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Como o Estado Islâmico conquista militantes: 'Você vem aqui para viver, não para morrer'

O grupo reproduz uma utopia. Às vezes, mostram imagens de grandes paisagens de pôr-do-sol, animais ou crianças brincando em parques temáticos.

09/04/2017 17:11 -03 | Atualizado 09/04/2017 19:24 -03
SCREENSHOT FROM ISIS PROPAGANDA VIDEO
Parque Temático Dijla City, supostamente comandado pelo EI, nos arredores de Mossul, Iraque.

Como o EI descreve as mulheres em sua propaganda oficial nos diz muito sobre o papel que elas desempenham no grupo. Como parte da série especial "Mulheres e o Jihad", o Women & Girls Hub conversou com o pesquisador Charlie Winter sobre o poder da promessa extremista.

Nos anos desde que surgiu das cinzas do grupo Al-Qaeda no Iraque, em 2010, o chamado Estado Islâmico (EI) tem revolucionado a arte da mensagem jihadista, produzindo propaganda em escala industrial. Em vez de vídeos fora de foco e discursos estáticos sobre insurgências islâmicas que vieram antes (lembre-se de Osama bin Laden, sentado, ameaçando o Ocidente com uma parede branca ao fundo), o EI trouxe sua missão firmemente para o século 21 com jornais produzidos profissionalmente, revistas atrativas, vídeos estilizados e fotos. Elaborados para chocar e inspirar em igual medida, eles descrevem em detalhe gráfico a utopia islâmica que o grupo promove.

Charlie Winter, pesquisador sênior do Departamento de Estudos de Guerra do King's College de Londres, passou vários anos examinando a propaganda do EI tanto em inglês quanto em árabe. Ele diz que a forma como fazem referência às mulheres no material dá pistas cruciais para entender a função que elas exercem no grupo.

Central para esta questão são as jihadistas mulheres assumindo um papel no combate. Imagens na mídia social de mulheres usando armas ou participando de treinamento militar na Síria e Iraque foram apontadas pela mídia como evidência de que elas estão sendo encorajadas a lutar. Mas, segundo Winter, aquelas imagens não são produzidas ou disseminadas pelos canais de propaganda oficiais. Na verdade, elas contradizem as claras linhas políticas da liderança do grupo, segundo as quais as mulheres não devem se envolver em violência, a menos que não haja outra opção.

Women & Girls conversou com Winter sobre como a propaganda radical jihadista fala para e das mulheres.

Women & Girls: Que tipo de propaganda foi analisada?

Charlie Winter: Na grande maioria dos casos, estou analisando propaganda em língua árabe. O Estado Islâmico depende de material em árabe que é facilmente traduzido ou é muito visual, assim, o maior número de pessoas possível pode absorver a mensagem.

Embora haja muita violência na propaganda, a violência é sempre retaliatória ou retributiva. A mídia é majoritariamente projetada para dar uma ideia holística de como é a vida no califado, mesmo caso tenha pouca ou nenhuma semelhança com a realidade. Seja na condução de assuntos do vilarejo, do sistema de bem-estar social, mercados ou agricultura — a ideia é criar uma imagem de uma utopia. Às vezes, mostram imagens de grandes paisagens de pôr-do-sol, animais ou crianças brincando em parques temáticos. A mensagem é bastante clara: "Você vem aqui para viver, não para morrer".

Uma parte muito importante dessa mesma mensagem utópica são imagens de indivíduos gays sendo jogados de edifícios, e pessoas tendo as mãos cortadas e sendo decapitadas. Ainda que esse tipo de coisa seja desagradável, é direcionada para a apresentação e para enfatizar ideais utópicos que eles propagam.

O EI utiliza a revista de língua inglesa Rumiyah, que significa Roma, para espalhar sua ideologia extremista no Ocidente.

Há alguma propaganda dirigida às mulheres?

A revista de propaganda Rumiyah do EI em inglês, em particular, teve alguns artigos interessantes que se aproximaram da questão de gênero a partir de uma perspectiva misógina, típica do Estado Islâmico. Na maioria dos casos, encorajam as mulheres para que se certifiquem de casar e de ter muitos filhos.

