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Apenas alguns parlamentares se deram ao trabalho de questionar o ataque de Trump na Síria

Mas muitos políticos afirmaram que o presidente deveria ter pedido autorização ao Congresso.

08/04/2017 18:06 -03 | Atualizado 08/04/2017 18:32 -03
Kevin Lamarque / Reuters
"Nossas intervenções nessa região nunca nos tornaram mais seguros, e na Síria não será diferente", diz o senador Rand Paul sobre a decisão de Trump (foto).

Com as notícias da decisão do presidente Donald Trump de fazer o primeiro ataque direto dos Estados Unidos contra o governo sírio, muitos parlamentares questionaram o fato de o presidente fazê-lo sem autorização do Congresso. Poucos, entretanto, questionaram a sabedoria dos ataques.

Entre os que se opuseram ao bombardeio na Síria foi Rand Paul, senador pelo estado do Kentucky, um dos críticos mais ferrenhos a intervenções no exterior.

Nossas intervenções nessa região nunca nos tornaram mais seguros, e na Síria não será diferente.

A deputada Tulsi Gabbard, democrata do Havaí que se reuniu com o presidente sírio, Bashar Assad, em janeiro, disse que Trump agiu de forma "temerária".

"Me irrita e me entristece que o presidente Trump tenha ouvido o conselho de defensores da guerra e escalado nosso confronto pela mudança de regime na Síria", disse Gabbard em comunicado. "Essa escalada é míope e vai causar a morte de mais civis, mais refugiados, o fortalecimento da Al Qaeda e outros terroristas e uma possível guerra nuclear entre os Estados Unidos e a Rússia."

O deputado democrata Ro Khanna, da Califórnia, também questionou as intenções do ataque.

Ainda não aprendemos com os desastres no Iraque e na Líbia? Agora a Síria? Todas as vezes que atacamos, desde 2001, o terrorismo se espalhou.

Seu colega de partido Ruben Gallego, do Arizona, fez o mesmo.

Qual é a estratégia? Qual é nosso objetivo final? Por que tínhamos de atacar hoje? Não é assim que você conduz um ataque militar.

O democrata Seth Moulton, de Massachusetts, indicou que Trump quer impedir a entrada de refugiados sírios nos Estados Unidos, apesar de afirmar que o bombardeio de ontem foi motivado pelas vítimas civis do recente ataque com armas químicas.

Então o presidente se importa com a população síria o suficiente para lançar 50 Tomahawks, mas não o suficiente para permitir que as vítimas de Assad busquem refúgio e liberdade aqui.

A deputada Bonnie Watson Coleman, democrata de Nova Jersey, também denunciou a hipocrisia de Trump.

É clara hipocrisia que você condene os crimes de Assad mas não permita que suas vítimas busquem asilo em nosso país.

A maioria dos críticos, entretanto, parecia mais preocupada com o processo de Trump em relação aos ataques, não com os ataques em si.

Barbara Lee, democrata da Califórnia, foi a única parlamentar em 2001 a votar contra a Autorização para o Uso de Força Militar, a justificava ampla ainda em uso hoje. Ela descreveu o bombardeio de ontem como um "ato de guerra".

É um ato de guerra. O Congresso precisa se reunir e debater. Qualquer coisa menos que isso é abdicar de nossa responsabilidade.

"Assad é um ditador brutal e deve ser responsabilizado por suas ações", disse Tim Kaine, senador democrata da Virgínia e candidato a vice na chapa de Hillary Clinton na eleição do ano passado. "Mas o presidente Trump lançou um ataque militar contra a Síria sem que o Congresso votasse. A Constituição diz que o Congresso tem de declarar guerra. Votei por um ataque militar contra a Síria em 2012, quando Donald Trump defendia que os Estados Unidos virassem as costas para as atrocidades de Assad. Vamos trabalhar com o presidente, mas o fato de ele não buscar a aprovação do Congresso é ilegal."

Chris Coons, democrata de Delaware e integrante do Comitê de Relações Exteriores, disse sentir-se "encorajado" pelo ataque, mas "muito preocupado que os Estados Unidos estejam se envolvendo militarmente na Síria sem um plano abrangente e bem pensado."

"Francamente, as ações do presidente geram mais dúvidas que respostas", afirmou Coons.

