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O relato de um sobrevivente da guerra na Síria e o dilema de Trump

“Não queremos ser refugiados, queremos ficar no nosso país. (…) O que Trump fez foi incrível, foi uma poderosa mensagem de esperança”, diz Kassam Eid.

09/04/2017 15:32 -03 | Atualizado 09/04/2017 17:04 -03

Ao atacar o regime do ditador Bashar al-Asaad, o presidente Donald Trump conseguiu não só aplausos de grandes potências internacionais, mas também de sírios.

Em um relato comovente à rede americana CNN, o sírio Kassam Eid agradece ao presidente norte-americano por ter reagido ao massacre com o gás asfixiante sarin, ordenado por Asaad, que deixou mais de 80 mortos Khan Sheikhoun (região controlada por rebeldes).

Kassam, que hoje mora na Alemanha, é um sobrevivente da guerra que já dura mais de seis anos. Questionado sobre a justificativa de Trump de proteção aos sírios, o sírio confronta o principal argumento dos que condenam a ação de Trump: A proteção aos refugiados.

Para ele, há hipocrisia.

"Com todo devido respeito, eu não vi nenhuma pessoa que estava protestando contra a entrada de refugiados três dias atrás protestando quando civis foram mortos intoxicados com gás. Eu não vi vocês em 2013, quando 1,4 mil pessoas foram mortas intoxicadas com gás.

Eu não vi vocês levantando a voz contra a inação do (então) presidente Obama na Síria que nos levou ao refúgio, que nos fez refugiados sermos expulsos da Síria.

Nós não queremos ir para os Estados Unidos, queremos ficar no nosso país. Com todo respeito, isso é hipocrisia. Nós não queremos ser refugiados. Nos ajude a criar zonas seguras."

Leia a íntegra do relato:

"Eu chorei de alegria, eu agradeci à Deus. Eu estava sobrecarregado. Nós vemos pedindo por proteção, nós temos pedido por consequências a mais de seis anos. E pela primeira vez isso aconteceu. Pela primeira vez, nós vimos Assad sendo responsabilizado uma só vez, sendo responsabilizado pelos crimes contra a humanidade. Eu estava sobrecarregado. Sou grato ao presidente Trump. Sou grato pelos Estados Unidos, sou grato por cada um que continuou falando até que alguém realmente escutasse.

Com todo devido respeito, eu não vi nenhuma pessoa que estava protestando contra a entrada de refugiados três dias atrás protestando quando civis foram mortos intoxicados com gás. Eu não vi vocês em 2013, quando 1,4 mil pessoas foram mortas intoxicadas com gás. Eu não vi vocês levantando a voz contra a inação do (então) presidente Obama na Síria que nos levou ao refúgio, que nos fez refugiados sermos expulsos da Síria. Se você realmente se importa com os refugiados se você realmente nos importa em nos ajudar, por favor, nos ajude a ficar em nosso país. Nós não queremos ir para os Estados Unidos, queremos ficar no nosso país. Com todo respeito, isso é hipocrisia. Nós não queremos ser refugiados. Nos ajude a criar zonas seguras.

O que o presidente Trump fez foi incrível, foi uma poderosa mensagem de esperança. Por favor não pare com isso."

Críticas

Por outro lado, os que questionam a justificativa de Trump afirmam que se ele quisesse ajudar um dos passos seria abrir a fronteira.

Reportagem do HuffPost US ressalta que "em setembro o então candidato Trump declarou que barrar a entrada de refugiados sírios nos Estados Unidos é 'uma questão de terrorismo'e 'uma questão de qualidade de vida'".

O congressista Seth Moulton foi um dos que destacou a atitude do presidente:

"Então o presidente dos EUA se preocupa com o povo sírio o suficiente para lançar 50 mísseis Tomahawk, mas não o suficiente para deixar as vítimas de Assad encontrar refúgio e liberdade aqui", disse.

Entre os críticos do ataque, há os que enxergam o lado positivo da retaliação como fim da impunidade. A mesma tese que sustenta os aplausos de países como França, Canadá e Alemanha. Todos concordam que Asaad não pode matar milhares e não sofrer nenhuma consequência.

Há, no entanto, os que dizem que ainda falta uma atitude para longo prazo. David Miliband, presidente da ONG humanitária International Rescue Committee, é um dos que pensam assim:

O único resultado positivo que pode advir desta semana na Síria: O fim da impunidade e o início de um plano sério para acabar com a matança.

Inação de Obama em 2013

Embora uma das críticas de Kassam com relação ao ex-presidente Barack Obama seja a de que ele não agiu em 2013 quando outro ataque de Asaad com gás sarin deixou 1,4 mil mortos, a imprensa internacional ressalta a similaridade entre o desejo de Obama e a ação de Trump.

Em 2013, Obama também tentou atacar a Síria, mas diferente de Trump, ele pediu aval do Congresso, que não se mostrou disposto a aceitar a ofensiva.

Naquele ano, Trump foi um dos opositores.

O presidente Obama precisa do aval do Congresso antes de atacar a Síria. Erro grande se não o fizer.

De novo, para nosso imprudente líder, não ataque a Síria. Se você fizer, muitas coisas ruins vão acontecer. Os Estados Unidos não ganham nada com essa briga.

Leia mais:

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