Nas últimas edições da Rumiyah, havia um artigo intitulado: "Vou Ultrapassar As Outras Nações Através de Você". Essencialmente, dizia que a melhor coisa que as mulheres podem fazer pelo jihad é ter filhos, e como isso ajudará e promoverá a conquista do mundo. Um mês antes, havia um artigo sobre casamento com viúvas. O artigo dizia que as mulheres têm obrigação de se casar de novo depois que o marido morre, mesmo se isso acontecer uma centena de vezes.

Algum tipo de propaganda encoraja as mulheres a pegar em armas e lutar?

Havia um vídeo em 2014 ou 2015, saindo da Síria central, onde um comandante de tanque do Exército sírio foi levado para ser executado. Diziam que o homem era responsável pela morte de um combatente do EI. Por essa razão, disseram que permitiriam que a viúva do homem executasse o comandante de tanque. Você nunca a vê ou ouve, mas alguém fora da câmera atira na nuca dele. Foi a única vez que vi uma mulher figurar — ainda que ela nunca tivesse realmente aparecido na câmera — como protagonista em um vídeo de propaganda.

O que está muito claro é que nunca houve nenhuma diretiva emitida por Abu Bakr al-Baghdadi [líder do EI] ou por seu conselheiro da Sharia dizendo que as mulheres têm permissão para matar ou até mesmo lutar. Um bom exemplo é um artigo mencionando o recente incidente no Quênia, onde três mulheres simpatizantes do Estado Islâmico atacaram uma delegacia de polícia. A carta que as mulheres supostamente escreveram em inglês [prometendo fidelidade ao EI] foi anexada ao final de um prefácio intitulado: "A Mensagem da África Oriental". Embora houvesse elogios às três mulheres que conduziram o ataque, a mensagem subjacente era: "Realmente não queremos que vocês façam isso. Realmente, são os homens que devem conduzir esses ataques".

Como isso é visto por grupos como o Boko Haram — considerado afiliado oficial do EI—, que tem amplamente promovido o uso de mulheres em ataques suicidas?

A província do EI na África Ocidental é essencialmente Boko Haram, e é um relação particularmente estranha. Acho que o Estado Islâmico apenas reconhece e divulga uma minúscula minoria de ataques conduzidos pelo Boko Haram e, certamente, nunca comenta nada quando uma mulher-bomba é supostamente autora do ataque suicida. Embora ainda se refiram à província da África Ocidental como uma província do Estado Islâmico, acho que é apenas um rótulo, e não é nem de longe uma relação coerente como poderíamos pensar.

E as imagens que vemos na mídia social de mulheres no Iraque e na Síria segurando armas? São apenas para fins de recrutamento?

Certamente apareceram fotos de mulheres que estariam na Síria ou Iraque treinando com AK-47 ou pistolas. Algum tipo de treinamento militar claramente aconteceu, mas acho que tem mais a ver com autodefesa do que qualquer outra coisa. As imagens de mulheres com armas certamente nunca não são colocadas em canais de mídia oficial do EI. É mais provável que venham de simpatizantes ocidentais do grupo — ou das próprias mulheres ou pessoas tentando recrutar mulheres. É possível que isso tenha sido fonte de desapontamento para mulheres que viajaram ao território do EI para se juntar à causa. No entanto, a organização é muito boa para controlar mensagens dentro do território, por isso, vozes dissidentes nunca são divulgadas.

Dito isso, não ficaria surpreso se, nos próximos meses, com as coisas se tornando realmente desesperadoras para o Estado Islâmico, as mulheres comecem a desempenhar um papel militar ou pelo menos um papel militar de apoio mais explícito. Traduzi um manifesto escrito por alguém na al-Khansaa Brigade – a unidade de polícia feminina no califado — e havia uma pequena seção tratando da questão se as mulheres devem ter permissão para lutar. Nesse manifesto, dizia-se que não era permitido, a não ser que o califa permitisse, e isso apenas aconteceria se a situação fosse realmente desesperadora, se fosse algo parecido com a Chechênia nos anos 90 ou no Iraque na década de 2000. Por isso, existe um reconhecimento explícito de que as mulheres, às vezes, podem desempenhar um papel militar. Os jihadistas são mestres em encontrar brechas.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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