POLÍTICA

Como a delação de Marcelo Odebrecht complica Lula

“Vou disputar se me deixarem disputar e vou provar que esse país pode voltar a ser feliz", diz petista sobre 2018.

13/04/2017 11:29 -03 | Atualizado 13/04/2017 12:00 -03
Montagem / Dilvulgação Filipe Araújo / Reprodução Youtube
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Marcelo Odebrecht, ex-expresidente da empreiteira envolvida na Operação Lava Jato.

Candidato declarado ao Palácio do Planalto em 2018, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofreu mais um revés com a divulgação dos depoimentos da Odebrecht e corre o risco de ser condenado antes da disputa eleitoral.

Em depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, o ex-presidente da empreiteira, Marcelo Odebrecht, afirmou que a empresa "botou R$ 40 milhões que viriam para atender as demandas que viessem de Lula". Segundo o delator, o ex-presidente não pediu o dinheiro diretamente e a combinação foi intermediada por Antonio Palocci, ex-ministro dos governos de Lula e de Dilma Rousseff.

De acordo com o delator, os recursos negociados antes de Dilma assumir o Planalto seriam geridos por ela, de acordo com as vontades de seu antecessor.

A gente entendia que Lula ainda ia ter influência no PT. Como era uma relação nossa com a Presidência, PT, tudo se misturava. A gente botou R$ 40 milhões que viriam para atender as demandas que viessem de Lula. Eu sei disso. O Lula nunca me pediu diretamente. Essa informação eu combinei via Palocci.

O executivo diz não saber o destino de todo o dinheiro, mas sabe que alguns valores foram sacados em espécie, por exemplo, a pedido de Palocci. Lula era conhecido como "Amigo".

Ao longo do tempo, de acordo com Marcelo, houve duas situações em que ele identificou que o ex-presidente sabia do esquema: uma doação para o Instituto Lula em 2014 e a compra de um terreno.

"Veio o pedido para compra do terreno do Instituto IL, que eu não consigo me lembrar se foi via Paulo Okamotto ou via Bumlai. Com certeza foi um dos dois e depois eu falei com os dois. Eu deixei bem claro que se eu fosse comprar o terreno sairia do valor provisionado. A gente comprou o terreno, saiu do valor provisionado e depois a gente vendeu o terreno e voltou a creditar", afirmou o delator.

O petista também é acusado de envolvimento em esquema de favorecimento do Grupo Odebrecht em Angola, a pagamentos de palestras ao ex-presidente e à reforma feita pela empresa de um sítio em Atibaia, de uso da família Lula, além de pagamentos para facilitar a aprovação de uma Medida Provisória que beneficiaria a empreiteira e o suposto pagamento de uma espécie de mesada ao irmão de Lula pela empresa.

O ex-presidente é alvo de seis pedidos de investigações criminais enviados para a primeira instância, feitos com base na mega delação premiada do Grupo Odebrecht, que inclui 78 delatores.

Segundo o Ministério Público, os colaboradores narram o desenvolvimento das relações entre o Grupo Odebrecht e o governo federal, a criação do Setor de Operações Estruturadas, da empresa Braskem e os pagamentos intermediados por Palocci e pelo ex-ministro Guido Mantega.

Em depoimento, o empresário Emílio Odebrecht, presidente do Conselho de Administração da empresa, contou que o apoio ao PT começou antes de Lula ser candidato.

Lembro de, em uma dessas ocasiões, ter disso ao então presidente que o pessoal dele estava com a goela muito aberta. Estavam passando de jacaré para crocodilo.

Em nota, o advogado do ex-presidente, Cristiano Zanin Martins, afirmou que "o vazamento ilegal e sensacionalista das delações, nos trechos a ele referentes, apenas reforça o objetivo espúrio pretendido pelos agentes envolvidos: manchar a imagem de Lula e comprometer sua reputação".

De acordo com ele, as acusações são "frívolas" e caracterizadas pela "ausência total de qualquer materialidade. O que há são falas, suposições e ilações – e nenhuma prova", afirmou.

Outras acusações

Lula já responde a cinco processos. Em julho de 2016, se tornou réu na Lava Jato, acusado de tentar comprar o silêncio do delator Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras. A defesa diz que o petista nunca interferiu ou tentou interferir nas investigações.

Dois meses depois, o ex-presidente se tornou réu pela segunda vez no mesmo esquema, acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Procuradores afirmam que a OAS pagou R$ 3,7 milhões de propina a Lula por meio da reserva e reforma de um tríplex em Guarujá (SP). A defesa diz que ele não é dono do tríplex nem recebeu propina da OAS.

No mês seguinte, o petista se tornou réu pela terceira vez, acusado de corrupção, lavagem, tráfico de influência e organização criminosa. De acordo com o Ministério Público ele favoreceu contratos em Angola, financiados pelo BNDES. Em troca, a empreiteira havia pago R$ 30 milhões a Taiguara, sobrinho da ex-mulher de Lula. A defesa diz que ele nunca tratou das relações comerciais vinculadas a Taiguara.

Em dezembro, o ex-presidente foi acusado de tráfico de influência, lavagem e organização criminosa na Operação Zelotes. Luis Cláudio, filho de Lula, teria recebido R$ 2,5 milhões em troca de esquema para beneficiar clientes do escritório Marcondes e Mautoni. A defesa diz que os dois não conhecem as negociações.

No mesmo mês, o petista foi acusado de corrupção passiva e lavagem de dinheiro na Lava Jato pelo recebimento de propina por intermédio de Palocci. Ele nega a acusação.

2018

Mesmo diante do acúmulo de acusações, Lula mantém o discurso de candidato em 2018. "Vou disputar se me deixarem disputar e vou provar que esse país pode voltar a ser feliz", afirmou em entrevista à Rádio Metrópole, de Salvador, na manhã desta quinta-feira (13).

O ex-presidente lidera a disputa presidencial em 2018, segundo pesquisa realizada pelo instituto MDA, contratada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) e divulgada em fevereiro.

No primeiro cenário para o primeiro turno, com a presença do ex-ministro Ciro Gomes e do presidente Michel Temer, Lula tem 30,5%. A ex-senadora Marina Silva (Rede), 11,8% e o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), 11,3%.

O ex-presidente se disse ainda disposto a brigar e destacou o envolvimento de outros partidos nas delações da Odebrecht.

Quando aparecem outros partidos que criminalizaram o PT, primeiro você tem um alívio. A máscara está caindo. Mas queria que não tivesse o PT nem ninguém. Queria que se pudesse fazer política com contribuição pública, fiscalização rígida da Justiça Eleitoral. As contas dos partidos foram aprovadas nos Estados e no Tribunal Superior.

Na lista de inquéritos autorizados pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta semana, o PT lidera com 16 nomes, seguidos pelo PMDB, com 14 e pelo PSDB, com 11.

Protestos contra posse de Lula e governo Dilma

Leia mais

Lula diz que mais pobres vão ganhar meio salário mínimo com reforma da Previdência. Está certo?

O 'Estado-Odebrecht' não foi criado por Lula