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Por que o argumento de Trump sobre preocupação humanitária com a Síria não convence

O presidente vem condenando refugiados há anos, especialmente os sírios.

09/04/2017 10:15 -03 | Atualizado 09/04/2017 10:45 -03
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Donald Trump, criticado por dizer que se preocupa com o povo sírio, mas não o suficiente para deixar as vítimas de Assad encontrar refúgio e liberdade nos EUA.

WASHINGTON ― Na noite de quinta-feira (5), enquanto o presidente Donald Trump anunciava um ataque militar à Síria devido à sua preocupação profunda com os "lindos bebês" e outros civis mortos em um ataque com armas químicas esta semana, duas batalhas legais continuavam em torno de seus esforços para impedir a entrada de crianças sírias e suas famílias nos Estados Unidos.

O primeiro decreto de Trump proibindo a entrada no país de refugiados e pessoas vindas de sete países de maioria muçulmana ainda está sendo litigado em um tribunal federal em Seattle. Sua segunda tentativa de barrar a entrada de muçulmanos ainda está sendo bloqueada por um juiz federal no Havaí, com um recurso a ser julgado por um tribunal de apelações em maio.

As duas ordens executivas barraram o ingresso de refugiados, tendo sírios como alvos especiais. A linguagem em que foram redigidas ecoou o discurso de campanha de Trump em relação à crise humanitária enfrentada por mais de 20 milhões de pessoas da Síria. Em setembro o então candidato Trump declarou que barrar a entrada de refugiados sírios nos Estados Unidos é "uma questão de terrorismo" e "uma questão de qualidade de vida".

Desde sua posse, Trump já reiterou mentiras sobre problemas supostamente criados por refugiados na Suécia. E sua administração vem procurando enganar o público em relação ao número de refugiados investigados por acusações de terrorismo. O Washington Post, no mês passado, qualificou o discurso de Trump sobre essa questão como "altamente enganoso".

Depois de uma análise da inteligência americana ter sugerido que o presidente sírio Bashar Assad teria utilizado a arma química proibida sarin em um ataque na terça-feira contra um vilarejo controlado pela oposição síria, Trump falou várias vezes sobre crianças e outros civis afetados.

"Assad sufocou a vida de homens, mulheres e crianças indefesos. Foi uma morte lenta e brutal para tantas pessoas. Mesmo lindos bebês foram cruelmente assassinados neste ataque cheio de barbárie", disse Trump depois de lançar o ataque aéreo na noite de quinta-feira. "Nenhum filho de Deus jamais deveria sofrer tal horror."

Após o ataque, a Casa Branca confirmou que Trump não mudou sua posição sobre os refugiados. Segundo relato do pool de imprensa da Casa Branca, o assessor de Segurança Nacional James McMaster disse que a questão dos refugiados "não foi discutida como qualquer parte das deliberações" sobre os ataques aéreos.

A hipocrisia não passou despercebida.

Então o presidente dos EUA se preocupa com o povo sírio o suficiente para lançar 50 mísseis Tomahawk, mas não o suficiente para deixar as vítimas de Assad encontrar refúgio e liberdade aqui.

Você não tem postura moral elevada quando bombardeia um país e então proíbe a entrada de seus refugiados. #Syria

Em comunicado divulgado na manhã de sexta-feira (7), Margaret Huang, diretora executiva da Anistia Internacional EUA, disse que Trump demonstrou "indiferença brutal pelos sírios que procuram escapar de seu país para salvar suas vidas". Ela pediu que o governo revogue imediatamente sua proibição de ingresso de refugiados no país.

"A América precisa fazer mais para acolher e proteger os homens, mulheres e crianças sírias inocentes que escapam da brutalidade contra a qual o presidente Trump reagiu na noite passada", disse em comunicado à imprensa na tarde de sexta-feira Mark Hetfield, presidente e CEO da organização judaica de reassentamento de refugiados HIAS. "Uma reação humanitária igualmente forte é necessária com urgência, e os Estados Unidos tem a oportunidade de liderar por seu exemplo. Esperemos que a ação de ontem seja um sinal de que a administração Trump vai mudar de direção quando se trata de socorrer esta população vulnerável."

David Miliband, presidente da ONG humanitária International Rescue Committee, exortou Trump a apresentar uma estratégia de longo prazo.

O único resultado positivo que pode advir desta semana na Síria: o fim da impunidade e o início de um plano sério para acabar com a matança.

Mais de 11 milhões de sírios foram deslocados e expulsos de suas casas desde que a guerra civil síria começou, em 2011, quando Assad atacou protestos pacíficos contra o governo comandado por sua família havia décadas.

"Em muitos casos, são as crianças envolvidas nesta crise que estão sendo as mais atingidas, perdendo familiares ou amigos na violência, sofrendo traumas físicos e psicológicos ou perdendo aulas", escreveu em um post a ONG World Vision no dia 15 de março, o sexto aniversário da guerra civil. "As crianças afetadas pela crise de refugiados sírios correm o risco de ficar doentes, malnutridas, ser exploradas ou agredidas."

É pouco provável que o ataque aéreo lançado por Trump tenha qualquer impacto sério sobre o sofrimento da população civil. Uma demonstração isolada de força dos EUA pode ajudar o presidente e sua equipe a sentir que fizeram algo de concreto. Mas os ataques do regime Assad contra a população síria provavelmente vão continuar, possivelmente após um intervalo breve.

Na própria noite de quinta-feira o secretário de Estado, Rex Tillerson, sugeriu que será esse o caso, dizendo a jornalistas que não devem esperar uma mudança de posição dos EUA no sentido de tentar forçar diretamente o afastamento de Assad.

"Se Trump quiser apenas que Assad pare de usar armas químicas, mas não fizer nada em relação aos cercos, a tortura e as execuções em massa, Assad provavelmente dirá 'negócio fechado'", tuitou Kristyan Benedict, gerente de campanhas da Anistia Internacional Reino Unido. "Interromper os ataques de Assad com armas químicas tem valor, é claro, mas as armas químicas são apenas uma das ferramentas usadas pelo regime para semear o terror entre os civis e perpetuar-se no poder."

Com reportagem de Rowaida Abdelaziz.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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