"A questão agora é quais serão as consequências e reações, e quais são os planos e objetivos de longo prazo do presidente a respeito do envolvimento americano na Síria", disse o senador Jack Reed, democrata de Rhode Island e mais alto representante do Partido Democrata no Comitê de Serviços Armados do Senado. "O governo também terá de definir a justificativa legal para as ações de hoje à noite e quaisquer operações militares futuras contra o regime de Assad, como parte de suas consultas com o Congresso."

Joaquin Castro, deputado democrata do Texas, também mencionou o papel do Congresso.

"Esta noite, os Estados Unidos dispararam mísseis contra uma base área na Síria. Os repetidos ataques com armas químicas do governo de Assad contra seus próprios cidadãos são crimes de guerra e inegavelmente horríveis, mas o Congresso desempenha um papel importante na autorização do uso da força militar. Continuo acreditando que o Congresso tem de autorizar qualquer uso adicional de força contra o governo sírio."

Thomas Massie, deputado republicano de Kentucky, destacou um tweet de 2013 de Trump.

O presidente tem de obter aprovação do Congresso antes de atacar a Síria – grande erro se não o fizer!

Justin Amash, republicano de Michigan, também expressou preocupação em relação à falta de autorização por parte do Congresso:

Ataques aéreos são atos de guerra. As atrocidades na Síria não podem justificar os desvios em relação à Constituição, que dão ao Congresso o poder de começar uma guerra.

Obviamente, os ataques receberam elogios de vários republicanos, incluindo os senadores John McCain (Arizona) e Lindsey Graham (Carolina do Sul), dois dos maiores defensores do uso de força.

"Ao contrário do governo anterior, o presidente Trump viu-se diante de um momento decisivo e agiu. Por isso, merece o apoio da população americana", disseram McCain e Graham em um comunicado conjunto.

O presidente da Câmara, Paul Ryan (republicano de Wisconsin) afirmou que o ataque foi "apropriado e justo".

Mas outros republicanos demonstraram preocupação em relação ao papel do Congresso.

Bob Corker, senador pelo Tennessee e presidente do Comitê de Relações Exteriores do Senado, disse apoiar o ataque, mas pediu que o governo se comunique mais com o Congresso em ações futuras.

"No futuro, será importante que o governo envolva o Congresso e comunique claramente sua estratégia à população", disse Corker.

"Assad foi avisado repetidas vezes, pelos Estados Unidos e pela ONU, que atacar homens, mulheres e crianças inocentes é intolerável", disse Ed Royce, presidente do Comitê de Relações Exteriores da Câmara. "Agora ele foi pego no flagra realizando outro terrível ataque com armas químicas, e o governo decidiu responder. No futuro, o governo tem de trabalhar com o Congresso e mostrar objetivos claros para a Síria e para a região."

Alguns democratas importantes, como o líder Chuck Schumer, de Nova York, usaram palavras muito parecidas com as dos republicanos. Eles elogiaram a decisão de atacar, mas afirmaram que novas ações devem ser apresentadas ao Congresso.

"Certificar-se de que Assad sabe que vai pagar o preço se cometer tais atrocidades desprezíveis é a coisa certa a fazer", disse Schumer. "Mas o governo Trump tem de definir uma estratégia com o Congresso antes de implementá-la."

O senador democrata Dick Durbin, de Illinois, sugeriu que a população deva ser consultada se Trump quiser escalar o envolvimento militar.

"O briefing preliminar que recebi na Casa Branca indicou que essa foi uma resposta à atrocidade do ataque com armas químicas. Qualquer outra ação vai exigir exame minucioso do Congresso, e uma escalada além de ataques aéreos ou com mísseis vai exigir o envolvimento da população americana na decisão."

O senador Ben Cardin, democrata de Maryland e mais alto integrante de seu partido no Comitê de Relações Exteriores do Senado, disse que o ataque foi "um sinal claro de que os Estados Unidos vão defender normas aceitas internacionalmente e regras contra o uso de armas químicas".

"Entretanto, e devo enfatizar, qualquer operação maior ou de prazo mais longo na Síria tem de ser realizada em consultas com o Congresso", afirmou Cardin.

O senador Bill Nelson, democrata da Flórida, expressou apoio:

Apoio o ataque contra a base aérea que realizou o ataque com armas químicas. Espero que isso ensine a Assad a não usá-las de novo.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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