MULHERES

'Tem que ser casca grossa' e ter grau de tolerância com assédio, diz Maitê Proença

“Tem que haver um grau de tolerância, ou a vida fica rígida e chata”, defende a atriz.

08/04/2017 12:19 -03 | Atualizado 08/04/2017 12:27 -03
Montagem/Divulgação
Atriz Maitê Proença defende reflexão sobre o caso que envolve o amigo José Mayer.

O debate sobre assédio sexual gerado pelo caso do ator José Mayer engloba tanto os que defendem mais denúncias quanto os que ressaltam que a mulher também "tenha um grau de tolerância".

Este último é o caso da atriz Maitê Proença. Amiga de José Mayer, acusado de assédio contra a figurinista Su Tonami, Maitê reconhece o erro do ator, considera inadmissível a postura dele, mas faz uma reflexão:

"Mas justamente, talvez o Zé tenha se movido, não por um condicionamento de sua 'geração machista', como disse - porque outros de sua geração não agem desta forma - mas sim por sentir que esteja perdendo o apelo do galã desejado por todas, jovens e maduras. Talvez esteja internamente enraivecido com essa traição do Tempo, de que nem os galãs se safam. Foi descontar na juventude da menina e fez feio."

Neste contexto, a atriz ressalta que a construção do Brasil tem sua particularidade. "A moça passa na obra, os rapazes gritam gostosa, ela e rebola ainda mais. Tira de letra!"

Maitê diz que o meio artístico é mais permissivo e que "quem entra ali tem que ter casca grossa".

"Ali a moça escuta e dá o troco com graça ou com tapa, mas se vira. Tem que haver um grau de tolerância, ou a vida fica rígida e chata."

Para ela, no entanto, o caso de Su Tonami parece ser um daqueles em que a moça "engole por medo de perder o emprego (...) até que um dia não consegue mais". "O agressor atravessou tanto a linha proibida, que vale a pena pra moça colocar tudo a perder."

Contraste

O posicionamento de Maitê contrasta com o de algumas mulheres, como a especialista em combate à violência contra a mulher e promotora de Justiça, Gabriela Mansur. Em entrevista ao HuffPost Brasil, em janeiro deste ano, a procuradora defendeu maior conscientização dos homens.

"Não há conscientização dos homens de respeito às mulheres, que nós somos titulares de direitos e que não se justifica nenhuma violência contra a mulher. A causa (da igualdade de gênero) tem de ser prioritária", alertou.

Ao HuffPost Brasil, Jules de Faria, do coletivo Think Olga e responsável pelo filme Chega de Fiu Fiu, também mostrou uma opinião diferente sobre as cantadas em obras. Para muitas mulheres, sair de casa não é uma tarefa fácil.

Pesquisa divulgada pelo coletivo em 2013, mostra que 81% das entrevistadas disseram que já deixaram de sair para algum lugar com medo de sofrer assédio e 90% trocaram de roupa por receio de passar por esse tipo de situação.

A luta dela é para que situações como essas não se repitam.

"Nós estamos acostumadas a mudar de calçada para não passar na frente de um grupo de homens, não passar na frente de um bar ou pensar duas vezes antes de colocar uma saia mais curta", disse ao HuffPost Brasil.

Caso Zé Mayer

O caso de assédio do ator José Mayer com a figurinista Su Tonami colocou chamas no debate sobre violência contra a mulher.

O relato de Su foi publicado no blog #agoraquesãoelas, da Folha de S.Paulo, no dia 31 de março. No mesmo dia, o jornal retirou o texto do ar, com o argumento de que o outro lado não foi ouvido. Em seguida, o texto foi publicado novamente.

No texto, a figurinista expõe as cenas que viveu. Segundo ela, o ator começou com elogios e foi evoluindo de frases como "você é muito bonita" para "fico olhando sua bundinha e imaginando seu peitinho".

Até que um dia: "Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo".

No mesmo dia, o ator afirmou que as palavras e atitudes foram do personagem ao qual ele interpretava na novela 'Lei do Amor' e não dele.

"As palavras e atitudes que me atribuíram são próprias do machismo e da misoginia do personagem Tião Bezerra... Não são minhas!"

Quatro dias depois, ele assumiu que foi autor do assédio e pediu desculpas. Disse ainda que esperava que o reconhecimento público servisse para alertar a tantas pessoas da mesma geração que ele.

Um dia antes, a Rede Globo havia o suspendido por tempo indeterminado de sua programação.

O caso tem incentivado mulheres a não se silenciar diante a violência.

Desde 2005, a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, funciona em todo o Brasil e auxilia mulheres em situação de violência 24 horas por dia, sete dias por semana. O próximo passo é procurar uma Delegacia da Mulher ou Delegacia de Defesa da Mulher. O Instituto Patrícia Galvão, referência na defesa da mulher, tem uma página completa com endereços no Brasil. Clique aqui.

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