ENTRETENIMENTO

O modo como a Pepsi usou a imagem de uma muçulmana em anúncio foi tão tosco quanto o resto do comercial

Um véu muçulmano não é um acessório de filmagem.

11/04/2017 15:01 -03 | Atualizado 11/04/2017 15:43 -03
Reprodução/Pepsi
Embora a Pepsi tenha tirado o comercial de circulação, esse tipo de apropriação da imagem de uma muçulmana não constitui novidade.

A tentativa da Pepsi de usar imagens de um suposto protesto para vender seu refrigerante foi um tiro que saiu pela culatra depois que a empresa foi obrigada a tirar do ar um anúncio com Kendall Jenner.

O anúncio foi ironizado tremendamente nas mídias sociais por pessoas dizendo que ele trivializa o Black Lives Matter e outros grupos sociais que levaram manifestantes para as ruas nos últimos anos.

Além de banalizar protestos contra casos de violência policial, o comercial foi criticado por usar imagens de uma muçulmana sem se deter sobre as questões que levaram mulheres muçulmanas a participar de protestos na vida real.

O comercial não mencionou nenhum dos problemas que vêm afetando os muçulmanos americanos nos últimos meses –a discriminação e vigilância com base religiosa, a medida do presidente Donald Trump para barrar a entrada de muçulmanos no país, sem declarar que o está fazendo, e seu silêncio retumbante em relação aos ataques a mesquitas; o bullying de crianças e adolescentes muçulmanos, a ascensão dos grupos supremacistas brancos e a luta pela vida de pessoas negras.

Mas o anúncio usou a imagem de uma muçulmana de véu na cabeça para vender refrigerante para a população.

Embora a Pepsi tenha tirado o comercial de circulação, esse tipo de apropriação da imagem de uma muçulmana não constitui novidade. E é pouco provável que desapareça no futuro próximo.

No anúncio, uma mulher usando o véu está diante de uma escrivaninha, fazendo um trabalho fotográfico. Frustrada com o avanço do trabalho, ela ouve manifestantes promovendo um protesto na rua e resolve pegar sua câmera e sair para a rua.

Ela chega justamente em tempo de captar Kendall Jenner oferecendo uma lata de Pepsi a um policial. Com isso, Jenner estaria dando uma solução ao problema do racismo.

Tasbeeh Herwees, editora adjunta na Good, chamou a atenção para como é "crasso" o retrato feito pela Pepsi da experiência de vida muçulmano-americana.

"A muçulmana no anúncio funciona como nada mais que um símbolo de diversidade e de uma noção vaga de resistência. Ela não passa de enfeite, do mesmo modo como imagens de muçulmanas são usadas como símbolos em fotos de protestos", escreveu Herwees.

A presença da mulher no anúncio provocou reações fortes nas mídias sociais.

("A Pepsi e Kendall Jenner cooptam a resistência para promover refrigerante. E assim uma mulher de jihab fica invisível")

("Esta não é uma boa representação")

("Um acessório, sem dúvida, portanto NÃO.")

("O comercial completo da Pepsi tem uma muçulmana filmando/fotografando o policial com a Pepsi. Morri.")

("Como mulher muçulmana negra que usa hijab, todos meus problemas são resolvidos por uma branca servindo Pepsi a um branco? Ah, tá. Entendi. #pepsi")

("Adoro a muçulmana de hijab, estranhamente irada e simbólica no comercial de Kandall Jenner. Obrigada, @pepsi, por representar a nós todas!")

Um pedido de comentário enviado à Pepsi não teve retorno. Na quarta-feira a Pepsi divulgou um comunicado à imprensa sobre o comercial.

"A Pepsi estava tentando projetar uma mensagem global de união, paz e entendimento. Evidentemente não alcançamos o objetivo. Pedimos desculpas. Não foi nossa intenção trivializar qualquer questão séria."

A Coca-Cola e a Microsoft também já publicaram anúncios com muçulmanas de véu nesta posição de protesto.

Para Herwees, imagens desse tipo são problemáticas porque convertem o corpo de muçulmanas em objetos que podem ser utilizados como acessórios de filmagem. E ela acredita que o fato de essas imagens ser manipuladas dessa maneira é na realidade um reflexo do estereótipo de que as mulheres muçulmanas são "dóceis ou subjugadas".

"É assim que movimentos são cooptados ou 'higienizados'. É assim que se arrancam os dentes de revoluções. É por isso que mulheres muçulmanas são perfeitas para transmitir mensagens: elas tão frequentemente são mostradas como sujeitas passivas da violência, e não perpetradoras de atos de violência", ela escreveu.

Em artigo publicado no The Wall Street Journal, Misha Euceph, jornalista muçulmana que não usa o hijab, observou que o comercial representa as muçulmanas "através de um só artigo de vestimenta".

"Entendo o desejo de criar uma cultura de inclusão, mas a linha que separa acolher as pessoas e usá-las como símbolos de algo é muito tênue", ela escreveu. "Hoje em dia as guerras culturais são travadas em cima dos corpos de mulheres de hijab, porque elas são as pessoas mais facilmente identificadas como muçulmanas. Deveríamos livrá-las dessa carga de representar 1,7 bilhão de pessoas muito diversas."

Este artigo foi publicado originalmente no HuffPost US e traduzido do inglês.

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