm sido muio eficientes desde 1953."

Resposta Internacional

Kim continuou testando armas, apesar das condenações cada vez mais duras da comunidade internacional. Em janeiro, as Nações Unidas impuseram suas sanções "mais duras até aqui" ao país, na tentativa de sufocar o programa.

Mas essas ações fracassaram no passado.

Em setembro, o ex-secretário-geral da ONU Ban Ki-moon disse que as ações dos norte-coreanos nos últimos anos levaram a um estado de instabilidade sem precedentes na região. Ele condenou o teste nuclear realizado na época "nos termos mais fortes possíveis".

"Nunca vi tal nível de tensão na Península Coreana", disse Ban.

Kevin Lamarque / Reuters
Em 2015, Ex-presidente Barack Obama faz discurso com a então presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, na Casa Branca.

A resposta de Obama

Sob o comando do presidente Obama, os Estados Unidos agiram cuidadosamente e se abstiveram de qualquer ação direta contra o regime de Kim. Como membros do Conselho de Segurança da ONU, os Estados Unidos ajudaram a aumentar as sanções contra o país após o teste nuclear de setembro.

"Os Estados Unidos são realistas sobre o efeito dessa resolução. Nenhuma resolução tomada em Nova York provavelmente persuadirá Pyongyang a cessar sua incansável busca pelas armas nucleares", disse na época a ex-embaixadora americana na ONU Samantha Power. Ela também afirmou que as sanções impõem "custos sem precedentes ao regime da Coreia do Norte por causa dos desafios às exigências deste Conselho".

Os Estados Unidos também teriam participado em operações mais secretas. Sanger e seu colega William Broad informaram em março que o governo Obama estava trabalhando havia anos na tentativa de sabotar os testes por meio de operações cibernéticas. Tais iniciativas, escreveu a dupla, podem ter afetado componentes dentro dos mísseis antes ou pouco depois dos lançamentos.

Embora as evidências sejam circunstanciais, Sanger afirma que no decorrer de sua apuração o Times observou que alguns mísseis, incluindo o Musudan, de alcance intermediário, apresentaram índices de falhas de 88%.

"Isso para um país que contratou um monte de ex-cientistas soviéticos após a queda do Muro de Berlim e do fim da União Soviética, levou-os para Pyongyang, comprou uma grande quantidade de sua tecnologia e em seus primeiros dias teve um índice de sucesso muito alto, porque se baseava em experiências dos soviéticos e, mais tarde, dos russos. E, de repente, o índice de falhas subiu enormemente."

Carlos Barria / Reuters
O presidente dos EUA, Donald Trump, recebe o presidente chinês Xi Jinping em Palm Beach, na Flórida, no início de abril.

O dilema de Trump

Apesar da condenação da ONU e do Ocidente, Kim não se mostra disposto a parar o desenvolvimento de armas. Na campanha, Trump prometeu conter o país isolado, mas conta com poucas boas opções para fazê-lo.

Observadores procuraram sinais de uma possível estratégia na primeira reunião entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, no início de abril.

A China poderia desempenhar um papel significativo, incentivando Pyongyang a inverter o curso. O país mantém relações comerciais com a Coreia do Norte, e empresas chinesas são responsáveis por até 40% da moeda estrangeira que o Norte usa para comercializar internacionalmente.

O governo Trump tinha subido o tom antes da reunião, e Trump chegou a ameaçar uma intervenção direta. Em entrevista ao jornal britânico Financial Times, ele afirmou: "Se a China não vai resolver a Coreia do Norte, nós vamos. Isso é tudo o que vou te dizer".

E, pouco depois do mais recente teste de mísseis, em março, o secretário de Estado, Rex Tillerson, deu uma resposta simples: "Acabou a política de paciência estratégica".

Mas uma ação direta representa grandes dificuldades, já que a capital da Coreia do Sul, Seul, fica a apenas 56 quilômetros da fronteira com o vizinho do norte, e a uma curta distância da artilharia não-nuclear do país. Se Trump fizesse algo, Kim poderia mirar em uma cidade de 12 milhões de habitantes, que há muito é aliada do Ocidente.

Também não está claro se ataques poderiam efetivamente alvejar o programa nuclear norte-coreano, já que a infra-estrutura está espalhada por todo o país e, em alguns casos, em instalações subterrâneas.

Na esteira da visita do presidente chinês à Flórida, Tillerson disse que Xi havia concordado em aumentar a cooperação para controlar a Coreia do Norte. Tillerson não deu nenhuma informação específica sobre como ambos os países pretendem fazê-lo. Só o tempo dirá como o governo Trump vai lidar com um país decidido a obter armas nucleares a qualquer custo.

Este texto foi publicado originalmente no The World Post e traduzido do inglês.

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